2010.07.30

Vasculhei tudo sem pudor, ética ou boas maneiras. A força maior tem muita força. Comecei pela cómoda, cujas gavetas esvaziei para o chão. A roupa interior, a roupa litoral, os brinquedos: tudo: nada. No roupeiro, um cenário semelhante. Casacos, camisas, calças, saquinhos de alfazema. A arca com a pelagem de inverno. Os armários da cozinha. A despensa. Os arrumos espelhados da casa-de-banho. Atrás das estantes. Debaixo dos sofás. Fui-lhe ao lixo, no caixote de casa e no contentor da rua, com a ajuda de luvas compradas para o efeito numa loja em linha especializada em artigos para respiga. Percorri as paredes com os nós dos dedos, na esperança de ouvir de volta as provas do meu emparedamento. Nada.

Noites mais tarde, tarde demais para lá voltar e confirmar, acordei encharcado na descoberta de que, afinal, estava lá. Não em grande, conforme me tinha procurado, mas desmanchado até à invisibilidade e assim espalhado pelos seus pertences. Entrelaçado nas fibras do vestuário, na tremura da letra dos post-its que cola à porta do frigorífico, cujo interior também havia revistado sem sucesso, no capacho onde, com o tempo, me foi raspando das solas dos sapatos. E na avidez com que passou a declarar o seu amor por quem o não sente. Peças minhas há que já não serão recuperáveis a título de corpo de delito, quanto mais para o sonho cor-de-rosa da minha reconstituição. A única justiça possível, e talvez a única justiça desejável, será a minha presença perpétua, silenciosa. E sabê-lo repousa-me, finalmente, no além.

2010.07.26

2010.07.21

O autocarro demorou mais tempo a atrasar-se que de costume e vinha cheio, sem lugares onde sentar, num mundo em que já não há cavalheiros. O rapaz com uma pronunciada atrofia do membro superior esquerdo, que costuma pedir na esquina das refeições para fora, espremia-se por entre as sardinhas, tentando ganhar quanto chegasse para, pelo menos, não dar por perdido o dinheiro do bilhete, que segurava entre os dedos da mão pequena. Se era só uma deslocação esporádica, que tentava rentabilizar com recurso às competências de que dispõe, que se deixe estar. Se pretende mudar a actividade para aquelas paragens ambulantes, talvez devesse investir num passe mensal.

Há tempos, ter-lho-ia dito. Hoje, nem os cinquenta centavos habituais lhe dei, ausência a que ele me respondeu com um resmungo indecifrável, abafado pela atmosfera de óleo vegetal. Os meus preferidos são os que trabalham por transferência bancária, que não notam. O operador que continua a cobrar-me as chamadas que me presume a fazer, a patroa que insiste em pagar-me mais um mês em que me imaginou a trabalhar. Ou os que tratam de tudo sem a minha vontade, recarregando o fascínio pela forma como as coisas se governam sozinhas, mesmo à revelia dos factos. Como Z., que me paga a cerveja e o jantar como se eu tivesse lá estado, com ele, a partilhar estados de alma, sem gritar aos meus ouvidos o desejo de me ver regressado.

2010.07.18

Ter razão e ser justo: duas ilusões com que uma boa educação nos estraga, como se houvesse falta de como o fazer por outros meios e como se aquelas duas vontades amiúde não colidissem, mastigando-se mutuamente. Rousseau em idades que dêem cadeia não ajuda. Antes Platão (ou Thomas More, ou), se tiver mesmo de ser alguma coisa. Melhor brincar, ser iniciado nas putas, escrever poemas de amor, fazer um InterRail. Eu sei que isto não se controla e que não é por crueldade que alguém age de acordo com esta conjugação de princípios — é por optimismo —, mas as intenções esgotam-se rápido enquanto combustível para desculpas. Há uma idade, não, um ponto, um momento preciso, que pode variar um pouco de idade de um para idade de outro, em que o lastro do humanismo despe as vestes da sensualidade juvenil para envergar as da loba esterilizada. Não é preciso ninguém para ser lembrado de que o caminho para qualquer utopia é pior que o repouso na pior distopia. Deixa de ser necessária a presença de quem relembre a revolta que alimenta a indolência. E há um ponto, um momento preciso, que pode variar muito de idade de um para idade de outro, em que já se não pode perder o que se ganhou. Unidos pelo presente, mas separados pelo passado, como em qualquer grande sucesso: feche-se o pano, faça-se silêncio, pontue-se de acordo com as circunstâncias.

2010.07.14

2010.07.11

Votar em Cavaco é uma irresponsabilidade. O Presidente da República tem de ser uma figura elevada e respeitada para além das concordâncias e discordâncias, características pouco compagináveis com o uso ostensivo da intriga, as birras e os discursos escritos com os pés. O Presidente da República deve ser o palito e não a coisa verde entalada entre os dentes da frente. Votar num candidato claramente incompetente apenas por uma questão de serviço ideológico (que, pelo que se tem visto, nem sequer executa a contento dos seus apoiantes) não é sério.

