Imortalidade não é teres o nome numa placa de rua nem uma memória solid state com o teu blogue a rodopiar no espaço sideral. E muito menos o é teres uma estátua no parque atrás da qual os mendigos se possam aliviar. Imortalidade é conseguires transmitir o teu património, inevitavelmente misturado com o da outra, que foi o que conseguiste arranjar, sabem as estrelas com que custo, e saberes lá tu onde vai ele parar daqui a duas, quatro, oito ou quinhentas e doze gerações.

É, depois de dares a procriação por encerrada, buscares na rede um ideograma kanji para «imortal», imprimi-lo numa folha A4, levá-lo ao melhor tatuador da tua área de residência e gravá-lo, em pequeno mas resoluto, no interior glabro e alvo do teu antebraço direito — em japonês e não nas imediações dos ilíacos, porque até nisto convém respeitar os limites de discrição impostos pela Comissão Europeia. É exibires orgulhosamente a tua nova peça de body art mesmo quando está de inverno, a título de firmeza. É toda a gente saber que já não há nada a fazer. É conheceres casualmente um aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte que é franco contigo e te diz que:

a) a caligrafia pode ser aceitável para a insensibilidade de um ocidental, mas nunca o será para um estudante do ensino básico japonês que não pretenda falecer de insucesso escolar nos próximos 5 anos;
b) foste ludibriado e o ideograma não significa «imortal», mas sim «pipoca».

Imortalidade é comeres tudo o que vem à rede.

Imortalidade é o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte, que agora repugnas casualmente, não respeitar os limites da discrição impostos pela Comissão Europeia e ficares conhecido na terra como o Pipoca. É o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte ser obrigado a transferir-se para a licenciatura à carbonara em Assistencialismo e Subsidiodependência da Universidade de Dão-Lafões para conseguir escapar à tua ira. É começarem a lançar-te piadinhas quando vais ao cinema. É passares a ficar na letra p sempre que te adicionam à lista de contactos. É teres de te apresentar assim porque já ninguém te conhece de outra maneira. É correres o risco de ter esse nome numa placa de rua, embora talvez nunca a viajar para lá da região transneptuniana. É a outra, santo deus, que nunca mais se farta e vai, chamar-te Pipoca para pôr em causa a tua virilidade sempre que só regressas na manhã seguinte. É saberes que Pipoca ainda pode acabar na identificação oficial das misturas do teu património daqui a duas, quatro, oito ou mil e vinte e quatro gerações, sabes lá tu com que orto ou ideografia.

É já não suportares mais a vida com o Pipoca, mesmo depois da dermoabrasão e da cicatriz hipertrófica, porque o Pipoca continua a viver bem contigo e também não se farta e vai. É ele começar a ir para o trabalho contigo e tu perguntares-te porque não foste antes para Londres, onde serias simplesmente pop apesar de corn, quando era tempo disso. É ires passar férias com não-iniciados e ele colar-se-te no momento em que regressas. É um dia não saberes onde tens a cabeça, ires com o Pipoca agarrado para o lavatório, como para todo o lado, perderes as estribeiras e dares-lhe uma tareia descomunal. É a seguir olhares-te ensanguentado ao espelho e, na solidão letal da casa-de-banho do quarto de casal, dizeres-lhe: «acredita, minha querida, doeu-me mais a mim que a ti».

2010.01.05