Arquivos de 2009/11

O problema não é, como nunca foi e provavelmente nunca será, o das incertezas. Tudo — o que se vê em redor e o que está para lá dessas voltas — é um circo montado para iludir as inevitabilidades. Os próprios fundos gastos na tentativa de compreender as incertezas e, assim, torná-las um pouco mais certas, fazem parte desse circo montado para iludir as inevitabilidades. Um intrincado sistema de transferências, minudências e espelhos deformados. Compreende-se que não haja investimento no desvendar das inevitabilidades: o nome de palco das inevitabilidades é certezas e as certezas não requerem explicações: as certezas requerem dúvidas. Ou seja, incertezas com que se consiga viver. Incertezas que justifiquem o dinheiro gasto no circo montado para iludir as inevitabilidades. Ou seja, as certezas com que não se consegue viver.

2009.11.28

Faça-se um inquérito circulatório por email com umas perguntas inspiradas nos suplementos de Verão da imprensa tradicional. Coloque-se entre as perguntas uma acerca de qual o pior sentimento. É seguro que haverá um punhado de almas abnegadas a responder «a inveja» e um par de cretinos que elegerá «o ódio». Serão os mesmos que, na inevitável pergunta sobre qual o melhor sentimento, responderão «o amor». Não vale a pena perder tempo com gente desta. Mas é certo e sabido que a maioria dos respondentes não terá dúvidas em escolher como pior sentimento «o medo». É fatal como as dores nas articulações: o medo, tal como a música popular, quanto mais vende pior parece. Nem sempre justamente. A psicologia evolucionista explica isso muito bem, como tudo o resto.

O medo é o que nos mantém vivos. Mas, mais que esse pormenor amiúde lamentável, tal como a música são músicas, também o medo são medos. Todos eles fundamentais à sobrevivência de quem os sente, mas todos eles diferentes e fáceis de distinguir sem a necessidade de educação formal na área. Há medos góticos e pretensiosos, como o da morte própria, e medos sertanejos e autocomplacentes, como o da morte alheia. Há mesomedos de elevador que, apesar da sua tibieza, cumprem o objectivo da castração de forma competente, como o do ridículo. Há medos doom metal, como o de perder-se, na sua variante grandiosa — na selva, no deserto, na vida —, e há medos pimba, como de perder-se paroquial, petit mal — no caminho para Torreguadiaro, no centro histórico da Murtosa ou nas entrelinhas do cardápio retroiluminado do Rei dos Hamburgueses. Que tantas vidas de obstipação possam ser salvas com a mera sobreposição da melodiazinha da desorientação aos tambores militares do atino é, mais que apenas patético, belo.

E há pequenos medos indie, como o de andar na montanha russa, tornado ainda mais ridículo pela queda de um dos muros. Há medos folk, como o do amor, que facilmente se torna enjoativo e repetitivo, por incapacidade de progredir e vender a partir de determinado ponto da carreira do artista que com ela ganha o pão com que alimenta esse mesmo medo. É a chamada cagufa de rabo na boca. Há medos tecno minimal do quotidiano com que se vive benzinho comprando um cão. E há grandes e solitários medos cold wave que se iludem e, portanto, agravam comprando um cão. A todos devemos respeitar, acarinhar e aturar como a uma mãe galinha que mais não faz que cacarejar, mas que está sempre lá quando precisamos da bicada certa no momento certo. Para que não nos desviemos do caminho. Para que nos salvemos da felicidade, seguramente a escolha para a categoria de melhor sentimento de mais meia dúzia de imbecis com que não vale a pena perder um segundo de bom terror.

2009.11.25

2009.11.22

Ser drogado é como ser poeta ou paneleiro: por mais que se abandone a prática dos actos que conduziram à categorização do seu perpetrador, este nunca deixa de lhe corresponder. Aliás, segundo alguns autores, casos há em que não é sequer necessário ter dado início a essas práticas. Mas apenas os agarrados têm direito ao laurel de ex-toxicodependente. Nunca se ouviu falar de Fulano, ex-bardo de Carrazeda de Ansiães, que morreu miserável, esquecido e injustiçado. Nem de Sicrana, que ficou com o lugar de telefonista na câmara ao abrigo de um programa de integração de ex-fufas no mercado de trabalho. Se aos toxicómanos a sociedade diz que não esquece o que eles nunca deixaram de ser, mas que está disposta a fingir acreditar que eles não o voltarão a ser, aos vates e aos invertidos diz que não confia de todo na sua capacidade de arrependimento e correcção. Ainda temos muito que andar para sermos a Mauritânia da Europa.

