Arquivos de 2010/01

Dixit, assim titulado, assimilado, mas não facsimilado: «quando se nasce pela segunda vez assiste-se ao próprio nascimento». Acrescento: com a vantagem de que o alto nível de medicalização dos processos e a utilização de métodos diagnósticos e terapêuticos invasivos são, até certo ponto, opcionais. É tudo uma questão do lado para que o nascituro está virado.

Também quando se morre pela segunda vez se assiste à própria morte. Com a vantagem de que o mesmo nível de burocratização e a alocação de espaço morto para o efeito estão, de certa forma, vedados. A menos que o recém-falecido apresente sinais de decomposição demasiado odoríferos para que se possa dispensar o recurso a medidas de contenção.

Pode-se nascer uma terceira vez, mas terá de se ser a própria mãe. E o mundo já é bem abastecido de filhos de mães loucas, passe o floreado, para aguentar expoentes.

Pode-se morrer uma terceira vez, mas já está demasiado visto. Ainda vende, mas só porque é um bem de útlima necessidade.

2010.01.31

2010.01.25

O papel do fortuito não deve ser menosprezado no correr da História. Certo: mesmo recusando o fatalismo, é inevitável que, ao olharmos o passado, vejamos uma sequência de acontecimentos com um sentido que os encadeia a caminho de um desfecho que nos aparece como inevitável. Esta inescapabilidade torna os exercícios habitualmente designados de «história alternativa» úteis para percebermos o quão reles, aleatória e desprezível é a nossa existência. Muito mais que a «ficção histórica» das montras da Bertrand, a «história alternativa» implica ou, pelo menos convida, a um verdadeiro questionamento desse tal malfadado sentido que atribuímos àquilo que aparenta ser uma torrente ordenada de acontecimentos. Também obriga a olhar para o papel ou, nos casos fraquinhos, função, dos vários actores (individuais e colectivos, humanos e não humanos) na construção do nosso destino, essa coisa do passado que muitos insistem em ver no futuro.

Alguns destes ensaios foram já várias vezes propostos e passados a volume e película, de forma mais ou menos delirante, mas os resultados nunca lhes permitiram mais que encaixar-se num pequeno nicho da produção cultural. Para que se possa tornar um género maior do século que só daqui a uns bons oitenta anos, quando já se conseguir dar a tudo isto a porcaria do sentido, poderemos nomear, a «história alternativa» terá de se redefinir. E essa redefinição, que por certo implicará uma renomeação, deve passar pela aposição a um dado momento pretérito de um elemento em que ele teria sido impossível e, a partir daí, reconstruir todo o horror subsequente. Alguns exemplos.

Se houvesse um grupo de jovens locais da rede ex aequo na Tarso do dealbar da nossa era, teria o Paulo de lá manifestado um distúrbio de somatização de forma tão tragicamente consequente na estrada para Damasco? Se a neve tivesse chegado a Moscovo uma semana mais tarde em 1941, teríamos tido o Jacques Delors na Gulbenkian a semana passada? Se o grupo de jovens locais da rede ex aequo de Leiria tivesse sido fundado no início dos 1900, Alvaiázere ainda existiria? Se o radialista tivesse trocado os discos, não teria o 25 de Abril sido a 26? Se houvesse um grupo de jovens locais da rede ex aequo em Viseu há cinquenta anos, que sotaque teria hoje a maioria dos padres? Se o incidente de Tunguska tivesse ocorrido meia hora mais tarde, que papel ocuparia Saraievo na cultura do século que ainda tentamos nomear? Se o grupo de jovens locais da rede ex aequo de Cascais tivesse aberto a tempo de apanhar os jovens príncipes nos tempos de vilegiatura, quantos anos de república estaríamos agora a celebrar?

Este exercício, algures entre a «ficção humanística histórica alternativa», o anacronismo e a toma de medicação fora do prazo de validade também não é novo. Já foi muitas vezes utilizado por várias correntes artísticas e de pensamento do século passado. Mas foi-o sempre com vista a objectivos diferentes, demasiado ambiciosos, e baseando-se em pressupostos outros. No caso da minha proposta, não existe uma invocação ao futuro e muito menos uma interrogação sobre o lugar dos grandes símios no universo, ou em qualquer outro putativo lugar mais aprazível. Não: a minha pretensão é a de descer as expectativas e trabalhar sobre as ambições por que nos podemos responsabilizar: o quotidiano presente e os quotidianos passados são tudo o que temos e a eles nos devemos cingir. O resto é de cordel.

