Arquivos de 2010/02

A praia do Areão, sita no concelho de Vagos, mais concretamente na restinga sul da impropriamente chamada «ria» de Aveiro, escassos quilómetros a norte da Praia de Mira e a menos ainda para sul da Vagueira, foi, até há pouco, uma praia quase selvagem, com não mais que uns resquícios das artes tradicionais da pesca, uns passadiços de madeira parcialmente engolidos pelo majestoso cordão dunar, e o seu característico esporão curvo. Antes da época balnear de 2009, a autarquia local optou por transformar oficialmente aquele pedaço de areal numa praia, dotando-o de acessos modernos e adequados a todos e todas, bem como de vários apoios de praia compostos por bar e vaso sanitário. A intervenção teve o efeito esperado e, embora não disponha de números, posso afirmar que o público daquele espaço aumentou enormemente.
Existem agora duas zonas que se distinguem pelo tipo de frequência. A área a norte do esporão, vigiada, onde se concentra a maior parte dos frequentadores da praia, e a área a sul do mesmo, onde se espalham os nudistas, as pessoas mais avessas a multidões e, devido ao abrigo que o esporão proporciona face à direcção dominante da ondulação, os banhistas propriamente ditos. Existe, pois, uma descoincidência entre a parte da praia mais utilizável enquanto praia, no sentido ordinário que lhe é dado pelo vulgo, e a parte a que as entidades competentes atribuíram essas funções. Este facto dever-se-á a razões históricas de utilização do areal, de distância, simetria e localização dos acessos supra, ou de ausência de um planeamento integrado da intervenção destinada a civilizar o local.
No Verão do ano passado, precisamente aquele em que a praia passou (ou voltou) a sê-lo para todos os efeitos, um dia houve em que, pelo fim de uma manhã incompreensível e demasiado fria para a prática de actividades balneares, nela ocupei um espaço na área a sul do esporão, até àquele momento apenas ocupada por algumas famílias esparsamente distribuídas e ocasionalmente cruzada por praticantes de corrida ou caminhada. Pouco depois de me estabelecer no local, e após verificar que a temperatura da água do mar a não qualificava para a utilização que pretendia dar-lhe, dois seres humanos do sexo masculino, ambos na casa dos trinta anos, ambos de estatura mediana, um careca e em forma, o outro de farta cabeleira e ligeiramente obeso, instalaram-se nas imediações de mim e das famílias avessas à confusão. Dispuseram os seus objectos, despiram-se integralmente, experimentaram a água gelada e, regressados à toalha, efectuaram uma breve, morna e, tanto quanto pude avaliar à distância, desapaixonada canzana perante os olhares de não mais que três ou quatro pessoas, eu incluído. De seguida, e uma vez que os seus vários objectivos estavam alcançados, vestiram-se e abandonaram prontamente a praia.
Horas mais tarde, quando contei o sucedido a amigos e conhecidos, acrescentei ao módico entretenimento que a situação me havia proporcionado uma certa consternação, por considerar aquela prática desadequada a um local público povoado por crianças. Um dos circunstantes a quem relatei os factos daquela manhã perguntou-me então se eu teria a mesma opinião caso o acto tivesse sido praticado por um casal heterossexual. Calmamente, expliquei-lhe como me repugna o acto sexual não procriativo — e mesmo este, para o qual já existem alternativas viáveis — entre um homem e uma mulher, contra o qual não me insurjo com ruído apenas por respeito para com as minorias, e como considerei a insinuação contida na questão que acabara de me colocar por demais ofensiva, razão pela qual não mais lhe dirigiria a palavra. Não tive oportunidade de regressar àquela praia, mas quando o fizer, terei o cuidado de transportar comigo a minha máquina fotográfica digital compacta, com zoom óptico de 10x e estabilizador mecânico de imagem.
A questão que se coloca a quem não quer lá o actual ocupante da Presidência da República, mas também está e quer permanecer fora das lógicas frentistas, para as quais os candidatos são apenas instrumentos na construção de uma nova espécie de velho chavão derrotado à partida, é: até onde se deve ir na tentativa de impedir Cavaco Silva de ser reeleito?
Do pré-candidato de que poucos gostam, mas que muitos estão dispostos a apoiar pela sua capacidade para unir a esquerda — algo que, como é notório, faz imensa falta — sabemos pouco e, simultaneamente, demais. Sabemos que teve um passado honorável de luta contra a ditadura e personifica, pelo menos para uma geração, uma certa estética do homem (e não se trata de masculino generalizante) de letras engagé a quem nada nem ninguém prende a justa e tonitruante palavra. Eu é mais salgados, mas, quanto a isso, nada a obstar. Também sabemos que passou cerca de trinta anos com o lugar cativo na Assembleia da República sem se distinguir por nada de especial, a não ser pela forma despudorada como se assumiu credor das conquistas de Abril, especialmente nas ocasiões em que algum atrevido sem passado teve a ousadia de lhe dirigir uma crítica pelo que quer que fosse.
