Arquivos de 2010/03

Coleccionadores há muitos. Há os coleccionadores verdadeiros, motivados pelo gosto de recuperar do tempo, de forma sistemática, algumas das suas partes seleccionadas; e há os que adoptam a denominação por nela conseguirem ocultar o apego à tralha que lhes serve de porto de abrigo para uma sorte de irresoluções. Da mesma forma, o que não falta são liberais que, ao arrepio da história, da etimologia e de um pouco de esforço reflexivo, pretendem dar um corpo ideológico, na forma de um adjectivo simpático, àquilo que de outra forma seria ostentado como insuportável avareza. Idem aspas para os marxistas cujo motor se encontra na inveja, uma afirmação anedótica do reviralho que, no entanto, encontra no quotidiano quem, para desgosto dos puros, a devolva à luz da seriedade. O mesmo vale para os swingers: também os há na forma de quem não vê a sexualidade e as relações amorosas como duas realidades indissociáveis; e na forma de quem precisa de um paliativo para o casamento falhado que, por alguma razão, não deve ser descontinuado nem assumidamente traído. E haverá quem tenha fé e queira viver para ela, suponho, há gente para tudo. Mas quando a essa opção profissional estão adjuntas cama, roupa lavada e justificação para a inconformidade com o mainstream sexual — deves sentir desejo e deves senti-lo por adultos do outro sexo —, não se percebe muito bem do que é que estavam à espera. Não é de agora que os grandes planos e os altos desígnios se alimentam de sentimentos pequenos e necessidades especiais. A menos que todo este escândalo e o fingimento de incredulidade sejam apenas as manifestações de um outro desejo antigo, que finalmente se vê livre de constrangimentos: o de passar os dias a falar do sexo dos anjos.

2010.03.29

Afastei-me e pedi desculpa com o sorriso mais amigável que consegui engendrar. Não digo que foi um sorriso sincero. Custou-me, saiu-me das tripas, mas foi um sorriso com boa aparência, ajudado pela minha dentição perfeita. Nada de café ou tabaco, uma fortuna na Corporação Dermoestética. Ele apoderou-se da beringela, primeiro com um movimento brusco, depois mais conciliador. Apesar da altivez, não tinha ar de quem se envolve em discussões na secção de frescos. O tom preclaro da fala, mesmo quando irada, a moda e o porte indiciavam outro tipo de atitude. Talvez não fosse sequer soberba, mas só um dia mal corrido, a acumulação de problemas familiares e profissionais ou uma pequena perturbação mental por lenificar. Para mais, aquela não era a última beringela, embora fosse, de todas as disponíveis, a mais formosa.

A minha bonomia desarmou-o ao ponto do embaraço, de fazer um movimento hesitante em que diminuiu brevemente o ângulo a que o pescoço estava do ombro esquerdo, como que a retractar-se da sua primeira e desnecessária agressividade, enquanto recolhia o vegetal no seu cesto de compras. Julgo que chegou a considerar a possibilidade de mo oferecer, mas o transtorno em que a vergonha o lançou tê-lo-á impedido de agir em qualquer sentido. E a dificuldade que demonstrou em olhar-me nos olhos sorridentes e pacíficos durante aqueles segundos de impasse permitiu-me, então, acertar-lhe a cabeçada no septo nasal com uma precisão que me teria sido impossível caso tivesse optado de início pela via da truculência. Aprende-se muito com o Maharaji.

2010.03.26

Conseguir esquecer o que se não sabe quando nasce o querer de dar um passo em frente na direcção do Bem é admirável. Tivéssemos sempre o andar cercado pelas certezas e viveríamos ainda num mundo esquálido, incivil, austero e sem promotores de grão-de-bico enlatado nos corredores dos supermercados. Olhar os utensílios com o corpo tenso, como milhares de artifices tantas vezes por esse mundo na frieza das madrugadas e avançar sem medo do escárnio, na esperança de tocar os corações inertes de quem lá fora reproduz mecanicamente as solidariedades que lhe calharam em sorte: é assim que se faz a mudança. Ou fará um dia, porque até hoje ainda pouco se viu para além dos promotores, dos supermercados, do grão-de-bico pré-cozido, dos salamaleques e de umas superfícies polidas. Para além dos adornos, pois. Até que chegue o dia em que a coragem solitária dos ignorantes voluntariosos faça vingar a pureza dos princípios ocos de terra e alheios às contingências da matéria, à mulher de César continuará a bastar que pareça séria, convindo-lhe até não o ser. E quantos milénios mais poderemos nós desperdiçar, sabendo, porque não nos deixam ignorá-las, das criancinhas indefesas à espera do nosso pulso?

