Ser drogado é como ser poeta ou paneleiro: por mais que se abandone a prática dos actos que conduziram à categorização do seu perpetrador, este nunca deixa de lhe corresponder. Aliás, segundo alguns autores, casos há em que não é sequer necessário ter dado início a essas práticas. Mas apenas os agarrados têm direito ao laurel de ex-toxicodependente. Nunca se ouviu falar de Fulano, ex-bardo de Carrazeda de Ansiães, que morreu miserável, esquecido e injustiçado. Nem de Sicrana, que ficou com o lugar de telefonista na câmara ao abrigo de um programa de integração de ex-fufas no mercado de trabalho. Se aos toxicómanos a sociedade diz que não esquece o que eles nunca deixaram de ser, mas que está disposta a fingir acreditar que eles não o voltarão a ser, aos vates e aos invertidos diz que não confia de todo na sua capacidade de arrependimento e correcção. Ainda temos muito que andar para sermos a Mauritânia da Europa.
Com isto esclarecido, o meu ex-toxicodependente de estimação, que se livra de outros problemas por ser do mais prosáico e estar num estado que não interessa a vivalma, arranjou um cãozinho de estimação. Um daqueles cãezinhos minúsculos, irritantes, a que dá vontade de dar um tiro que não mate logo. Pelo menos não deve sair caro. Até pode ser que entre na rubrica de coadjuvantes à terapêutica. E então agora o meu ex-toxicodependente de estimação dirige-se todos os dias, a passo largo e jingão, com o cãozinho minúsculo a saltitar na outra ponta da trela até ao café onde passa as tardes a fumar (tabaco). Quando não avançam, brincam de forma excessiva, pouco apropiada a espaços públicos. O cãozinho e o histriãozinho. É quase fofinho.
E eu dedico agora os meus tempos livres a observá-lo e a imaginar o que lhe acontecerá quando o seu animalzinho ridículo morrer — apesar de tudo, não é improvável que o meu ex-toxicodependente de estimação lhe sobreviva. Que sucederá ao seu dia-a-dia, à sua noite-a-noite, aos incisivos novos que uma alma caridosa lhe pagou, ao coração da mãe velhinha que todos os dias empobrece a amaldiçoar o que o destino lhe fez ao único filho. Como se ela, mesmo sem querer, não fosse sócia na empresa da sua destruição. Que sucederá à negação vitalícia do pai reformado, alimentada pelo sinal aberto com chuva e fantasma. À piedade da vizinhança. À paciência dos falsos amigos que o vão aturando por pena ou esperança no lucro de uma eventual recaída. Faço contas, tiro notas, leio literatura rápida sobre o assunto. Até comprei um Moleskine pocket sketch notebook para fazer uns bonecos. Pode parecer um hobby pífio, mas sempre é melhor do que andar metido na droga.


