Faça-se um inquérito circulatório por email com umas perguntas inspiradas nos suplementos de Verão da imprensa tradicional. Coloque-se entre as perguntas uma acerca de qual o pior sentimento. É seguro que haverá um punhado de almas abnegadas a responder «a inveja» e um par de cretinos que elegerá «o ódio». Serão os mesmos que, na inevitável pergunta sobre qual o melhor sentimento, responderão «o amor». Não vale a pena perder tempo com gente desta. Mas é certo e sabido que a maioria dos respondentes não terá dúvidas em escolher como pior sentimento «o medo». É fatal como as dores nas articulações: o medo, tal como a música popular, quanto mais vende pior parece. Nem sempre justamente. A psicologia evolucionista explica isso muito bem, como tudo o resto.
O medo é o que nos mantém vivos. Mas, mais que esse pormenor amiúde lamentável, tal como a música são músicas, também o medo são medos. Todos eles fundamentais à sobrevivência de quem os sente, mas todos eles diferentes e fáceis de distinguir sem a necessidade de educação formal na área. Há medos góticos e pretensiosos, como o da morte própria, e medos sertanejos e autocomplacentes, como o da morte alheia. Há mesomedos de elevador que, apesar da sua tibieza, cumprem o objectivo da castração de forma competente, como o do ridículo. Há medos doom metal, como o de perder-se, na sua variante grandiosa — na selva, no deserto, na vida —, e há medos pimba, como de perder-se paroquial, petit mal — no caminho para Torreguadiaro, no centro histórico da Murtosa ou nas entrelinhas do cardápio retroiluminado do Rei dos Hamburgueses. Que tantas vidas de obstipação possam ser salvas com a mera sobreposição da melodiazinha da desorientação aos tambores militares do atino é, mais que apenas patético, belo.
E há pequenos medos indie, como o de andar na montanha russa, tornado ainda mais ridículo pela queda de um dos muros. Há medos folk, como o do amor, que facilmente se torna enjoativo e repetitivo, por incapacidade de progredir e vender a partir de determinado ponto da carreira do artista que com ela ganha o pão com que alimenta esse mesmo medo. É a chamada cagufa de rabo na boca. Há medos tecno minimal do quotidiano com que se vive benzinho comprando um cão. E há grandes e solitários medos cold wave que se iludem e, portanto, agravam comprando um cão. A todos devemos respeitar, acarinhar e aturar como a uma mãe galinha que mais não faz que cacarejar, mas que está sempre lá quando precisamos da bicada certa no momento certo. Para que não nos desviemos do caminho. Para que nos salvemos da felicidade, seguramente a escolha para a categoria de melhor sentimento de mais meia dúzia de imbecis com que não vale a pena perder um segundo de bom terror.