2010.01.22

Ler a Ler mete-me medo, em particular quando lhe reservo uma noite de vento que uiva nas janelas da ala Oeste. Não porque os conteúdos sejam de susto ou porque o preço seja abominável, mas porque as fotos tipo passe dos cronistas em estilo mugshot chic dão a ideia de que, ali, a opinião foi entregue a uma rede que se dedicava a fatiar velhinhas amorosas recorrendo ao último grito em cortadoras de enchidos industriais. Naquela atmosfera patibular, até o sorriso maternal da única mulher do extenso bando sobressai como perturbante e perturbado. Mas depois lembro-me de que a população prisional portuguesa é maioritariamente masculina e perdoo-me: o que parece não costuma ser. Ainda assim, foi com alívio que, no último número (87, Janeiro de 2010), encontrei lá pelo meio o Alberto Pimenta, com as feições de avô sábio, brincalhão e incapaz de algo acima dos dois anos de pena suspensa que o tempo lhe emprestou a bom juro, entrevistando-se no sofá do costume:

«Um dos problemas das pessoas que tomam decisões neste país é tomá-las sentadas, uma das mais arrevesadas e angulosas posições que o homem inventou. Na cama é outra coisa.»

Sim, mas. O problema das pessoas que tomam decisões neste país, como na generalidade dos outros, é que as tomam sentadas em frente à sua secretária, uma peça de mobiliário inventada para o efeito de resguardar os humanos da vulnerabilidade conferida pela angulosidade e o arrevesamento. Uma pessoa que toma decisões sentada e a sua secretária constituem um dos binómios mais destrutivos da história do sistema planetário. Cada um destes pares é um buraco negro em miniatura que suga e esmaga tudo em seu redor. Uma pessoa sentada é uma pessoa ainda mais frágil que uma pessoa de pé. Uma pessoa sentada perante a secretária de outrem é um reles parasita ou um cão, consoante o lado da dita cuja em que estiver. Mas uma pessoa sentada em frente à sua secretária, que é sempre maior que a tua, é uma pessoa blindada. Enche o peito, as hormonas certas percorrem-lhe o corpo e profere, assina, impõe e liberta todo o seu poder de desmando.

No entanto, creio que a solução para o problema está nas cócoras e não na cama. Os opinadores da Ler que não se safaram com uma caricatura ou a simples ausência do rosto deveriam ter sido fotografados de cócoras por um fotógrafo de cócoras. Na cama suscitariam o acompanhamento de alguém devidamente credenciado para o efeito que depressa arruinaria a situação. Todas as hierarquias em negação deveriam ser confrontadas com a sua discricionariedade de cócoras. Na cama entrariam num outro sono por tempo indefinido. A polícia deveria proceder a detenções de cócoras. Na cama talvez não fosse possível, algo que a facção menos favorecida da Ler talvez pretendesse, mas que nos lançaria no caos. Se os conselhos de administração dos bancos ora falidos tivessem reunido de cócoras, talvez os seus clientes não estivessem agora de cama. Se Comte tivesse escrito de cócoras, nada disto teria acontecido e poderíamos passar mais tempo na cama. E, mais importante que tudo, se não se tivesse inventado a sanita e a mesa de partos, talvez o mundo fosse hoje um sítio melhor ou, pelo menos, mais breve e repousado.

2010.01.20

Ninguém é insubstituível. Ninguém é substituível. Ambas são verdade no mesmo tempo, no mesmo lugar, nas mesmas circunstâncias, para um mesmo objecto, segundo um mesmo sujeito, embora não sejam miscíveis. Ou bem que uma ou bem que a outra, mas elas insistem em coexistir. E dizer-se que uma é verdade até um dado ponto em que cede o lugar à justeza da outra não se aplica sempre que se fala de algo mais, muito mais, que de funcionários. Isto não faz sentido? Não há lugar para o sentido quando se fala de sentimento. Fazes sentido ou fazes o que é sentido, sempre que se fala de mais, muito mais, que de relatórios. O ponto em que um deles tem de ceder lugar ao outro é o ponto inicial. Ou um ou o outro, nada de misturas, porque o mundo, qualquer mundo, é pequeno demais para ambos. A coexistência é impossível. No mesmo tempo, no mesmo lugar, nas mesmas circunstâncias, para um mesmo objecto, segundo um mesmo sujeito, um dos dois terá de ser mentido para que não reste apenas a nitidez do vazio.

2010.01.15

2010.01.13

Cai sempre bem defender aquilo de que se não beneficia. Convém aos beneficiários ter o apoio de um desinteressado, mesmo que desinteressante, que conceda às causas a cor da legitimidade, da justiça e da equidade que elas não teriam se defendidas apenas por quem tem algo a ganhar ou tudo a perder. E o opressor tresmalhado que faz a doação, adquire, com esse apoio, um capital não negligenciável de respeito, quantas vezes acompanhado de despeito, por ter abdicado do seu conforto para dar parte da vida, regra geral estúpida e, por isso, necessitada de uma causa, pelo bem-estar de outros.

Um branco que luta contra o racismo. Um homem que se insurge contra o machismo. Um heterossexual que se declara favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um católico que defende a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Um cidadão nado, criado e pleno que advoga o alastramento dos direitos de cidadania aos metecos. Um inimputável que agride o Berlusconi com uma miniatura do Duomo. Um macho procriador da espécie que utiliza o feminino generalizante. Um desempregado faminto que se bate pela manutenção do capitalismo desregulado. Neste último caso, de sentido inverso aos anteriores, é possível que se trate apenas de uma avaria na consciência e não propriamente de abnegação, mas, para o efeito, também serve.