Votar em Alegre é uma irresponsabilidade. Um mal menor é um candidato menor. Tentar trocar a mediocridade de um pela menoridade de outro é bater no fundo, partir o fundo e continuar por aí abaixo. Votar num candidato unicamente propulsionado pela sua vanitas, que se diz e desdiz ao sabor da distância percebida entre as palavras que tem de proferir para conquistar o eleitorado e o que os seus actos, presentes e passados, revelam, numa última tentativa de se resgatar à categoria de nota de rodapé, não é sério.

Votar em Nobre é uma irresponsabilidade. A pose do político-fora-da-política, não bastando a associação ao que de pior tem nascido no estrume das democracias ocidentais, mina o capital de honestidade que uma pessoa, qualquer pessoa, independentemente do brilho humanitário do seu passado, tem para ir a jogo. Um Presidente da República é um político, não um nadador-salvador, e é como tal que se deve comportar. Além do mais, votar num candidato monárquico para Presidente da República, mais que ser patético, não é sério.

Votar em comediantes, voluntários ou involuntários, é uma irresponsabilidade. Os tempos não estão para brincadeiras. Uma eleição tem sempre, mesmo que não pareça, o resultado em aberto e deixá-la à mercê de quem nem sequer pretende ser sério (ou, pretendendo, não o deveria fazer) não é sério.

Votar em branco ou anular o voto é uma irresponsabilidade. Uma vez que, de acordo com a Lei Eleitoral do Presidente da República, apenas são contabilizados os votos validamente expressos (ou seja, a soma dos votos nos vários candidatos dará cem por cento), votar em branco ou anular o voto equivale à abstenção. E a abstenção é deixar tudo nas mãos dos outros. E deixar tudo nas mãos dos outros não é sério.

Está bem lixadinha, a mulher de César.

2010.07.04

2010.06.30

Como se o mal nos fosse alheio e o bem apenas a nós pertencesse. É um clamor ingénuo, segundo uns, ou cínico, segundo outros, o que exige a proscrição da desumanidade. Que seja retirada dos dicionários e que, nos escritos prévios à operação de higienização, seja substituída ou, pelo menos, explicada às crianças como hoje fazemos ao Homem com maiúscula: um desatino dos antigos que vai sobrevivendo, pelas ruas, paga pela caridade da reacção. É uma reivindicação minoritária, a do fim da desumanidade, soterrada pelos poderes fácticos sob os verdadeiros desafios do presente, que não existe. Mas atender-lhe, já, é uma questão de elementar justiça, equidade, humanidade.

2010.06.28

Ela gosta muito de música, gosta de muita música, conhece muita música. Tem muitas conversas com muitas pessoas sobre música. Adora Dave Matthews Band e descobriu há pouco uma nova adoração: «Bonaiver». Ele, impávido por detrás dos óculos de sol retro, corrige-a subtilmente numa frase em que também louva, embora moderadamente, «Boniiiiverrrr». Moderadamente. Acrescenta a despropósito que uma das pessoas com quem gosta mais de falar sobre música, porque ele farta-se de falar sobre música, é, apesar das discordâncias frequentes, um tipo que ele conhece que é intelectual. Daqueles que têm blogues sobre literatura e escrevem poesia para revistas e essas cenas. Presumo que essas cenas seja pichar paredes com ditos e tiradas pós-charro, mas nunca o saberei com certeza. Uma das pessoas mais fantásticas que ele conhece. Pelo que os óculos gigantes deixam ver, já tem idade para saber que se deve desconfiar das pessoas mais fantásticas que se conhece. É capaz de ser burro. Ela não se deixa ficar e retoma o discurso no ponto em que ele a interrompera para dizer que também gosta muito de um outro projecto musical cujo nome não consegui apanhar. Ainda pensei em intrometer-me na conversa e pedir-lhe para repetir, mas não quis interferir no percurso dos meus objectos. Ele há uns dias tocou alguma coisa – também não percebi o quê – com djembês e essas cenas. Presumo que essas cenas fossem mais djembês, mas nunca o saberei com certeza. Ela estica-se, tenta mostrar uma segurança que a sua pose tensa trai a cada instante. Mas sempre mostra iniciativa. A iniciativa que matou o rato. Sim, essa mesma. Ele relaxa, afunda-se na cadeira de plástico patrocinada pela cerveja dos misóginos. Fuma e fala com uma displicência excessiva, que só não o torna risível porque ela está mortinha. Resta saber se a atitude dele resulta de sorte ou estratagema. Como é burro deve ser de sorte. Mas o que interessa são os resultados e com mais umas cantigas ela está no papo. No caminho glorioso para os registos e notariado, não há estultícia que uma pronúncia de francês exagerada não compense.

