A questão que se coloca a quem não quer lá o actual ocupante da Presidência da República, mas também está e quer permanecer fora das lógicas frentistas, para as quais os candidatos são apenas instrumentos na construção de uma nova espécie de velho chavão derrotado à partida, é: até onde se deve ir na tentativa de impedir Cavaco Silva de ser reeleito?
Do pré-candidato de que poucos gostam, mas que muitos estão dispostos a apoiar pela sua capacidade para unir a esquerda — algo que, como é notório, faz imensa falta — sabemos pouco e, simultaneamente, demais. Sabemos que teve um passado honorável de luta contra a ditadura e personifica, pelo menos para uma geração, uma certa estética do homem (e não se trata de masculino generalizante) de letras engagé a quem nada nem ninguém prende a justa e tonitruante palavra. Eu é mais salgados, mas, quanto a isso, nada a obstar. Também sabemos que passou cerca de trinta anos com o lugar cativo na Assembleia da República sem se distinguir por nada de especial, a não ser pela forma despudorada como se assumiu credor das conquistas de Abril, especialmente nas ocasiões em que algum atrevido sem passado teve a ousadia de lhe dirigir uma crítica pelo que quer que fosse.
Há quatro anos tudo mudou e nada mudou. Alegre pretendeu ser candidato pelo PS, o PS não o quis como candidato e Alegre tornou-se candidato à margem das lógicas partidárias. É sempre bom ver as pessoas exercerem os seus direitos, mesmo que por motivos pouco conseguidos. Vê-las tentarem camuflar esses motivos com a defesa da cidadania já não é tão bom, mas já se viu pior. E então passámos a ter um candidato pela cidadania que nunca disse nada acerca da cidadania. O tema esgotou-se, na sua própria boca, no voto na sua própria pessoa. Cidadania era votar Alegre, que era candidato à margem dos partidos porque os partidos não o quiseram. Parece pouco? Pois parece. Mas foi o que houve.
Na «posse» de um milhão de votos, que passou a brandir como até então brandia o passado antifascista, Alegre dedicou-se não ao aprofundamento da tal cidadania que nunca esclareceu, mas ao aprofundamento das relações com os partidos que o poderiam levar ao cargo. À margem da tal cidadania, depreende-se, que há-de ter expirado por falta de densidade conceptual. Há que fazer a devida vénia ao senhor: geriu tudo bem, desde a maneira como desocupou elegantemente o lugar quase vitalício na Assembleia da República até à forma como entalou três partidos ao canto. Sim, porque até o PCP, mesmo que ceda mais uma vez à tentação de nomear um funcionário para a tarefa do costume, não terá outra opção senão a de o desligar da corrente a tempo e horas. E o PS, perante o tal milhão de votos que o seu militante Alegre tem na algibeira, misturados com os trocos, não poderá fazer muito mais que bocejar enquanto algumas das suas capelas apoiam Fernando Nobre. De ideias é que não há notícia. É outra atitude, é outra contundência, é uma dimensão cultural a que o actual Presidente não pode sequer almejar. Mas é também um imenso vazio, apenas mal disfarçado por uma linda voz, uma caçadeira para os intervalos de marialvismo e uma estátua no Parque Manuel Braga, em Coimbra, a meio caminho entre Antero e a paragem do 7.
E portanto, a união das esquerdas, dos pichadores de paredes da Ruptura e dos estalinistas deixados para trás aos rapazes empreendedores do PS, passa pelo tradicionalismo, homofobiazinha light incluída (embora depois emendada), por um amor poético à Pátria e por um passado ainda respeitável, apesar de usado à exaustão e a despropósito. Parece pouco, mas é o que há. Já nem sequer se trata do caso do adágio — antes o mau conhecido que o mal conhecido —, porque, aqui, são ambos sobejamente conhecidos e sobejamente insuficientes. Mas que seja. Cada qual se une em torno do que quer e considera ser verdadeiramente importante para o país ou, quiçá, para a Humanidade. Eu, que estou demasiado cansado para ser de esquerda, quanto mais de várias esquerdas, e que sempre olhei de soslaio as uniões de conveniência, retiro a resposta à minha questão de partida da matéria, ou da falta dela: não me basta diferente, quero melhor.