Incapaz de pertencer convictamente a maiorias socialmente relevantes, e depois me ter sido revelado que tenho um problema de liquidez simbólica, restou-me a opção de apoiar a actual legislação antitabágica na qualidade de fumador. É verdade que, uma vez que a actual legislação permite o fumo em casa, na rua, nos estabelecimentos de diversão nocturna decentes e em zonas aprazíveis reservadas para o efeito nos hospitais psiquiátricos — os quatro tipos de espaço em que passo a quase totalidade do meu tempo —, praticamente não dei pela entrada em vigor da lei. Já lá vão uns anos, dizem. Sei que as minhas limitações turvam a limpidez do meu activismo e que a fragilidade associada a todos os estatutos que posso activar retiram benefício aos potenciais beneficiários. Que lhes infecto a causa. Mas isso são os riscos decorrentes do exercício da actividade comercial com que quem anda nisto tem de se arranjar.

2010.01.11

É natural que o público saia das salas de cinema um pouco zonzo, tonto, aturdido ou de outra forma perturbado. Não por ser a milionésima metaforazinha da destruição com que o macho branco, depois de recrutar a fêmea branca para a secção de caridade & condescendência, macula todas as virgindades em que a sua mão põe o pé. É antes das potencialidades da cauda. Da terminação felina do nariz. Da sobriedade musculada dos corpos. Uma evidência impõe-se: um na’vi que aceda a corrigir aqueles dentes é uma solução perfeitamente aceitável para a maior parte das pessoas em que a função serotonérgica esteja, por assim dizer, liberta de constrangimentos de maior. Uma solução que durará até que uma falha da EDP os separe. O que, dependendo da qualidade do serviço praticada na zona de cada cliente, pode ser bastante mais que a vulgar eternidade.

2010.01.09

Imortalidade não é teres o nome numa placa de rua nem uma memória solid state com o teu blogue a rodopiar no espaço sideral. E muito menos o é teres uma estátua no parque atrás da qual os mendigos se possam aliviar. Imortalidade é conseguires transmitir o teu património, inevitavelmente misturado com o da outra, que foi o que conseguiste arranjar, sabem as estrelas com que custo, e saberes lá tu onde vai ele parar daqui a duas, quatro, oito ou quinhentas e doze gerações.

É, depois de dares a procriação por encerrada, buscares na rede um ideograma kanji para «imortal», imprimi-lo numa folha A4, levá-lo ao melhor tatuador da tua área de residência e gravá-lo, em pequeno mas resoluto, no interior glabro e alvo do teu antebraço direito — em japonês e não nas imediações dos ilíacos, porque até nisto convém respeitar os limites de discrição impostos pela Comissão Europeia. É exibires orgulhosamente a tua nova peça de body art mesmo quando está de inverno, a título de firmeza. É toda a gente saber que já não há nada a fazer. É conheceres casualmente um aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte que é franco contigo e te diz que:

a) a caligrafia pode ser aceitável para a insensibilidade de um ocidental, mas nunca o será para um estudante do ensino básico japonês que não pretenda falecer de insucesso escolar nos próximos 5 anos;
b) foste ludibriado e o ideograma não significa «imortal», mas sim «pipoca».

Imortalidade é comeres tudo o que vem à rede.

Imortalidade é o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte, que agora repugnas casualmente, não respeitar os limites da discrição impostos pela Comissão Europeia e ficares conhecido na terra como o Pipoca. É o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte ser obrigado a transferir-se para a licenciatura à carbonara em Assistencialismo e Subsidiodependência da Universidade de Dão-Lafões para conseguir escapar à tua ira. É começarem a lançar-te piadinhas quando vais ao cinema. É passares a ficar na letra p sempre que te adicionam à lista de contactos. É teres de te apresentar assim porque já ninguém te conhece de outra maneira. É correres o risco de ter esse nome numa placa de rua, embora talvez nunca a viajar para lá da região transneptuniana. É a outra, santo deus, que nunca mais se farta e vai, chamar-te Pipoca para pôr em causa a tua virilidade sempre que só regressas na manhã seguinte. É saberes que Pipoca ainda pode acabar na identificação oficial das misturas do teu património daqui a duas, quatro, oito ou mil e vinte e quatro gerações, sabes lá tu com que orto ou ideografia.

É já não suportares mais a vida com o Pipoca, mesmo depois da dermoabrasão e da cicatriz hipertrófica, porque o Pipoca continua a viver bem contigo e também não se farta e vai. É ele começar a ir para o trabalho contigo e tu perguntares-te porque não foste antes para Londres, onde serias simplesmente pop apesar de corn, quando era tempo disso. É ires passar férias com não-iniciados e ele colar-se-te no momento em que regressas. É um dia não saberes onde tens a cabeça, ires com o Pipoca agarrado para o lavatório, como para todo o lado, perderes as estribeiras e dares-lhe uma tareia descomunal. É a seguir olhares-te ensanguentado ao espelho e, na solidão letal da casa-de-banho do quarto de casal, dizeres-lhe: «acredita, minha querida, doeu-me mais a mim que a ti».

2010.01.05

2010.01.02