Foram seis meses que me moldaram, que fizeram de mim o homem que sou hoje. Mas como o que sou hoje é o mesmo que era ontem, anteontem e por aí atrás, esta parte foi a mais fácil. Uma espécie de predestinação previamente conhecida, o direito a um julgamento justo que culmina numa condenação inevitável, um pombo que não teve o bom senso de se aliviar no nosso impermeável, a mensagem do operador a informar que temos oito dias para que o carregamento do telemóvel expire. O princípio da não retroactividade da lei atinge picos de benevolência que seriam impossíveis de conceber antes da fase pré da pós.

Cheguei, de mochila às costas, a meio da noite. Mas como lá é sempre de noite, é sempre meio da noite. Esta parte foi a mais fácil. Adaptei-me sem problemas. O local rege-se por uma lógica exclusiva e exaustiva de exposição ao factor precipitante: ou te curas ou te fodes. A psicologia clínica cognitivo-comportamental, especialmente quando levada à prática por agentes cujas competências não foram validadas por uma panelinha, é capaz de extremos de sadismo que pensávamos abandonados desde a fase pós da pré. Mas lá que resulta, resulta, mesmo quando não resulta.

E ao que fui e o que estive lá a fazer durante todo aquele tempo? Para começar, achei por bem libertar as costas da mochila, tomar um longo banho de água fria — como não havia outra, esta parte foi a mais fácil — e recrear-me como comensal, a melhor forma que encontrei de me apresentar às vítimas da noite em recuperação. Depois, recoloquei a mochila às costas e comecei tudo de novo, banho incluído, mas agora à frente delas. E fui sempre fazendo isto, uma vez após outra, perante novas levas de vítimas da noite que vinham substituir as entretanto recuperadas ou falecidas, ou seja, expulsas para a manhãzinha ou para o entardecer, respectivamente.

Precisavam de alguém que as sentisse mas não se sentisse, alguém que nada esperasse delas, nem no mau nem no péssimo sentido. Alguém que se divertisse às custas delas sem sentimentos de culpa e aceitasse os seus apupos sem ressaibo. E quero crer que, com o desempenho das minhas funções aparentemente paradoxais de pilar da permanência e metáfora mal amanhada do transitório, deixei alguma marca numa geração. Uma marca tão grande como aquela a que eu próprio consegui escapar.

2009.12.27