Houve um tempo em que pensei dedicar o melhor da minha vida à exploração minuciosa dos mecanismos subjacentes à formação de pares perfeitos. Frango e milho, massa italiana e alcaparras, ana e maria, preto e rosa, favas e camarão, sexo e violência, cerveja e tremoços, machado de assis e ameixa rainha claúdia, escondidos e infusão de limonete, pasolini e cafuné, pedro e miguel, canábis e sumo de maracujá, romãzeiras e azulejaria oitocentista, vergílio ferreira e chuva lá fora, hepburn e fonda, ervas finas da provença e veado mal passado, europop e laranjada, satie e sudeste, ovos moles e diabetes gestacional, gore vidal e frottage, tabaco e setembro, tabaco e maresia, tabaco e vermute, nozes e ricotta, natas e moka, cádiz e trovoada, descartes e fôrmica, piedade e abjecção, pessoa e psicose, acordar e barcos no tejo, amor e fiat punto, hockney e piscinas, cheddar e pepino, cloridrato de melperona e chostakovitch, agário-das-moscas e neblina matinal, arroz e lingueirão, et al. e etc.

A lista era potencialmente interminável, o que só tornava o propósito mais ridículo, egocêntrico, boçal. Mas eu era jovem e precisava do dinheiro. E estimulava-me o desejo adicional de confirmar a justeza de Wilde: aqueles que vêem alguma diferença entre corpo e alma é porque não têm nenhum dos dois. Nunca duvidei de que minha essência pode ser resumida, sem perdas substanciais, nas contracções do meu músculo detrusor, mas uma coisa é saber, outra é produzir a possibilidade, mesmo que fútil, de replicações. Agora, com toda esta distância que me separa daquela empresa, e tendo entretanto encontrado formas bastante menos satisfatórias, mas mais inteligentes e lucrativas de consumir a luz dos meus dias, é-me impossível não reparar na queda gastronómica do meu plano, daí retirar as mais trágicas conclusões e nelas afundar-me por incapacidade calcificada de me contrariar. Não são só as pessoas que não mudam nunca: eu também não.

2009.12.29