A fronteira entre o nepotismo e a excelência nem sempre é fácil de traçar. Ela está lá, sente-se ou, pelo menos, pressente-se. Mas não é toda a gente, nem em todas as circunstâncias, que consegue dizer «olha, passa por aqui». Uma diferença de sotaque, pequenos pormenores arquitectónicos que conhecemos à nossa própria revelia, uma diferença inenarrável na inclinação do Sol. Um ar, enfim, um ar diferente que se respira. Deste lado cheira a excelência, daquele cheira a nepotismo. Há qualquer coisa aqui que me faz lembrar água fresca da serra conservada numa bilha de barro antiga, há qualquer coisa ali que me traz a recordação de pés mal lavados. Porquê? Ninguém sabe. Sabe-se.
Ou então é como a questão da individualidade geográfica de Portugal: não existe até se ter lá traçado a linha arbitrária que lhe dá corpo. Resume-se tudo, no fim de contas, a uma questão de definição. Como sempre. Não como sempre. Água fresca da serra conservada numa bilha de barro antiga é uma coisa e pés mal lavados são outra coisa, independentemente de traços. Mas como quase sempre.
Nepotismo vem do italiano nepote (sobrinho), que por sua vez provém de nepos, latim para o mesmíssimo parentesco ou neto ou descendência variada. O ismo (de origem grega, claro) foi-lhe colocado para designar a prática costumeira dos papas (sempre os papas…) de há séculos designarem como cardeais os seus sobrinhos (provavelmente uma forma de se referirem aos seus filhos ilegítimos). Por extensão, a nomeação de parentes próximos para cargos em geral. Por extensão, a nomeação para cargos importantes de pessoas próximas ou, digamos, favoritas. Daí a sinonímia possível com favoritismo que, graças às conotações desportivas que ganhou, preferimos não utilizar neste contexto. E até porque favoritismo nos transporta, também, para o campo do lupanar (também por extensão de uma extensão, mista de origens latinas e semíticas, embrulhada de literais e figurativas). E nós não queremos ser transportados para o campo do lupanar, muito menos por extensão de uma extensão. Aqui é tudo gente séria que não gosta de embrulhadas.
Excelência vem do latim (sempre o latim…) excellens, particípio presente de excellere, «ir mais alto», colado ao sufixo ens, que indica condição ou qualidade. Aquele ou aquela ou aquilo que vai mais alto, pois.
À primeira vista, e sem querermos perder mais tempo em elucubrações que, para aí apontam as probabilidades, não passarão de masturbações, não vemos razão para que o filho ilegítimo do papa não vá mais alto. Antes pelo contrário: por ser beneficiário da primeira condição, poucas pessoas terão tomates, do nauatle («azteca») tomatl, «fruta inchada» (um óptimo exemplo de uma péssima metáfora), para lhe barrar a ascensão à segunda.


