2010.03.11

É fácil tipificar as pessoas pela percepção que têm da existência de momentos para falar e momentos para calar. Há pessoas que têm esta percepção e agem de acordo com ela. Há pessoas que tem esta percepção e não agem de acordo com ela — porque não conseguem segurar as palavras dentro da boca ou porque são malcriadas e não o querem fazer. Há pessoas que não têm esta percepção. Esta tipologia, ferida por todos os males das tipologias, não está associada ao sexo, à idade, ao nível de escolaridade, à classe social delas ou dos seus pais, à condição perante o trabalho, à situação na profissão, à área de residência, à tipologia da habitação, às características do núcleo familiar, a nenhuma combinação das anteriores. A estatística não deixa margem para dúvidas.

Não nos é possível concluir que as pessoas que não têm a percepção de que existem momentos para falar e momentos para calar já nascem assim e nada há a fazer, mas isso é um pormenor, pois há consenso quanto há imutabilidade da condição a partir da idade adulta — precisamente quando ela deixa de ser um feitio para passar à condição de problema. A pessoa que fala, fala, fala e diz muito, conta, opina, profere, afirma, se exprime, enfim, discursa numa torrente constante e mais ou menos ordenada acerca de tudo e de todos, vai ser sempre assim. Vai sempre verbalizar cada gesto que o actor faz no palco, a previsão do desfecho de cada cena no cinema, a acusação a cada outro que não está a cumprir as suas obrigações identitárias, cada momento de revolta contra as manifestações de degradação dos valores fundamentais sobre os quais se baseia o bem-estar e a paz social.

Tornaram-se ou deixaram-nas tornar-se drogadas nas palavras, uma dependência para a qual ainda não se investe na busca de tratamentos eficazes, um luxo para o qual o ocidente, ou quem o substituir, talvez desperte ainda durante este século. Compensam-se através das palavras, subsitituem-se pelas palavras, só conseguem aceitar o mundo dito pela suas bocas, escrito pelas suas penas, e por isso não param: dizem, dizem, dizem, dizem, para que a geologia que pretendem enterrar não emirja por um segundo que seja. Incapazes de lidar com a weltschmerz nossa de cada dia (tinha de ser um alemão a conseguir condensar em substantivo a falência da espécie), vomitam-na sob a forma de esperança e soluções, para de imediato se tornarem escravos da sua própria regurgitação. Eu não sou preconceituoso, e o problema é delas, mas às vezes falta-me a paciência.

2010.03.07

I
Na manhã seguinte foi depositado nas mãos das contínuas do colégio com um beijinho perfunctório. Tinha caído aos trambolhões por algum sítio abaixo, um sítio qualquer, e daí as equimoses, os hematomas. As continuas olharam, viraram, verificaram que funcionava como habitualmente e receberam-no como à restante correspondência. Estava tudo bem, exceptuando os hematomas, as equimoses, e não havia o que fazer para além de assegurar que passava o tempo certo na sala de aula e no pátio de recreio, caso estivesse bom tempo.

Estava bom tempo e foi expedido para o pátio. Durante o recreio, reproduziu a explicação que tinha sido instruído a repetir para existência das equimoses, dos hematomas: tinha caído aos trambolhões, sabe-se lá por onde abaixo, são coisas que se esquecem ao fim de pouco tempo. Exaltou o relato com alguma fantasia para lhe dar a aventura necessária a despertar os ouvintes da manufactura de aviões de papel com efeito de bumerangue e das caricas que percorriam a terra em volta do limoeiro. Uns hematomas, umas equimoses, condecorações de uma noite extraordinária e invisível ao olho humano.

E depois a professora, que abriu a correspondência, com o olhar a controlar os movimentos da turba que lhe entrava pelo espaço, mas a regressar a intervalos certos às equimoses, aos hematomas que, segundo lhe haviam dito as contínuas com reticências, se deviam a uma queda por algum sítio abaixo, uma sítio longínquo, entre ter saído ontem e ter entrado hoje. É assim com as crianças, corridas, brincadeiras, descuidos, hematomas, equimoses. Deixou-o cá a correr, ninguém perguntou mais nada. Caiu mas levantou-se, brinca, fala, comunica, parece o mesmo de sempre, até já se riu e retribuiu o beijinho na altura certa, sem hesitações. São só umas equimoses, uns hematomas, contraídos fora do horário de abertura ao público. Não é preciso activar o seguro nem dar ou pedir explicações suplementares.