Há quatro anos tudo mudou e nada mudou. Alegre pretendeu ser candidato pelo PS, o PS não o quis como candidato e Alegre tornou-se candidato à margem das lógicas partidárias. É sempre bom ver as pessoas exercerem os seus direitos, mesmo que por motivos pouco conseguidos. Vê-las tentarem camuflar esses motivos com a defesa da cidadania já não é tão bom, mas já se viu pior. E então passámos a ter um candidato pela cidadania que nunca disse nada acerca da cidadania. O tema esgotou-se, na sua própria boca, no voto na sua própria pessoa. Cidadania era votar Alegre, que era candidato à margem dos partidos porque os partidos não o quiseram. Parece pouco? Pois parece. Mas foi o que houve.
Na «posse» de um milhão de votos, que passou a brandir como até então brandia o passado antifascista, Alegre dedicou-se não ao aprofundamento da tal cidadania que nunca esclareceu, mas ao aprofundamento das relações com os partidos que o poderiam levar ao cargo. À margem da tal cidadania, depreende-se, que há-de ter expirado por falta de densidade conceptual. Há que fazer a devida vénia ao senhor: geriu tudo bem, desde a maneira como desocupou elegantemente o lugar quase vitalício na Assembleia da República até à forma como entalou três partidos ao canto. Sim, porque até o PCP, mesmo que ceda mais uma vez à tentação de nomear um funcionário para a tarefa do costume, não terá outra opção senão a de o desligar da corrente a tempo e horas. E o PS, perante o tal milhão de votos que o seu militante Alegre tem na algibeira, misturados com os trocos, não poderá fazer muito mais que bocejar enquanto algumas das suas capelas apoiam Fernando Nobre. De ideias é que não há notícia. É outra atitude, é outra contundência, é uma dimensão cultural a que o actual Presidente não pode sequer almejar. Mas é também um imenso vazio, apenas mal disfarçado por uma linda voz, uma caçadeira para os intervalos de marialvismo e uma estátua no Parque Manuel Braga, em Coimbra, a meio caminho entre Antero e a paragem do 7.
E portanto, a união das esquerdas, dos pichadores de paredes da Ruptura e dos estalinistas deixados para trás aos rapazes empreendedores do PS, passa pelo tradicionalismo, homofobiazinha light incluída (embora depois emendada), por um amor poético à Pátria e por um passado ainda respeitável, apesar de usado à exaustão e a despropósito. Parece pouco, mas é o que há. Já nem sequer se trata do caso do adágio — antes o mau conhecido que o mal conhecido —, porque, aqui, são ambos sobejamente conhecidos e sobejamente insuficientes. Mas que seja. Cada qual se une em torno do que quer e considera ser verdadeiramente importante para o país ou, quiçá, para a Humanidade. Eu, que estou demasiado cansado para ser de esquerda, quanto mais de várias esquerdas, e que sempre olhei de soslaio as uniões de conveniência, retiro a resposta à minha questão de partida da matéria, ou da falta dela: não me basta diferente, quero melhor.
Ter um melhor entre os bons torna evidente a qualidade do primeiro. Ter um melhor entre os maus torna escandalosa a inferioridade dos segundos. No primeiro caso, a vida faz-se difícil para o escolhido, mas é, ou pode vir a ser, uma vida frutuosa para quem o escolheu. No segundo caso, a vida faz-se um calvário para quem tem de escolher. E os calvários são sempre vãos para quem os sobe, mas regra geral proveitosos para o escolhido, que fica no sopé à espera que o carreguem até ao topo, cantando a dor que lhe dedicam.
Porque ser poeta nem sempre é ser mais alto, muito menos ser maior do que os homens. Não quando beija como quem morde para saciar a fome de passado. Ou quando abandona quem lhe não dá ou quando usa o grito para se cegar ao mundo que o não quer. Ser poeta pode ser apenas ser mais só, ser o mais orgulhoso dos homens. Pode ser erigir um santuário onde a memória se aninhe, ao abrigo da miséria, entrelaçada na forma de que se fez parasita.
