O diletante estica-se na cama para fazer alongamentos.
O diletante morre feliz todas as manhãs.
O diletante foi o primeiro homem a pisar a Lua com os pés descalços.
O diletante passeia-se e ao seu bloco de notas semper virgo pelo jardim semper virens onde observa com o mesmo desprendimento as damas ao sol e os mancebos pousados nas nuvens que aí vêm.
O diletante faz anéis de fumo sentado na borda da piscina.
O diletante não sabe ir a Londres sem passar por Paris e vice-versa.
O diletante não esmorece perante a adversidade ou a evidência.
O diletante atende o telemóvel mesmo quando foi ele a ligar.
O diletante bebe café com um cubo de gelo em chávena escaldada.
O diletante não se desloca, desliza. O seu maior temor é tornar-se aquilo de que foge e por isso foge glissando. Teme o filho que acabou a fazer à mulher o que imaginou o pai fazer à mãe ou a filha que acabou a fazer-se ao marido da forma que viu a mãe desfazer-se no pai. Ou o denegado que se abriga da afirmação perseguindo o renegado. Ou as tolerâncias que se fazem remetendo os seus libertados a uma nova servidão. Edifica-se um corruptor para salvar um casamento do seu próprio casal com a mesma facilidade com que se descobre judeus para salvar um reich da sua própria alemanha. Ou com a mesma facilidade com que se queima uma correspondência para salvar um dono da sua própria pena. Acontece às singulares como acontece às colectivas, mas essa é uma ponte difícil de enfrentar, pois os ventos cruzados perturbam quem, como o diletante, é mais leve que o ar.
O diletante precisa de disciplina mas tudo o que lhe dão é disciplinas.
O diletante sofre de todos os males incuráveis da sociedade da cura.
O diletante é grande demais para isso, quanto mais para isto.
O diletante deita-se no chão a ouvir música com o auscultador esquerdo no ouvido direito e o auscultador direito no ouvido esquerdo.