 
II
As palavras gritadas, amarradas à estrutura simples de insultos lançados contra as paredes, que os reflectem, projectam-se para fora do quarto, no outro lado do apartamento. Ricocheteiam pelo corredor, perdem-se nas divisões sem saída e desaguam na sala de jantar, onde encontram a salvação na janela aberta para a tarde. As palavras são perceptíveis, o sentido geral das frases curtas, berradas por inteiro, é sempre o mesmo, são sempre as mesmas. São afiadas, contundentes, perfurantes, mas não são mais que ruído de fundo, como o de uma oficina. Uma mentira gritada trezentas e sessenta e seis vezes torna-se música popular ao som da qual se dança indiferente ao sentido da letra.

É dos nervos. Tem os nervos desfeitos. Deita-se na cama, descalça, por cima da colcha florida em tons domésticos e espera que o público ocupe os lugares disponíveis nos dois cadeirões com desenhos rebuscados, gravados na imitação de couro. Com tudo no seu lugar certo, recomeça a litania estridente e claustrofóbica que interrompera três horas mais tarde do sábado anterior e de novo os sons sem sentido de palavras com sentido enchem o apartamento em busca de uma abertura por onde possam fugir. A janela da sala de jantar está sempre aberta porque está sempre um calor abafado, muitas vezes mais cá dentro que lá fora, e é por aí que os gritos que substituíram a vida fogem da vida.

 
III
É deixá-lo enquanto têm pena dele, enquanto não o engolem nos vícios, enquanto ainda pode aprender sem experimentar. E as lágrimas nascem-lhe grossas em frente às velhas, todas simples, todas mulheres, distribuídas pelos dois bancos corridos de pau, encostados às duas paredes úteis da cave. A voz não lhe sai. Deixe-o ir, deixe-o ir. Quer reconhecer nas palavras da outra, também ela uma velha, também ela uma ex-mulher, uma razão incapaz de articular. E é por isso que chora um choro convulsivo. As velhas oficiais sem pestanejar, o desespero de cada uma delas por momentos mitigado pelas lágrimas grossas de uma estranha que lhe caem na saia, no chão, lhe alagam as linhas da morte e de todo o mais que tem nas mãos. É deixá-lo, deixá-lo ir. Se não for agora, mais tarde será pior, pode ir e já não querer ou conseguir voltar. Uma das velhas contrai os maxilares, a carteira preta torcida nas duas mãos e os olhos postos no chão de cimento onde as lágrimas da recém-velha que não foram capturadas pelo vestuário acabarão sem glória. Fora a lâmpada fluorescente, instável e branca, a única luz capaz de entrar na cave é a que sempre veio pelas escadas, desde o início dos tempos, acompanhada do cheiro a nabiça e da restante documentação adequada ao efeito.

E se ele não voltar e se ele não conseguir, mas a pergunta, sabe-o, não acrescenta às respostas que já lhe foram oferecidas por lábios apertados, e as lágrimas, cada vez mais grossas, cada vez mais surdas, cada vez mais pelo rosto, cada vez mais no chão. E por isso não lhe sai, não pergunta, não responde, não avança. Há palavras que só entram, mas não saem, nunca se transformam em ideias e ficam coladas às paredes do crânio, como quistos.

 
IV
Recorrer à ciência possível para assegurar que não era a última não teve como efeito garantir que ficava em primeiro. E quando há uma cabeça que num instante diz não és a primeira, há uma cabeça em que para toda a vida ressoa sou a penúltima. Ressoa e propaga-se, aperta a mão dada até doer ao dador, aperta o passo para chegar mais depressa à rua que desce, em que se vira à direita porque não há como ir em frente. A rua que desce, para a direita, estreita, onde o sol se esconde por trás dos edifícios. Se andasse mais, se arrastasse o dador como a uma mala de viagem no cais da estação, se não olhasse para as montras pobres, para os olhares dos outros pobres, para o que os pombos deixavam na calçada, a rua que desce chegaria mais depressa, chegaria logo, e o seu vento, de um quadrante inédito, levaria o pódio e todos os lugares não conquistados para longe do pensamento. Antes a medicidade por um dia que a realeza de outra encarnação.