2010.06.23

2010.06.20

Embora se trate de uma questão do foro privado, excêntrica aos termos que delimitam o nosso relacionamento, a sua forte influência neste obriga-me, por educação, respeito e lisura, a fazer o esclarecimento: encontro-me presentemente desprovido de alma. Julgo não haver motivo para alarme. Não se tratou de acidente ou maleita; é, antes, um estado em que me encontro de forma voluntária e sobre o qual, tanto quanto me é possível ajuizar, tenho o controlo bastante para operar um eventual regresso à normalidade, para a qual tenciono tender dentro em breve.

Para ir directo ao assunto, aluguei a alma ao diabo. Não sei bem onde fica, no presente caso como em muitos outros, a fronteira entre a figura de estilo e a materialidade, por assim dizer, da fogueira eterna. Por várias razões, entre as quais não é menor a de não ter sido o negócio tratado «pessoalmente» com o mafarrico. Ao que parece, são estes os usos da casa: fui contactado por um dos seus lacaios, uma lacaia, no caso vertente, sem grande formação, com quem acertei tudo de boca. Bem sei que isto, assim dito, tresanda à mais completa irresponsabilidade, mas as alternativas não eram nem muitas nem melhores.

Para prover um esboço de como tudo se processou, depois de eu ter recusado liminarmente as hipóteses de venda ou leasing inicialmente propostas, detivemo-nos, eu e a lacaia, sobre se o que estava prestes a acontecer configurava uma situação de aluguer ou de arrendamento. Sendo eu ignaro em matérias do imaterial, recorri a uma das analogias que parecem povoar a minha vida como fungos em souto de Outono para tentar perceber a natureza, do ponto de vista da mobilidade, do que se discutia. Fosse o meu corpo um terminal de comunicações móveis e a minha alma seria o sinal de rede do operador ou a bateria do aparelho? Não me soube esclarecer. Ainda me ocorreu entrar pelos gregos dentro, mas a óbvia falta de competências da minha interlocutora e a necessidade de ver o negócio fechado com urgência fizeram-me sugerir que optássemos por «aluguer», por ser de uso mais corrente. E tratava-se, afinal, de um contrato verbal, em grande medida assente na confiança que cada uma das partes deposita na boa-fé da outra, mas que nem por isso, segundo o meu advogado, deixa de ser perfeitamente válido.

Fica este episódio como ilustração de como a precarização, desqualificação e indiferenciação da força de trabalho contamina já esferas que, até há bem pouco, julgaríamos imunes a tais desprimores. Ou talvez tenham esses males vindo dessas esferas até nós, como poderei eu sabê-lo? O que sei e o que interessa é que, em virtude deste ajuste, obtive legítimas vantagens que, como sempre na vida, acarretam algumas limitações que, idem aspas, se transportam para todos os planos em que outros dependem de nós. Perante esta fatalidade, mais não posso senão prometer o meu acometimento em garantir a minimização dos incómodos a terceiros e a estes pedir que, até que a minha alma se reencontre com a minha carne, me aturem o modo mecânico de tratar do expediente.

2010.06.16

O comboio é reconfortante porque está preso a um percurso do qual não pode escapar. Porque a assepcia do ferro rasgando cirurgicamente a paisagem representa as conquistas do progresso industrial e o bem-estar que ele nos permitiu atingir. Mais importante, porque não perturba a leitura, dando à viagem mais possibilidades de recheio. No autocarro, por exemplo, a senhora parecida com um vidrão que cacareja ao telemóvel o orgulho pela sua filha que entrou para medicina dentária, mas que no próximo ano se transferirá para medicina a sério, pode levar qualquer cidadão no seu necessariamente imperfeito juízo à prática de crimes hediondos. No comboio, a senhora-vidrão é duplamente passageira. Intromete-se entre duas orações, interfere num diálogo, retira brilho a um bom início de capítulo, obriga à releitura de um parágrafo. Mas não mais. Em casos limite, existe até a possibilidade de mudar de carruagem, anulando por completo aquele mal-estar. Aquilo que noutros meios pode ser tão insuportável como a visão de uma aplicação falhada de botox, o comboio transforma num vago incómodo comparável à alteração do trânsito intestinal que vem como brinde nas embalagens de inibidores selectivos da reabsorção da serotonina. É disto que falamos quando exigimos uma visão integrada dos desafios do futuro. Políticas de mobilidade, plano nacional de saúde mental e campanhas de ablação forçada das cordas vocais: em pensando mais nos fins que nos meios, encontram-se formas de fazer tudo com o mesmo dinheiro.

2010.06.14