Não, ser poeta nem sempre é amar-te assim, perdida ou achada ou sofregamente. Por vezes, ser poeta é já não amar ou nunca ter amado, a não ser desgraçadamente, mas ainda assim dizê-lo murmurante ou tonítruo a toda gente, como se continuasse a fazê-lo. Ser dentista não é necessariamente ser mais baixo, muito menos ser menor do que os homens. Etc.
Se ao menos não estivesse tanta humidade. Se ao menos houvesse paz & concórdia em Marte. Se ao menos o computador tivesse mais memória. Se ao menos eu tivesse menos memória. Se ao menos eles se calassem. Se ao menos saíssem de cima. Se ao menos o livro tivesse sido revisto em condições. Se ao menos a cena gay não fosse tão enjoativa. Se ao menos conseguisse acreditar em alguma coisa. Se ao menos o euro desvalorizasse um bocadinho. Se ao menos a libra desvalorizasse ainda mais. Se ao menos não houvesse uma infiltração na casa-de-banho. Se ao menos parassem de buzinar. Se ao menos me raptassem de uma vez por todas. Se ao menos se decidissem. Se ao menos deixassem aquilo arrumado. Se ao menos a cena hetero não fosse tão anal. Se ao menos as batatas soubessem a alguma coisa. Se ao menos a gasolina não estivesse tão cara. Se ao menos tivesses o VMS activado. Se ao menos as pessoas tivessem mais cuidado com o lixo. Se ao menos tivéssemos autoestrada para lá. Se ao menos as nódoas saíssem com facilidade. Se ao menos pudesse ficar por aqui. Se ao menos cheirasse menos a esturro. Se ao menos valesse a pena. Se ao menos nem o triste nem o alegre, talvez o ano do tigre fosse a forma de tornar o do coelho melhorzinho que o do boi.

Isto explica-se de forma muito simples. Eu não sei, porque não estava lá, mas não me custa nada imaginar a orgia de referências que, após uma directa, conduziu à opção pelo xisto. Afinal, já cá ando há uns tempos e tenho a pretensão de compreender um pouco dos mecanismos de valorização profssional de quem se encontra rachado ao meio pela divisão dos saberes. A modernidade, independentemente do ordinal, adjectivo ou prefixo de que a façam acompanhar-se, não é menos fodida do que o que a precedeu e as gentes, para lá dos eufemismos, hipérboles ou metáforas por que as substituam, continuam a ter de se virar para algum lado. O percurso dramático do Mondego pelo vale encaixado, a barca e as gentes serranas, a herança dos afluentes que cedem lugar à artificialidade, a desarrumação orográfica e cromática da Alta. Ver tudo isto condensado numa rocha metamórfica, angulosa e rude, que enfatiza a natureza dual da região — rural/urbano, montanha/planície, modernidade/tradição, litoral/interior, doutores/labregos — e que, para mais, serve como elemento decorativo que se integra na geometria do parque, ao mesmo tempo que lhe corta a frieza ainda pouco arborizada com um toque de rusticidade, é o sonho de qualquer arquitecto que se preze. Eu, se o fosse, teria tido um momento de intensa excitação ao chegar àquela escolha de materiais. Nem sei se o meu coração teria aguentado.
Para quem não é artista, mas apenas mero biciclante que se preze, o que não aguenta é a coluna vertebral, caso as vénias e os salamaleques ainda a não tenham obliterado. Estamos a falar de uma ciclovia com o piso em placas de xisto alinhadas verticalmente. Intensa excitação não é, de todo, o que se sente quando há que — há que! — percorrer aquele chão de lâminas rombas inserido no «percurso ciclopedonal». O que se sente são dores várias, todas elas intensas, todas elas a desembocar na carteira dos contribuintes, nos cofres do Estado e na minha alma, que sofre com os desmandos de quem com esta arrogância se apoderou do espaço até há pouco entregue ao vazio do povo. Como disse, isto explica-se de forma muito simples: formação ao longo da vida em ciclismo lúdico, para que aos impostores não fosse possível o esquecimento de como funciona e para que serve aquela estranha geringonça de duas rodas, seria o suficiente. Se essa formação incluísse uma boa dose do seu próprio veneno, sob a forma de aulas práticas, isso seria o ideal. Declaro-me desde já disponível para o papel do justo algoz.