E a rua chegou e o som do coração acabou ali, à vista do céu garço que um Inverno estranho de quente permitiu. Prefigurava o mais quente dos Verões estranhos de quentes, já de si mais quentes que os outros, mas naquele momento, pela rua abaixo, só mais montras pobres e outros pobres e pombos que se deixavam na calçada, carros nos dois sentidos tentando passar pelo espaço de um e o som das suas buzinas, sons com sentido de palavras sem sentido, que percorriam as paredes dos prédios em busca de um orifício por onde pudessem entrar. O som do coração perdeu-se ali, abafado pelas máquinas e por elas levado para ruas que nunca seriam visitadas. Nenhum vento que levasse as medalhas, as condecorações e o hino nacional dedicado a outra. Apenas o ressoar de três palavras agudas que, segundo a segundo, passo a passo, milímetro a milímetro, abalariam as fundações do desejo. Foi ali e não nos livros da ciência impossível, capaz de certificar mas não de criar, que começou a fazer-se a distância que havia de ser toda a que o mundo tem para dar na forma de hematomas e equimoses, ainda invisíveis. Foi ali, na curva da rua que descia para todos e subia para alguns, que começou a aprendizagem da ciência a que só chegará quando não tiver ao que aplicá-la: tudo o que se perde transforma-se em pena.

2010.03.03

2010.03.01

2010.02.26

A praia do Areão, sita no concelho de Vagos, mais concretamente na restinga sul da impropriamente chamada «ria» de Aveiro, escassos quilómetros a norte da Praia de Mira e a menos ainda para sul da Vagueira, foi, até há pouco, uma praia quase selvagem, com não mais que uns resquícios das artes tradicionais da pesca, uns passadiços de madeira parcialmente engolidos pelo majestoso cordão dunar, e o seu característico esporão curvo. Antes da época balnear de 2009, a autarquia local optou por transformar oficialmente aquele pedaço de areal numa praia, dotando-o de acessos modernos e adequados a todos e todas, bem como de vários apoios de praia compostos por bar e vaso sanitário. A intervenção teve o efeito esperado e, embora não disponha de números, posso afirmar que o público daquele espaço aumentou enormemente.

Existem agora duas zonas que se distinguem pelo tipo de frequência. A área a norte do esporão, vigiada, onde se concentra a maior parte dos frequentadores da praia, e a área a sul do mesmo, onde se espalham os nudistas, as pessoas mais avessas a multidões e, devido ao abrigo que o esporão proporciona face à direcção dominante da ondulação, os banhistas propriamente ditos. Existe, pois, uma descoincidência entre a parte da praia mais utilizável enquanto praia, no sentido ordinário que lhe é dado pelo vulgo, e a parte a que as entidades competentes atribuíram essas funções. Este facto dever-se-á a razões históricas de utilização do areal, de distância, simetria e localização dos acessos supra, ou de ausência de um planeamento integrado da intervenção destinada a civilizar o local.

No Verão do ano passado, precisamente aquele em que a praia passou (ou voltou) a sê-lo para todos os efeitos, um dia houve em que, pelo fim de uma manhã incompreensível e demasiado fria para a prática de actividades balneares, nela ocupei um espaço na área a sul do esporão, até àquele momento apenas ocupada por algumas famílias esparsamente distribuídas e ocasionalmente cruzada por praticantes de corrida ou caminhada. Pouco depois de me estabelecer no local, e após verificar que a temperatura da água do mar a não qualificava para a utilização que pretendia dar-lhe, dois seres humanos do sexo masculino, ambos na casa dos trinta anos, ambos de estatura mediana, um careca e em forma, o outro de farta cabeleira e ligeiramente obeso, instalaram-se nas imediações de mim e das famílias avessas à confusão. Dispuseram os seus objectos, despiram-se integralmente, experimentaram a água gelada e, regressados à toalha, efectuaram uma breve, morna e, tanto quanto pude avaliar à distância, desapaixonada canzana perante os olhares de não mais que três ou quatro pessoas, eu incluído. De seguida, e uma vez que os seus vários objectivos estavam alcançados, vestiram-se e abandonaram prontamente a praia.