Conseguir esquecer o que há muito se sabe quando nasce a vontade de dar um passo em frente na direcção do que quer que seja, o Bem incluído, é execrável e não há criancnhas que o justifiquem, por mais que as costumem ter como certas para essa função.

2010.03.24

Já passaram mais de Y anos. Já é possível aproveitar isso, apropriar isso, usurpar isso, transformar isso — transformar-se nisso. Y anos depois, os vermes prosseguem o seu labor pelo bem da terra e uma nova meia-vida começa a nascer a partir do falecimento, literal e figurado (a diferença nem sempre é óbvia), do autor. Ainda não se sabe se será meio árvore, meio fungo, meio animal, meio mono ou meio fluido. Sabe-se que acorda todas as manhãs com a boca meio cheia de coisas para dizer, coisas que vai libertando pelo dia dentro de acordo com pontos predefinidos numa agenda que lhe foi imposta. Já foi informada pela hierarquia de que está ser meio inconveniente, facto irrelevante para quem meio morre todas as noites a pensar que amanhã, lá mais para o almoço, será um novo meio-dia. Tudo o que sou devo-to, tudo o que sei devo-to, meio balbucia antes de adormecer abraçada às meias. Ainda tenho na língua o teu sabor analéptico e mais adstringente que a média, meio sonha. Uma boa leitora, mesmo que apenas pela metade, tem de ser ao menos meio masoquista, até porque para as outras já há quem escreva. É a meia homenagem, meio impossível, que pode dedicar-lhe: ser leitora, mesmo que pela metade, traz limitações que a posteridade torna demasiado incontornáveis.

2010.03.23

2010.03.21

A nossa feira medieval é adaptável a arruamentos estreitos, escadarias urbanas, descampados, pracetas em betão, com ou sem repuxos, ou a qualquer outro tipo de espaço que ainda possa ser aproveitado. Fornecemos os figurantes, os músicos, toda a decoração necessária à criação de um ambiente realista, bem como a venda de produtos tradicionais e refrigerantes de baixas calorias. Permitimos a integração, em espaços destinados ao efeito, de especificidades locais (chouriças da região vendidas por labregos locais devidamente caracterizados, por exemplo.). A identidade do seu buraco rurbano, a dinamização do turismo na sua freguesia descapitalizada, a promoção dos produtos regionais da sua NUTSIII, etc.

Dispomos dos melhores autos-de-fé do mercado, com efígies realistas de indivíduos de ambos os sexos representativos de várias culturas, credos, etnias, raças e ocupações — mouros, ciganada, bruxas, ucranianos, monhés, putas, paneleiros, ministros, judeus, fufas e pretinhos sortidos. Os nossos autos-de-fé são o espectáculo ideal para dar vida e aquecimento a festejos de Inverno ao ar livre em espaços amplos no centro das localidades que os tiverem (espaços amplos e/ou centro). Parque infantil com vigilantes (com vista para o espectáculo), vinho tinto regional e rulote de farturas e churros incluídos.

A partir deste ano temos o prazer de oferecer o pacote especial para escolas básicas e secundárias «Queima de Livros de Miguel Sousa Tavares» em várias modalidades adequadas ao orçamento de cada estabelecimento de ensino: livros originais, resmas de fotocópias, a obra completa ou apenas os artigos de opinião. O nosso processo de queima, com querosene e lança-chamas, obteve o certificado ISO 9001 e conta sempre com a presença de um elemento dos bombeiros e/ou da protecção civil. Para espaços interiores com ventilação insuficiente, como pavilhões polivalentes e gimnodesportivos, oferecemos a opção de destruição, com instrumentos tradicionais (malho, maça), de computadores portáteis, discos externos e memórias flash («pen drives») com a obra do autor em diversos formatos (.pdf, .doc, .sxw, .rtf). Vasto leque de opções de financiamento.

