É uma terra indistinta e ignorada pelos distribuidores de tofu em conserva. É uma estrada recurva, feita de remendos e tampas de saneamento muito básico, que a necessidade e o engenho traçaram ao sabor do crescimento orgânico do casario ordinário.
Entre a estrada e as soleiras das portas, nada, a não ser restos esparsos do empedrado anterior à coesão. Entre o casario e o pinheucaliptal que define os limites de facto da localidade, quintais com sucata, árvores de fruto raquíticas, galinheiros e cães enjaulados, acorrentados ou de outra forma aprisionados. Daqueles que são felizes quando devem: quando vêem os donos chegar com uma tigela de lavagem numa mão e na outra o futuro de uma festa. E que, no intervalo entre uma aparição divina e outra, ensaiam uma cacofonia eterna de latidos e uivos enlouquecidos que trai, por atacado, toda a variedade de justificações expressas para a sua existência.
A meio da estrada-lugar, o café-mercearia, escuro apesar do mármore, inundado pelo cheiro a morangueiro, sovaco de trolha e ódio intergeracional. E a urina de cão, que tudo invade. Urina, sangue e vinho estariam nas armas do povo, fosse este mais que os últimos três dígitos de um código postal e uma placa moldada por tiros de caçadeira no ponto da berma em que as casas cedem lugar a um canavial. Não há paz desta na cidade, da qual se foi aproximando com o tempo. Foram-se aproximando uma da outra, na verdade. E agora que esta ainda paz já tão próxima do inferno da cidade ficou igualmente bem infraestruturada, é ver os filhos dos filhos regressar. Uns atrás dos outros, uns em cima dos outros, uns dentro dos outros, uns através dos outros, uns mais que outros, mas todos ao abrigo da banda larga. E dos cães de guarda às galinhas abandonados nos quintais.