Encontrámo-nos no Congresso Internacional de Gestores de RH «XIX Festa do Fluxograma de Alpiarça», este ano no dancing Dona Xepa, devido a obras na Casa da Cultura. Já não nos víamos há uma multidão de anos, talvez desde a faculdade. Na verdade não sei ao certo desde quando porque nunca me preocupei com o objecto da demora. Está, como seria previsível, um leitãozinho gordo e estúpido, embora capaz de suster por tempo que baste interacções ocasionais e vagas com seres humanos. Decidiu entrar a matar, perguntando-me pela mulher e pelas miúdas. Resisti à tentação de lhe responder utilizando a palavra «escolvilhão» através de não lhe responder de todo e partir directamente para a minha própria questão de partida. Se ele continuava casado com aquela cabra, só tendão e estúpida, frígida. Ele borrifou-se para as minhas indagações e deu o passo seguinte: o sempre terrível «e onde é que estás a viver?». É uma jogada arriscada, que eu preferi ignorar avançando com a minha nova proposta: o demolidor «e tu, onde estás a trabalhar?». A partir de certa idade, não há desculpa para não se saber que, quando usa uma destas cartas, uma pessoa está-se a pôr a jeito para que o adversário lance mão da outra. Mas a expressão facial dele acusou o toque. Houve uma hesitação, a que se seguiu um vaguear dos olhos por alguém imaginário que pudesse passar atrás de mim, terminada pela observação de que tinha «falado» com uma putativa colega nossa sem cara a que eu possa juntar o nome. Uma atrasada qualquer que está agora à frente do gabinete de não sei quê da não sei quantos em não sei onde. Uma clara rendição, portanto. Sempre foi um fraco, pusilânime, daqueles que noutros contextos teriam sido grandes e depois fuzilados ou, o que vai mais de acordo com a teoria, só fuzilados. Magnânime, concedi-lhe a paz devida a quem tão bem conseguiu dispersar a exuberância da dor e perguntei-lhe pelo carro. Apaziguado, mas sem disfarçar que se iria ficar pelos serviços mínimos, pretendeu informações pouco detalhadas acerca do meu terminal. Antes que se nos acabassem os argumentos, assumi as funções de macho alfa, encerrei a sessão, despedi-me até um dia destes e cada um foi à sua vida. A dele o vazio; a minha, o cheio.

Já viste como as ruas da cidade estão vazias, que é como estão sempre que precisamos delas cheias? Por isso fiquei em casa, a quebrar nozes. A semelhança que as metades de miolo de noz partilham com pequenos e ressequidos cérebros humanos agrada-me. Estremeço ao partir as nozes como se estivesse a estalar craniozinhos que esperam na taça, à minha mão de semear, a hora do seu fim enquanto protectores do sagrado. Surpreende-me que os padres ainda não tenham proibido as nozes. Procurei na web e verifiquei que várias pessoas antes de mim repararam na semelhança entre os miolos de noz e os miolos humanos, mas não encontrei nenhum interdito emitido pelas autoridades eclesiásticas. Devem andar distraídas a tentar introduzir na lei fundamental a proibição dos bifinhos com champignons durante a quaresma. São sempre a mesma coisa. É uma vida sem supresas, esta, em que já nem com os inimigos se pode contar.
Passei a tarde toda nisto. Depois comi as nozes todas, que eram para as visitas que nunca chegaram, provavelmente porque não cheguei a convidá-las. A mania que as pessoas têm de não aparecer quando não são convidadas. Nem quero imaginar as calorias que aquilo tinha. Sabes como a minha oralidade se manifesta quando sou assaltada pelas saudades do meu bebé. Aflige-me não saber do meu bebé há tanto tempo. Parecendo que não, vinte anos passam num instante. Não está na cidade, isso é seguro, senão as ruas estariam repletas de gente babada. O meu bebé sempre atraiu multidões. Toda a gente gosta muito do meu bebé. Aliás, é esse o problema. Seria tão mais fácil se eu fosse a única à face deste planeta condenado disposta a protegê-lo de um mundo que o repelisse. Eu sabia que colocar a felicidade do meu bebé acima da permanência do meu bebé não me iria ser fácil, mas nunca pensei que acabasse a ter de me contentar com cerebrozinhos vegetais. É que mal acabo de os comer e volta-me tudo à ideia, como se tivesse sido ontem, e preciso de comer mais. Preocupo-me com o que será dele no novo mundo eléctrico, caso este venha a ser tal e qual o de agora só que com o lítio mais caro. Será que está bem, será que tem quem cuide dele, quem lhe dê a papa? Espero que não, pois aí é que nunca mais lhe ponho a vista em cima.
Desculpa lá o desabafo, mas as ruas estão vazias por ser o dia de um senhor, da estabilização por via institucional da folie à deux e dessas coisas todas cujos vultos se me foram com a ida do meu bebé. Se souberes alguma coisa dele, avisa-me. Se o vires, apanha-o e traz-mo, que qualquer dia não caibo nas calças.


