A telenovela Perfeito Coração, actualmente em exibição num dos canais de sinal aberto, interessa-me. Trata-se de um objecto que pode ser arrumado no sub-sub-sub-género missing children exploitation soap operas, que acabei de criar, em que o mau da fita, que é mesmo muito mau, é director de um banco de investimentos e não tem réstia de escrúpulos. O bom da fita, que é mesmo muito bonitinho, acordou há pouquinho de cinco anos em coma e não o fizeram extremamente inteligente. A boazinha da fita, que é mesmo muito deslavada, é tratadora de animais e passa a maior parte do tempo a descompensar por razões mais que compreensíveis.
O ponto de partida, a «ideia», se lhe quisermos chamar tanto, é simples: encaixar as principais «linhas da actualidade noticiosa» numa tradicional estória de amor aparentemente impossível. A forma como isto é feito deve mais à carpintaria que à escrita criativa e, talvez para não emaranhar ainda mais a trama, todo o potencial resto foi alvo de cortes que, até este momento, aparentam ser totais. As questões do sexismo, da deficiência/mobilidade, do endividamento dos consumidores e das sociabilidades remotas foram incluídas, embora de forma pouco mais que decorativa, mas as temáticas LGBTQISA e da imigração/pós-colonialismo/governação global, só para dar trezentos e setenta e quatro exemplos cintilantes, não estão lá. E, apesar de a boazinha da fita ser tratadora de animais, não os há amestrados.
Mas nem por isso Perfeito Coração deixa de ser uma produção ambiciosa. Com várias cenas de exterior gravadas na Suiça, alguns dos actores mais bem pagos do star system português e uma cenografia pobre de ideias mas sem as cabeças dos pregos à mostra, nota-se que se investiu ali muito dinheiro. As perguntas «porquê?», «para quê?» e «a quanto estava a clementina espanhola no Pingo Doce?» ocorrem várias vezes em simultâneo com as manifestações de opulência da telenovela, mas não esmaecem o brilho americano de cada uma das suas cenas. A realização não existe, há simplesmente umas câmaras e umas pessoas e uns adereços por ali. Os diálogos parecem ter sido escritos a pensar numa peça de escola básica dois vírgula três. O nível médio do trabalho dos actores, mesmo o daqueles a quem já se viu bastante melhor, é sofrível para os padrões televisivos portugueses. Ou seja, é anedótico para quaisquer outros padrões vigentes no Norte entalado entre os Urais e as Aleutas.
Contudo, e como já ficou advertido acima, o maior interesse da telenovela reside no argumento. Hesitante e esburacado, depois de somado aos restantes azares da produção, o argumento de Perfeito Coração testa, pelo menos seis vezes por episódio, a suspensão voluntária da descrença dos espectadores bem para além dos limites recomendados pela OMS. E é por aqui que Perfeito Coração pode vir a tornar-se um objecto fundamental para compreender o que aí vem depois de o ter sido, independentemente do que venha a ser. Depois desta telenovela, toda a relação do espectador (latu sensu) com as narrativas ficcionais, dinâmica e em permanente reconfiguração pelo menos desde os pais da igreja, fica impossibilitada de continuar a existir nos termos mais básicos e fundadores em que a sua sobrevivência assentou até aos dias de hoje. Eu próprio já dei por mim tentado a subscrever produtos financeiros de alto risco logo após ver um episódio de Perfeito Coração. Temo pelo que pode suceder a quem, como as crianças menores de seis anos deixadas em frente à televisão por pais biológicos irresponsáveis, disponha de uma artilharia hermenêutica inferior à minha.
Estes produtos marginais — estamos a falar da televisão portuguesa — e os seus efeitos não devem ser desprezados. Não faltam exemplos de objectos comparáveis que se sustentaram precisamente na sua aparente menoridade para adquirirem, por vezes décadas mais tarde e completamente fora de qualquer ilusão de controlo dos seus autores, a capacidade de suscitar uma releitura da realidade subsequente à exposição pública dos mesmos. Ou à exposição do público a eles, pois não raro tratam-se de produtos subliminar e imaterialmente tóxicos, com consequências ainda não totalmente conhecidas, como é hábito das substâncias que alteram para sempre o passado. É por isso que neste momento não sabemos nem podemos saber se, daqui a dez anos, estaremos ou não todos a viver no mundo entretanto feito possível, não por uma nova fé poética, mas pela inalação continuada do metano exalado de perfeita biomassa.