Com isto esclarecido, o meu ex-toxicodependente de estimação, que se livra de outros problemas por ser do mais prosáico e estar num estado que não interessa a vivalma, arranjou um cãozinho de estimação. Um daqueles cãezinhos minúsculos, irritantes, a que dá vontade de dar um tiro que não mate logo. Pelo menos não deve sair caro. Até pode ser que entre na rubrica de coadjuvantes à terapêutica. E então agora o meu ex-toxicodependente de estimação dirige-se todos os dias, a passo largo e jingão, com o cãozinho minúsculo a saltitar na outra ponta da trela até ao café onde passa as tardes a fumar (tabaco). Quando não avançam, brincam de forma excessiva, pouco apropiada a espaços públicos. O cãozinho e o histriãozinho. É quase fofinho.

E eu dedico agora os meus tempos livres a observá-lo e a imaginar o que lhe acontecerá quando o seu animalzinho ridículo morrer — apesar de tudo, não é improvável que o meu ex-toxicodependente de estimação lhe sobreviva. Que sucederá ao seu dia-a-dia, à sua noite-a-noite, aos incisivos novos que uma alma caridosa lhe pagou, ao coração da mãe velhinha que todos os dias empobrece a amaldiçoar o que o destino lhe fez ao único filho. Como se ela, mesmo sem querer, não fosse sócia na empresa da sua destruição. Que sucederá à negação vitalícia do pai reformado, alimentada pelo sinal aberto com chuva e fantasma. À piedade da vizinhança. À paciência dos falsos amigos que o vão aturando por pena ou esperança no lucro de uma eventual recaída. Faço contas, tiro notas, leio literatura rápida sobre o assunto. Até comprei um Moleskine pocket sketch notebook para fazer uns bonecos. Pode parecer um hobby pífio, mas sempre é melhor do que andar metido na droga.

2009.11.19

2009.11.17

É uma terra indistinta e ignorada pelos distribuidores de tofu em conserva. É uma estrada recurva, feita de remendos e tampas de saneamento muito básico, que a necessidade e o engenho traçaram ao sabor do crescimento orgânico do casario ordinário.

Entre a estrada e as soleiras das portas, nada, a não ser restos esparsos do empedrado anterior à coesão. Entre o casario e o pinheucaliptal que define os limites de facto da localidade, quintais com sucata, árvores de fruto raquíticas, galinheiros e cães enjaulados, acorrentados ou de outra forma aprisionados. Daqueles que são felizes quando devem: quando vêem os donos chegar com uma tigela de lavagem numa mão e na outra o futuro de uma festa. E que, no intervalo entre uma aparição divina e outra, ensaiam uma cacofonia eterna de latidos e uivos enlouquecidos que trai, por atacado, toda a variedade de justificações expressas para a sua existência.

A meio da estrada-lugar, o café-mercearia, escuro apesar do mármore, inundado pelo cheiro a morangueiro, sovaco de trolha e ódio intergeracional. E a urina de cão, que tudo invade. Urina, sangue e vinho estariam nas armas do povo, fosse este mais que os últimos três dígitos de um código postal e uma placa moldada por tiros de caçadeira no ponto da berma em que as casas cedem lugar a um canavial. Não há paz desta na cidade, da qual se foi aproximando com o tempo. Foram-se aproximando uma da outra, na verdade. E agora que esta ainda paz já tão próxima do inferno da cidade ficou igualmente bem infraestruturada, é ver os filhos dos filhos regressar. Uns atrás dos outros, uns em cima dos outros, uns dentro dos outros, uns através dos outros, uns mais que outros, mas todos ao abrigo da banda larga. E dos cães de guarda às galinhas abandonados nos quintais.

2009.11.15

2009.11.11

Entrei, dominado pela tensão pré-burocrática, na sala branca e dominada pela razão. A repugnância que boa parte da arquitectura minha contemporânea tem pelos sentimentos só encontra par no amor que nutre pelas sensações. Uma geometria inatacável, mais um local inabitável. A luz do costume, excelente sempre que se reúnem condições que nunca se reuniram. Arte, técnica ou um sonho molhado estalinista? Responda você mesmo. Dirigi-me ao dispensador electrónico de senhas, também ele uma maravilha da tecnologia e do desígnio, decifrei as instruções para tentar perceber de que forma o meu estranho caso se encaixava nas valências disponíveis e carreguei no botão que me pareceu apropriado. Saiu um papel com uma letra e um número. Por cima da máquina, o ecrã de LCD deu-me a inferir que faltavam dois para a minha vez. O que Tati não faria daquilo.

