Arquivos de 2009/10

A fronteira entre o nepotismo e a excelência nem sempre é fácil de traçar. Ela está lá, sente-se ou, pelo menos, pressente-se. Mas não é toda a gente, nem em todas as circunstâncias, que consegue dizer «olha, passa por aqui». Uma diferença de sotaque, pequenos pormenores arquitectónicos que conhecemos à nossa própria revelia, uma diferença inenarrável na inclinação do Sol. Um ar, enfim, um ar diferente que se respira. Deste lado cheira a excelência, daquele cheira a nepotismo. Há qualquer coisa aqui que me faz lembrar água fresca da serra conservada numa bilha de barro antiga, há qualquer coisa ali que me traz a recordação de pés mal lavados. Porquê? Ninguém sabe. Sabe-se.

Ou então é como a questão da individualidade geográfica de Portugal: não existe até se ter lá traçado a linha arbitrária que lhe dá corpo. Resume-se tudo, no fim de contas, a uma questão de definição. Como sempre. Não como sempre. Água fresca da serra conservada numa bilha de barro antiga é uma coisa e pés mal lavados são outra coisa, independentemente de traços. Mas como quase sempre.

Nepotismo vem do italiano nepote (sobrinho), que por sua vez provém de nepos, latim para o mesmíssimo parentesco ou neto ou descendência variada. O ismo (de origem grega, claro) foi-lhe colocado para designar a prática costumeira dos papas (sempre os papas…) de há séculos designarem como cardeais os seus sobrinhos (provavelmente uma forma de se referirem aos seus filhos ilegítimos). Por extensão, a nomeação de parentes próximos para cargos em geral. Por extensão, a nomeação para cargos importantes de pessoas próximas ou, digamos, favoritas. Daí a sinonímia possível com favoritismo que, graças às conotações desportivas que ganhou, preferimos não utilizar neste contexto. E até porque favoritismo nos transporta, também, para o campo do lupanar (também por extensão de uma extensão, mista de origens latinas e semíticas, embrulhada de literais e figurativas). E nós não queremos ser transportados para o campo do lupanar, muito menos por extensão de uma extensão. Aqui é tudo gente séria que não gosta de embrulhadas.

Excelência vem do latim (sempre o latim…) excellens, particípio presente de excellere, «ir mais alto», colado ao sufixo ens, que indica condição ou qualidade. Aquele ou aquela ou aquilo que vai mais alto, pois.

À primeira vista, e sem querermos perder mais tempo em elucubrações que, para aí apontam as probabilidades, não passarão de masturbações, não vemos razão para que o filho ilegítimo do papa não vá mais alto. Antes pelo contrário: por ser beneficiário da primeira condição, poucas pessoas terão tomates, do nauatle («azteca») tomatl, «fruta inchada» (um óptimo exemplo de uma péssima metáfora), para lhe barrar a ascensão à segunda.

2009.10.31

O sr. Reymonde descia a calçada luzidia que se perdia e recuperava da noite ao compasso da iluminação pública. Tinha chuviscado durante todo o dia e, no céu, o reflexo rosado da cidade denunciava a permanência das nuvens do crime. Entre candeeiro e candeeiro, uns 100 metros abaixo da minha morada, o sr. Reymonde escorregou, de pés para a frente, e caiu de forma tal que os seus movimentos, tolhidos pela idade, não pretenderam amparar. Foi descoberto pela polícia, ao fim da madrugada. Fractura do parietal esquerdo com afundamento.

Desse dia em diante, todas as semanas passei a ocupar, durante meia hora, a cadeira que dispuseram ao lado do catre de hospital em que o sr. Reymonde ficou encarregue das funções de converter oxigénio em dióxido de carbono. No parapeito da pequena janela com vista para o campo desfolhado, um pequeno antúrio que lá deixei tratava do resto do processo. Movia-me a culpa de ter interferido no relógio do mundo — era de minha casa que ele vinha quando sucedeu o acidente. O convite tinha sido da minha lavra. Não me ocorrera a delicadeza, que ele seguramente teria tentado recusar, de acompanhar o sr. Reymonde à paragem do tram, apesar da hora e do tempo.

Nunca cheguei a saber se ele ouvia as palavras lentas que lhe dispensei ao longo daqueles quase três meses de meias horas semanais. Costumava ler-lhe trechos da secção internacional do Frankfurter Allgemeine Zeitung, a sua preferida, embora ele não soubesse uma palavra de alemão. Foi também uma maneira de dar alguma utilidade prática às visitas, uma vez que eu leria aquela secção de qualquer forma, fora das visitas, e assim só dava por perdido o tempo da deslocação ao hospital. Uns vinte minutos, ida e volta contadas a partir do escritório.

Um dia, e com o acordo dos seus parentes próximos de sangue e distantes de endócrinas, com que apenas me cruzei brevemente, duas ou três vezes, em horário de visita, o sr. Reymonde foi desligado. O pequeno antúrio, então já um pouco maior, foi transferido para a ala das infecto-contagiosas, a meu pedido.

2009.10.27

Mais ou menos a um terço do seu caminho, o período começou a esboroar-se, a escapar ao meu sentido. Era um período longo, que se prestava a desmandos. Como se o tamanho fosse desculpa. Retomei-o do início várias vezes para obter sempre, no mesmo ponto, o mesmo resultado. E esse ponto era aquela contracção, uma contracção que desarranjava o período. Uma contracção que me desarranjava e transportava o mundo para a turbulência da sua infância.

Parei para observá-la, à contracção. O acento tinha uma configuração que denunciava a sua fraude. Não seria afinal uma contracção, mas sim uma preposição contrafeita por uma impureza, uma imperfeição no papel. Aproximei-me mais ainda, passei-lhe o anelar por cima e a imperfeição revelou ser, também ela, falsa: um resto alongado e fino de algo ali mal caído, talvez transportado pelo meu corpo, que, ao desaparecer, permitiu ao mundo continuar a guerra por outros meios.

2009.10.25

2009.10.18