Horas mais tarde, quando contei o sucedido a amigos e conhecidos, acrescentei ao módico entretenimento que a situação me havia proporcionado uma certa consternação, por considerar aquela prática desadequada a um local público povoado por crianças. Um dos circunstantes a quem relatei os factos daquela manhã perguntou-me então se eu teria a mesma opinião caso o acto tivesse sido praticado por um casal heterossexual. Calmamente, expliquei-lhe como me repugna o acto sexual não procriativo — e mesmo este, para o qual já existem alternativas viáveis — entre um homem e uma mulher, contra o qual não me insurjo com ruído apenas por respeito para com as minorias, e como considerei a insinuação contida na questão que acabara de me colocar por demais ofensiva, razão pela qual não mais lhe dirigiria a palavra. Não tive oportunidade de regressar àquela praia, mas quando o fizer, terei o cuidado de transportar comigo a minha máquina fotográfica digital compacta, com zoom óptico de 10x e estabilizador mecânico de imagem.

2010.02.22

A questão que se coloca a quem não quer lá o actual ocupante da Presidência da República, mas também está e quer permanecer fora das lógicas frentistas, para as quais os candidatos são apenas instrumentos na construção de uma nova espécie de velho chavão derrotado à partida, é: até onde se deve ir na tentativa de impedir Cavaco Silva de ser reeleito?

Do pré-candidato de que poucos gostam, mas que muitos estão dispostos a apoiar pela sua capacidade para unir a esquerda — algo que, como é notório, faz imensa falta — sabemos pouco e, simultaneamente, demais. Sabemos que teve um passado honorável de luta contra a ditadura e personifica, pelo menos para uma geração, uma certa estética do homem (e não se trata de masculino generalizante) de letras engagé a quem nada nem ninguém prende a justa e tonitruante palavra. Eu é mais salgados, mas, quanto a isso, nada a obstar. Também sabemos que passou cerca de trinta anos com o lugar cativo na Assembleia da República sem se distinguir por nada de especial, a não ser pela forma despudorada como se assumiu credor das conquistas de Abril, especialmente nas ocasiões em que algum atrevido sem passado teve a ousadia de lhe dirigir uma crítica pelo que quer que fosse.

Há quatro anos tudo mudou e nada mudou. Alegre pretendeu ser candidato pelo PS, o PS não o quis como candidato e Alegre tornou-se candidato à margem das lógicas partidárias. É sempre bom ver as pessoas exercerem os seus direitos, mesmo que por motivos pouco conseguidos. Vê-las tentarem camuflar esses motivos com a defesa da cidadania já não é tão bom, mas já se viu pior. E então passámos a ter um candidato pela cidadania que nunca disse nada acerca da cidadania. O tema esgotou-se, na sua própria boca, no voto na sua própria pessoa. Cidadania era votar Alegre, que era candidato à margem dos partidos porque os partidos não o quiseram. Parece pouco? Pois parece. Mas foi o que houve.

Na «posse» de um milhão de votos, que passou a brandir como até então brandia o passado antifascista, Alegre dedicou-se não ao aprofundamento da tal cidadania que nunca esclareceu, mas ao aprofundamento das relações com os partidos que o poderiam levar ao cargo. À margem da tal cidadania, depreende-se, que há-de ter expirado por falta de densidade conceptual. Há que fazer a devida vénia ao senhor: geriu tudo bem, desde a maneira como desocupou elegantemente o lugar quase vitalício na Assembleia da República até à forma como entalou três partidos ao canto. Sim, porque até o PCP, mesmo que ceda mais uma vez à tentação de nomear um funcionário para a tarefa do costume, não terá outra opção senão a de o desligar da corrente a tempo e horas. E o PS, perante o tal milhão de votos que o seu militante Alegre tem na algibeira, misturados com os trocos, não poderá fazer muito mais que bocejar enquanto algumas das suas capelas apoiam Fernando Nobre. De ideias é que não há notícia. É outra atitude, é outra contundência, é uma dimensão cultural a que o actual Presidente não pode sequer almejar. Mas é também um imenso vazio, apenas mal disfarçado por uma linda voz, uma caçadeira para os intervalos de marialvismo e uma estátua no Parque Manuel Braga, em Coimbra, a meio caminho entre Antero e a paragem do 7.

