A praia do Areão, sita no concelho de Vagos, mais concretamente na restinga sul da impropriamente chamada «ria» de Aveiro, escassos quilómetros a norte da Praia de Mira e a menos ainda para sul da Vagueira, foi, até há pouco, uma praia quase selvagem, com não mais que uns resquícios das artes tradicionais da pesca, uns passadiços de madeira parcialmente engolidos pelo majestoso cordão dunar, e o seu característico esporão curvo. Antes da época balnear de 2009, a autarquia local optou por transformar oficialmente aquele pedaço de areal numa praia, dotando-o de acessos modernos e adequados a todos e todas, bem como de vários apoios de praia compostos por bar e vaso sanitário. A intervenção teve o efeito esperado e, embora não disponha de números, posso afirmar que o público daquele espaço aumentou enormemente.
Existem agora duas zonas que se distinguem pelo tipo de frequência. A área a norte do esporão, vigiada, onde se concentra a maior parte dos frequentadores da praia, e a área a sul do mesmo, onde se espalham os nudistas, as pessoas mais avessas a multidões e, devido ao abrigo que o esporão proporciona face à direcção dominante da ondulação, os banhistas propriamente ditos. Existe, pois, uma descoincidência entre a parte da praia mais utilizável enquanto praia, no sentido ordinário que lhe é dado pelo vulgo, e a parte a que as entidades competentes atribuíram essas funções. Este facto dever-se-á a razões históricas de utilização do areal, de distância, simetria e localização dos acessos supra, ou de ausência de um planeamento integrado da intervenção destinada a civilizar o local.
No Verão do ano passado, precisamente aquele em que a praia passou (ou voltou) a sê-lo para todos os efeitos, um dia houve em que, pelo fim de uma manhã incompreensível e demasiado fria para a prática de actividades balneares, nela ocupei um espaço na área a sul do esporão, até àquele momento apenas ocupada por algumas famílias esparsamente distribuídas e ocasionalmente cruzada por praticantes de corrida ou caminhada. Pouco depois de me estabelecer no local, e após verificar que a temperatura da água do mar a não qualificava para a utilização que pretendia dar-lhe, dois seres humanos do sexo masculino, ambos na casa dos trinta anos, ambos de estatura mediana, um careca e em forma, o outro de farta cabeleira e ligeiramente obeso, instalaram-se nas imediações de mim e das famílias avessas à confusão. Dispuseram os seus objectos, despiram-se integralmente, experimentaram a água gelada e, regressados à toalha, efectuaram uma breve, morna e, tanto quanto pude avaliar à distância, desapaixonada canzana perante os olhares de não mais que três ou quatro pessoas, eu incluído. De seguida, e uma vez que os seus vários objectivos estavam alcançados, vestiram-se e abandonaram prontamente a praia.
Horas mais tarde, quando contei o sucedido a amigos e conhecidos, acrescentei ao módico entretenimento que a situação me havia proporcionado uma certa consternação, por considerar aquela prática desadequada a um local público povoado por crianças. Um dos circunstantes a quem relatei os factos daquela manhã perguntou-me então se eu teria a mesma opinião caso o acto tivesse sido praticado por um casal heterossexual. Calmamente, expliquei-lhe como me repugna o acto sexual não procriativo — e mesmo este, para o qual já existem alternativas viáveis — entre um homem e uma mulher, contra o qual não me insurjo com ruído apenas por respeito para com as minorias, e como considerei a insinuação contida na questão que acabara de me colocar por demais ofensiva, razão pela qual não mais lhe dirigiria a palavra. Não tive oportunidade de regressar àquela praia, mas quando o fizer, terei o cuidado de transportar comigo a minha máquina fotográfica digital compacta, com zoom óptico de 10x e estabilizador mecânico de imagem.


