O sr. Reymonde descia a calçada luzidia que se perdia e recuperava da noite ao compasso da iluminação pública. Tinha chuviscado durante todo o dia e, no céu, o reflexo rosado da cidade denunciava a permanência das nuvens do crime. Entre candeeiro e candeeiro, uns 100 metros abaixo da minha morada, o sr. Reymonde escorregou, de pés para a frente, e caiu de forma tal que os seus movimentos, tolhidos pela idade, não pretenderam amparar. Foi descoberto pela polícia, ao fim da madrugada. Fractura do parietal esquerdo com afundamento.
Desse dia em diante, todas as semanas passei a ocupar, durante meia hora, a cadeira que dispuseram ao lado do catre de hospital em que o sr. Reymonde ficou encarregue das funções de converter oxigénio em dióxido de carbono. No parapeito da pequena janela com vista para o campo desfolhado, um pequeno antúrio que lá deixei tratava do resto do processo. Movia-me a culpa de ter interferido no relógio do mundo — era de minha casa que ele vinha quando sucedeu o acidente. O convite tinha sido da minha lavra. Não me ocorrera a delicadeza, que ele seguramente teria tentado recusar, de acompanhar o sr. Reymonde à paragem do tram, apesar da hora e do tempo.
Nunca cheguei a saber se ele ouvia as palavras lentas que lhe dispensei ao longo daqueles quase três meses de meias horas semanais. Costumava ler-lhe trechos da secção internacional do Frankfurter Allgemeine Zeitung, a sua preferida, embora ele não soubesse uma palavra de alemão. Foi também uma maneira de dar alguma utilidade prática às visitas, uma vez que eu leria aquela secção de qualquer forma, fora das visitas, e assim só dava por perdido o tempo da deslocação ao hospital. Uns vinte minutos, ida e volta contadas a partir do escritório.
Um dia, e com o acordo dos seus parentes próximos de sangue e distantes de endócrinas, com que apenas me cruzei brevemente, duas ou três vezes, em horário de visita, o sr. Reymonde foi desligado. O pequeno antúrio, então já um pouco maior, foi transferido para a ala das infecto-contagiosas, a meu pedido.