O número seria uma boa notícia se o atendimento em front office não tivesse sido redimensionado segundo o pressuposto de que, a partir de uma determinada altura num passado palpável, todos os utentes iriam utilizar os serviços através do back office. Mas, como foi concebido por servos da gleba mal licenciados, o back office tem uma interface a um tempo primária e inutilizável. Felizmente, o seu grau de usabilidade não é particularmente importante, porque O Sistema está quase sempre inoperacional. Ciência, técnica ou um sonho molhado cyberpunk? Responda você mesmo. E então eu, que estava ali levado por uma tentativa frustrada de atendimento em back office, sabia que estar a dois números de ser atendido no front office queria dizer que, quando o fosse, a Ilha Maurícia já se teria distanciado outros 10 centímetros de Madagáscar.

Quando finalmente chegou a minha vez, só a dormência das pernas me impediu de correr até ao serviço competente: a tesouraria. O que me levava ali era a chegada à minha caixa de correio de uma carta que exigia o pagamento de uma taxa no valor de espaço em branco euros. Apresentei a carta à senhora da tesouraria, a face visível d’O Sistema, que, por ser de pequena estatura e por não ter sido executado um desnível no pavimento, estava mais de um metro abaixo de mim, atrás do balcão. Sempre gostava de saber o que Foucault diria daquilo. A ausência de valor na carta tinha-me impedido de efectuar o pagamento através da rede multibanco, expliquei. Não me tinha sido possível descobrir o montante através d’O Sistema, acrescentei. Mas ela, a senhora da tesouraria, também não sabia qual era esse valor. Aquela taxa costumava ser de, digamos, X euros, mas no meu estranho caso, devido a um acumular de circunstâncias alheias a todas as vontades do universo, o valor da taxa não era de, digamos, X euros. E quando o valor não era de, digamos, X euros, O Sistema não o revelava. Nem nas cartas, nem nos astros, nem no computador da senhora da tesouraria — e aqui o desnível que a colocava um metro abaixo de mim começava a fazer algum sentido. A solução passava, disse-me, por dirigir-me novamente à sala de espera e retirar uma senha para o secretariado, onde, aí sim, poderiam emitir uma nota de pagamento em que o misterioso valor que eu devia à instituição seria desvendado. De lá, deveria dirigir-me novamente à tesouraria, sem necessidade de retirar nova senha, para regularizar, então sim, a minha situação.

Percorri pesadamente o corredor mal copiado de THX 1138 que acabava na sala de espera, por essa altura já cheia de mortos-vivos de senha nas garras. Os que tinham conseguido ocupar a meia dúzia de lugares sentados falavam ao telemóvel ou dormiam. Ou ambos em simultâneo. A incapacidade para subtrair ao tempo de espera com a leitura de materiais impressos foi compensada, nos meios proto-intelectuais portugueses, pelo desenvolvimento de competências inusitadas ao nível do multitasking. Os cinquenta e dois que estavam de pé tinham perdido a esperança de um dia viverem num mundo melhor. Retirei uma senha para o secretariado. Faltavam catorze números para o meu: tempo suficiente para que o Shivelutch desse por terminada a sua presente actividade. Um alívio para a população residente em Kljutchi, mas não necessariamente para a presente no Pinhal de Marrocos.

2009.11.10

(para P., porque sim)

Ser não-báltico em Helsingfors é aceitável, mas em Tallinn não é fixe. Há uma delicadeza báltica que nunca passa de uma delicadeza báltica, mas que não é a mesma delicadeza báltica que os bálticos dedicam uns aos outros. Por isso, e por ter pelo leite materno provado o sabor daquela delicadeza báltica que não é a mesma delicadeza báltica que os bálticos dedicam uns aos outros, o não-báltico nunca saiu de casa sem se vestir como os bálticos.

Não se pense que o não-báltico tinha a pretensão de conseguir iludir os bálticos com as vestes de báltico, que só se permitia tirar defronte de quem, como ele, fosse não-báltico. Ele sabia que as feições e o acento e o porte o traíam. Que o corte mal imitado do trajo não ajudava à verosimilhança. Mas sentia-se confortável assim, a forçar os bálticos à necessidade de lhe dedicarem, por polidez e embaraço bálticos, uma delicadeza báltica para bálticos, mesmo que não a genuína. Uma falsa delicadeza de bálticos para bálticos que, pelas costas, os bálticos transformavam em desconfiança ou mesmo acidez báltica para não-bálticos.

Parecia-lhe ser aquele acordo de simulações um bom negócio, por permitir a perfeita acomodação das conveniências cosmopolitas do não-báltico ao quotidiano subárctico dos bálticos. O único senão era a resistência que os investidores não-bálticos a operar em território báltico ofereciam a encarar como parceiro credível de negócio um senhor que, embora não-báltico, tinha um jeito esquivo e não se queria parecer com os não-bálticos quando na presença dos bálticos, de quem nada queria a não ser o exercício competente da delicadeza báltica para bálticos. Assim, apesar do seu persistente estratagema, o mercado de trabalho continuava-lhe vedado. Pelo menos no Báltico.

2009.11.04

2009.11.02