Ter um melhor entre os bons torna evidente a qualidade do primeiro. Ter um melhor entre os maus torna escandalosa a inferioridade dos segundos. No primeiro caso, a vida faz-se difícil para o escolhido, mas é, ou pode vir a ser, uma vida frutuosa para quem o escolheu. No segundo caso, a vida faz-se um calvário para quem tem de escolher. E os calvários são sempre vãos para quem os sobe, mas regra geral proveitosos para o escolhido, que fica no sopé à espera que o carreguem até ao topo, cantando a dor que lhe dedicam.

Porque ser poeta nem sempre é ser mais alto, muito menos ser maior do que os homens. Não quando beija como quem morde para saciar a fome de passado. Ou quando abandona quem lhe não dá ou quando usa o grito para se cegar ao mundo que o não quer. Ser poeta pode ser apenas ser mais só, ser o mais orgulhoso dos homens. Pode ser erigir um santuário onde a memória se aninhe, ao abrigo da miséria, entrelaçada na forma de que se fez parasita.

Não, ser poeta nem sempre é amar-te assim, perdida ou achada ou sofregamente. Por vezes, ser poeta é já não amar ou nunca ter amado, a não ser desgraçadamente, mas ainda assim dizê-lo murmurante ou tonítruo a toda gente, como se continuasse a fazê-lo. Ser dentista não é necessariamente ser mais baixo, muito menos ser menor do que os homens. Etc.

2010.02.17