Ler a Ler mete-me medo, em particular quando lhe reservo uma noite de vento que uiva nas janelas da ala Oeste. Não porque os conteúdos sejam de susto ou porque o preço seja abominável, mas porque as fotos tipo passe dos cronistas em estilo mugshot chic dão a ideia de que, ali, a opinião foi entregue a uma rede que se dedicava a fatiar velhinhas amorosas recorrendo ao último grito em cortadoras de enchidos industriais. Naquela atmosfera patibular, até o sorriso maternal da única mulher do extenso bando sobressai como perturbante e perturbado. Mas depois lembro-me de que a população prisional portuguesa é maioritariamente masculina e perdoo-me: o que parece não costuma ser. Ainda assim, foi com alívio que, no último número (87, Janeiro de 2010), encontrei lá pelo meio o Alberto Pimenta, com as feições de avô sábio, brincalhão e incapaz de algo acima dos dois anos de pena suspensa que o tempo lhe emprestou a bom juro, entrevistando-se no sofá do costume:

«Um dos problemas das pessoas que tomam decisões neste país é tomá-las sentadas, uma das mais arrevesadas e angulosas posições que o homem inventou. Na cama é outra coisa.»

Sim, mas. O problema das pessoas que tomam decisões neste país, como na generalidade dos outros, é que as tomam sentadas em frente à sua secretária, uma peça de mobiliário inventada para o efeito de resguardar os humanos da vulnerabilidade conferida pela angulosidade e o arrevesamento. Uma pessoa que toma decisões sentada e a sua secretária constituem um dos binómios mais destrutivos da história do sistema planetário. Cada um destes pares é um buraco negro em miniatura que suga e esmaga tudo em seu redor. Uma pessoa sentada é uma pessoa ainda mais frágil que uma pessoa de pé. Uma pessoa sentada perante a secretária de outrem é um reles parasita ou um cão, consoante o lado da dita cuja em que estiver. Mas uma pessoa sentada em frente à sua secretária, que é sempre maior que a tua, é uma pessoa blindada. Enche o peito, as hormonas certas percorrem-lhe o corpo e profere, assina, impõe e liberta todo o seu poder de desmando.

No entanto, creio que a solução para o problema está nas cócoras e não na cama. Os opinadores da Ler que não se safaram com uma caricatura ou a simples ausência do rosto deveriam ter sido fotografados de cócoras por um fotógrafo de cócoras. Na cama suscitariam o acompanhamento de alguém devidamente credenciado para o efeito que depressa arruinaria a situação. Todas as hierarquias em negação deveriam ser confrontadas com a sua discricionariedade de cócoras. Na cama entrariam num outro sono por tempo indefinido. A polícia deveria proceder a detenções de cócoras. Na cama talvez não fosse possível, algo que a facção menos favorecida da Ler talvez pretendesse, mas que nos lançaria no caos. Se os conselhos de administração dos bancos ora falidos tivessem reunido de cócoras, talvez os seus clientes não estivessem agora de cama. Se Comte tivesse escrito de cócoras, nada disto teria acontecido e poderíamos passar mais tempo na cama. E, mais importante que tudo, se não se tivesse inventado a sanita e a mesa de partos, talvez o mundo fosse hoje um sítio melhor ou, pelo menos, mais breve e repousado.

2010.01.20