E portanto, a união das esquerdas, dos pichadores de paredes da Ruptura e dos estalinistas deixados para trás aos rapazes empreendedores do PS, passa pelo tradicionalismo, homofobiazinha light incluída (embora depois emendada), por um amor poético à Pátria e por um passado ainda respeitável, apesar de usado à exaustão e a despropósito. Parece pouco, mas é o que há. Já nem sequer se trata do caso do adágio — antes o mau conhecido que o mal conhecido —, porque, aqui, são ambos sobejamente conhecidos e sobejamente insuficientes. Mas que seja. Cada qual se une em torno do que quer e considera ser verdadeiramente importante para o país ou, quiçá, para a Humanidade. Eu, que estou demasiado cansado para ser de esquerda, quanto mais de várias esquerdas, e que sempre olhei de soslaio as uniões de conveniência, retiro a resposta à minha questão de partida da matéria, ou da falta dela: não me basta diferente, quero melhor.

2010.02.19

Ter um melhor entre os bons torna evidente a qualidade do primeiro. Ter um melhor entre os maus torna escandalosa a inferioridade dos segundos. No primeiro caso, a vida faz-se difícil para o escolhido, mas é, ou pode vir a ser, uma vida frutuosa para quem o escolheu. No segundo caso, a vida faz-se um calvário para quem tem de escolher. E os calvários são sempre vãos para quem os sobe, mas regra geral proveitosos para o escolhido, que fica no sopé à espera que o carreguem até ao topo, cantando a dor que lhe dedicam.

Porque ser poeta nem sempre é ser mais alto, muito menos ser maior do que os homens. Não quando beija como quem morde para saciar a fome de passado. Ou quando abandona quem lhe não dá ou quando usa o grito para se cegar ao mundo que o não quer. Ser poeta pode ser apenas ser mais só, ser o mais orgulhoso dos homens. Pode ser erigir um santuário onde a memória se aninhe, ao abrigo da miséria, entrelaçada na forma de que se fez parasita.

Não, ser poeta nem sempre é amar-te assim, perdida ou achada ou sofregamente. Por vezes, ser poeta é já não amar ou nunca ter amado, a não ser desgraçadamente, mas ainda assim dizê-lo murmurante ou tonítruo a toda gente, como se continuasse a fazê-lo. Ser dentista não é necessariamente ser mais baixo, muito menos ser menor do que os homens. Etc.

2010.02.17

Se ao menos não estivesse tanta humidade. Se ao menos houvesse paz & concórdia em Marte. Se ao menos o computador tivesse mais memória. Se ao menos eu tivesse menos memória. Se ao menos eles se calassem. Se ao menos saíssem de cima. Se ao menos o livro tivesse sido revisto em condições. Se ao menos a cena gay não fosse tão enjoativa. Se ao menos conseguisse acreditar em alguma coisa. Se ao menos o euro desvalorizasse um bocadinho. Se ao menos a libra desvalorizasse ainda mais. Se ao menos não houvesse uma infiltração na casa-de-banho. Se ao menos parassem de buzinar. Se ao menos me raptassem de uma vez por todas. Se ao menos se decidissem. Se ao menos deixassem aquilo arrumado. Se ao menos a cena hetero não fosse tão anal. Se ao menos as batatas soubessem a alguma coisa. Se ao menos a gasolina não estivesse tão cara. Se ao menos tivesses o VMS activado. Se ao menos as pessoas tivessem mais cuidado com o lixo. Se ao menos tivéssemos autoestrada para lá. Se ao menos as nódoas saíssem com facilidade. Se ao menos pudesse ficar por aqui. Se ao menos cheirasse menos a esturro. Se ao menos valesse a pena. Se ao menos nem o triste nem o alegre, talvez o ano do tigre fosse a forma de tornar o do coelho melhorzinho que o do boi.

