Levantei-me cedo e fui à Serra da Boa Viagem apanhar humidade nos ossos. Depois comi uma tosta vulgaris, que empurrei com a ajuda de uma Sagres (loura, 33cl) num café anónimo, e fui-me sentar num daqueles calhaus da Murtinheira que se tornaram património geológico da nação a ler algumas páginas de um livro menos mau. Roí uma cenoura de supermercado quando me voltou uma espécie de fome. Tirei meia dúzia de fotografias ao entardecer trivial na praia e, para cumprir o programa até ao fim, deitei-me na areia húmida, por minutos, a ouvir o rumor estafado da ondulação. Brisa fresca nas partes descobertas, maresia nos receptores, etc.

A barreira contra a paternidade que se estende, dali para Norte, na forma de um majestoso cordão dunar, pode desaparecer dentro de alguns anos. Hoje é repositório do plástico trazido pelo mar de Inverno e das carcaças de golfinhos que se acumulam nas áreas não concessionadas. Antes do final do século poderá estar submerso ou envenenado ou ambos. Mesmo as áreas concessionadas. Mas a sensação de que toda a aquela costa, predominantemente sentimental, poderá não me sobreviver, deu-me um conforto maior que o que poderia ter retirado de passar a tarde debalde aos gritos por um mundo quase habitável para os filhos dos outros.

O copo está entornado. Meti-me no carro, comi uma salada inteligente no shopping construído no lugar que era de sobreiros e suas estranhas companhias, vim para casa, tomei um banho de ácido hipocloroso, entortei-me no sofá a ver uma tentativa que ficou encravada entre Vladimir/Estragon e Statler/Waldorf e fui para a cama dormir o sono dos injustos seguros de que se safaram por pouco. Quando acordei, ainda cá estávamos todos, mais os eflúvios depressores que entretanto relançámos na canalização. Um dia à frente do outro: assim é que se faz o futuro para uma eficiente máquina de ressentimento.

2009.12.16