(para P., porque sim)

Ser não-báltico em Helsingfors é aceitável, mas em Tallinn não é fixe. Há uma delicadeza báltica que nunca passa de uma delicadeza báltica, mas que não é a mesma delicadeza báltica que os bálticos dedicam uns aos outros. Por isso, e por ter pelo leite materno provado o sabor daquela delicadeza báltica que não é a mesma delicadeza báltica que os bálticos dedicam uns aos outros, o não-báltico nunca saiu de casa sem se vestir como os bálticos.

Não se pense que o não-báltico tinha a pretensão de conseguir iludir os bálticos com as vestes de báltico, que só se permitia tirar defronte de quem, como ele, fosse não-báltico. Ele sabia que as feições e o acento e o porte o traíam. Que o corte mal imitado do trajo não ajudava à verosimilhança. Mas sentia-se confortável assim, a forçar os bálticos à necessidade de lhe dedicarem, por polidez e embaraço bálticos, uma delicadeza báltica para bálticos, mesmo que não a genuína. Uma falsa delicadeza de bálticos para bálticos que, pelas costas, os bálticos transformavam em desconfiança ou mesmo acidez báltica para não-bálticos.

Parecia-lhe ser aquele acordo de simulações um bom negócio, por permitir a perfeita acomodação das conveniências cosmopolitas do não-báltico ao quotidiano subárctico dos bálticos. O único senão era a resistência que os investidores não-bálticos a operar em território báltico ofereciam a encarar como parceiro credível de negócio um senhor que, embora não-báltico, tinha um jeito esquivo e não se queria parecer com os não-bálticos quando na presença dos bálticos, de quem nada queria a não ser o exercício competente da delicadeza báltica para bálticos. Assim, apesar do seu persistente estratagema, o mercado de trabalho continuava-lhe vedado. Pelo menos no Báltico.

2009.11.04