2010.02.14

2010.02.12

Isto explica-se de forma muito simples. Eu não sei, porque não estava lá, mas não me custa nada imaginar a orgia de referências que, após uma directa, conduziu à opção pelo xisto. Afinal, já cá ando há uns tempos e tenho a pretensão de compreender um pouco dos mecanismos de valorização profssional de quem se encontra rachado ao meio pela divisão dos saberes. A modernidade, independentemente do ordinal, adjectivo ou prefixo de que a façam acompanhar-se, não é menos fodida do que o que a precedeu e as gentes, para lá dos eufemismos, hipérboles ou metáforas por que as substituam, continuam a ter de se virar para algum lado. O percurso dramático do Mondego pelo vale encaixado, a barca e as gentes serranas, a herança dos afluentes que cedem lugar à artificialidade, a desarrumação orográfica e cromática da Alta. Ver tudo isto condensado numa rocha metamórfica, angulosa e rude, que enfatiza a natureza dual da região — rural/urbano, montanha/planície, modernidade/tradição, litoral/interior, doutores/labregos — e que, para mais, serve como elemento decorativo que se integra na geometria do parque, ao mesmo tempo que lhe corta a frieza ainda pouco arborizada com um toque de rusticidade, é o sonho de qualquer arquitecto que se preze. Eu, se o fosse, teria tido um momento de intensa excitação ao chegar àquela escolha de materiais. Nem sei se o meu coração teria aguentado.

Para quem não é artista, mas apenas mero biciclante que se preze, o que não aguenta é a coluna vertebral, caso as vénias e os salamaleques ainda a não tenham obliterado. Estamos a falar de uma ciclovia com o piso em placas de xisto alinhadas verticalmente. Intensa excitação não é, de todo, o que se sente quando há que — há que! — percorrer aquele chão de lâminas rombas inserido no «percurso ciclopedonal». O que se sente são dores várias, todas elas intensas, todas elas a desembocar na carteira dos contribuintes, nos cofres do Estado e na minha alma, que sofre com os desmandos de quem com esta arrogância se apoderou do espaço até há pouco entregue ao vazio do povo. Como disse, isto explica-se de forma muito simples: formação ao longo da vida em ciclismo lúdico, para que aos impostores não fosse possível o esquecimento de como funciona e para que serve aquela estranha geringonça de duas rodas, seria o suficiente. Se essa formação incluísse uma boa dose do seu próprio veneno, sob a forma de aulas práticas, isso seria o ideal. Declaro-me desde já disponível para o papel do justo algoz.

2010.02.09

Encontrámo-nos no Congresso Internacional de Gestores de RH «XIX Festa do Fluxograma de Alpiarça», este ano no dancing Dona Xepa, devido a obras na Casa da Cultura. Já não nos víamos há uma multidão de anos, talvez desde a faculdade. Na verdade não sei ao certo desde quando porque nunca me preocupei com o objecto da demora. Está, como seria previsível, um leitãozinho gordo e estúpido, embora capaz de suster por tempo que baste interacções ocasionais e vagas com seres humanos. Decidiu entrar a matar, perguntando-me pela mulher e pelas miúdas. Resisti à tentação de lhe responder utilizando a palavra «escolvilhão» através de não lhe responder de todo e partir directamente para a minha própria questão de partida. Se ele continuava casado com aquela cabra, só tendão e estúpida, frígida. Ele borrifou-se para as minhas indagações e deu o passo seguinte: o sempre terrível «e onde é que estás a viver?». É uma jogada arriscada, que eu preferi ignorar avançando com a minha nova proposta: o demolidor «e tu, onde estás a trabalhar?». A partir de certa idade, não há desculpa para não se saber que, quando usa uma destas cartas, uma pessoa está-se a pôr a jeito para que o adversário lance mão da outra. Mas a expressão facial dele acusou o toque. Houve uma hesitação, a que se seguiu um vaguear dos olhos por alguém imaginário que pudesse passar atrás de mim, terminada pela observação de que tinha «falado» com uma putativa colega nossa sem cara a que eu possa juntar o nome. Uma atrasada qualquer que está agora à frente do gabinete de não sei quê da não sei quantos em não sei onde. Uma clara rendição, portanto. Sempre foi um fraco, pusilânime, daqueles que noutros contextos teriam sido grandes e depois fuzilados ou, o que vai mais de acordo com a teoria, só fuzilados. Magnânime, concedi-lhe a paz devida a quem tão bem conseguiu dispersar a exuberância da dor e perguntei-lhe pelo carro. Apaziguado, mas sem disfarçar que se iria ficar pelos serviços mínimos, pretendeu informações pouco detalhadas acerca do meu terminal. Antes que se nos acabassem os argumentos, assumi as funções de macho alfa, encerrei a sessão, despedi-me até um dia destes e cada um foi à sua vida. A dele o vazio; a minha, o cheio.

2010.02.07

2010.02.05