Entrei, dominado pela tensão pré-burocrática, na sala branca e dominada pela razão. A repugnância que boa parte da arquitectura minha contemporânea tem pelos sentimentos só encontra par no amor que nutre pelas sensações. Uma geometria inatacável, mais um local inabitável. A luz do costume, excelente sempre que se reúnem condições que nunca se reuniram. Arte, técnica ou um sonho molhado estalinista? Responda você mesmo. Dirigi-me ao dispensador electrónico de senhas, também ele uma maravilha da tecnologia e do desígnio, decifrei as instruções para tentar perceber de que forma o meu estranho caso se encaixava nas valências disponíveis e carreguei no botão que me pareceu apropriado. Saiu um papel com uma letra e um número. Por cima da máquina, o ecrã de LCD deu-me a inferir que faltavam dois para a minha vez. O que Tati não faria daquilo.

O número seria uma boa notícia se o atendimento em front office não tivesse sido redimensionado segundo o pressuposto de que, a partir de uma determinada altura num passado palpável, todos os utentes iriam utilizar os serviços através do back office. Mas, como foi concebido por servos da gleba mal licenciados, o back office tem uma interface a um tempo primária e inutilizável. Felizmente, o seu grau de usabilidade não é particularmente importante, porque O Sistema está quase sempre inoperacional. Ciência, técnica ou um sonho molhado cyberpunk? Responda você mesmo. E então eu, que estava ali levado por uma tentativa frustrada de atendimento em back office, sabia que estar a dois números de ser atendido no front office queria dizer que, quando o fosse, a Ilha Maurícia já se teria distanciado outros 10 centímetros de Madagáscar.

Quando finalmente chegou a minha vez, só a dormência das pernas me impediu de correr até ao serviço competente: a tesouraria. O que me levava ali era a chegada à minha caixa de correio de uma carta que exigia o pagamento de uma taxa no valor de espaço em branco euros. Apresentei a carta à senhora da tesouraria, a face visível d’O Sistema, que, por ser de pequena estatura e por não ter sido executado um desnível no pavimento, estava mais de um metro abaixo de mim, atrás do balcão. Sempre gostava de saber o que Foucault diria daquilo. A ausência de valor na carta tinha-me impedido de efectuar o pagamento através da rede multibanco, expliquei. Não me tinha sido possível descobrir o montante através d’O Sistema, acrescentei. Mas ela, a senhora da tesouraria, também não sabia qual era esse valor. Aquela taxa costumava ser de, digamos, X euros, mas no meu estranho caso, devido a um acumular de circunstâncias alheias a todas as vontades do universo, o valor da taxa não era de, digamos, X euros. E quando o valor não era de, digamos, X euros, O Sistema não o revelava. Nem nas cartas, nem nos astros, nem no computador da senhora da tesouraria — e aqui o desnível que a colocava um metro abaixo de mim começava a fazer algum sentido. A solução passava, disse-me, por dirigir-me novamente à sala de espera e retirar uma senha para o secretariado, onde, aí sim, poderiam emitir uma nota de pagamento em que o misterioso valor que eu devia à instituição seria desvendado. De lá, deveria dirigir-me novamente à tesouraria, sem necessidade de retirar nova senha, para regularizar, então sim, a minha situação.

Percorri pesadamente o corredor mal copiado de THX 1138 que acabava na sala de espera, por essa altura já cheia de mortos-vivos de senha nas garras. Os que tinham conseguido ocupar a meia dúzia de lugares sentados falavam ao telemóvel ou dormiam. Ou ambos em simultâneo. A incapacidade para subtrair ao tempo de espera com a leitura de materiais impressos foi compensada, nos meios proto-intelectuais portugueses, pelo desenvolvimento de competências inusitadas ao nível do multitasking. Os cinquenta e dois que estavam de pé tinham perdido a esperança de um dia viverem num mundo melhor. Retirei uma senha para o secretariado. Faltavam catorze números para o meu: tempo suficiente para que o Shivelutch desse por terminada a sua presente actividade. Um alívio para a população residente em Kljutchi, mas não necessariamente para a presente no Pinhal de Marrocos.

2009.11.10