2010.03.17

Viajar pode ser um refrigério para a exigência quotidiana de cumprir as expectativas dos outros, mas é um teste à capacidade de lidar com a falta de competência dos outros para corresponder às nossas expectativas, dizia o meu avô, que nunca viajava. Uma infância lixada, uma pancada mal recebida na cabeça, uma queda mal dada na consciência de que não será na cama que se vai arrumar a vida ou de que não serão as mãos da literatura a levar-lhe o féretro para o panteão: a sujeição a demasiadas contrariedades e a privação sistemática do acesso à consumação do desejo podem deixar uma pessoa avariada. Não se deve confiar nas pessoas avariadas e, entre estas, as que têm medo de viajar, continuava. Isto é mais certo ainda para as pessoas que recusam este seu medo, que só vão arrastadas e por entre gemidos, justificando a sua pulsão para permanência com contrariedades incontroláveis que lhes caem no caminho, contrariedades semelhantes às que lhes vieram ter ao berço, impedindo-as de se deslocar. O violentado será violento e jamais perdoará ao pacífico a sua liberdade de o não ser.

Mas ele, o meu avô avariado, não encontrava nada de mal nele próprio. Não bebia por causa do fígado, não se opiava por causa da companhia e não ia todos os anos a Badajoz com a minha avó, que se ficava presa a ele, incapaz de o empurrar, porque a ideia de caramelos o deixava prostrado. Ele queria, e todos os anos planeava no ar a sua ida, mas a vida é uma rameira e depois morremos todos. Quis a doença de história incógnita, e não o medo, que se tivesse ficado por ali, sem exercitar o deslumbramento com os feitos ou o nojo com o feitio dos indígenas de lá, mas sem queixumes. Compensava a imobilidade recebendo muito bem em sua casa, com chouriço, broa de milho e regularidade estudada, exigindo em troca que lhe ajeitassem o dreno quando se ria demais e que fizessem o favor de se tornar invisíveis quando tinha as tosses lhe que subiam do cóccix até à alma. Já conheci o meu avô velho, calado e acompanhado de uma avó demasiado silente para que lhe pudesse extrair um passado que justificasse, num sentido ou noutro, os seus caprichos — para saber se ele tinha razão ou se tudo aquilo era apenas pavor de não conseguir evitar as elegias da volta.

2010.03.14

2010.03.11

É fácil tipificar as pessoas pela percepção que têm da existência de momentos para falar e momentos para calar. Há pessoas que têm esta percepção e agem de acordo com ela. Há pessoas que tem esta percepção e não agem de acordo com ela — porque não conseguem segurar as palavras dentro da boca ou porque são malcriadas e não o querem fazer. Há pessoas que não têm esta percepção. Esta tipologia, ferida por todos os males das tipologias, não está associada ao sexo, à idade, ao nível de escolaridade, à classe social delas ou dos seus pais, à condição perante o trabalho, à situação na profissão, à área de residência, à tipologia da habitação, às características do núcleo familiar, a nenhuma combinação das anteriores. A estatística não deixa margem para dúvidas.

Não nos é possível concluir que as pessoas que não têm a percepção de que existem momentos para falar e momentos para calar já nascem assim e nada há a fazer, mas isso é um pormenor, pois há consenso quanto há imutabilidade da condição a partir da idade adulta — precisamente quando ela deixa de ser um feitio para passar à condição de problema. A pessoa que fala, fala, fala e diz muito, conta, opina, profere, afirma, se exprime, enfim, discursa numa torrente constante e mais ou menos ordenada acerca de tudo e de todos, vai ser sempre assim. Vai sempre verbalizar cada gesto que o actor faz no palco, a previsão do desfecho de cada cena no cinema, a acusação a cada outro que não está a cumprir as suas obrigações identitárias, cada momento de revolta contra as manifestações de degradação dos valores fundamentais sobre os quais se baseia o bem-estar e a paz social.

Tornaram-se ou deixaram-nas tornar-se drogadas nas palavras, uma dependência para a qual ainda não se investe na busca de tratamentos eficazes, um luxo para o qual o ocidente, ou quem o substituir, talvez desperte ainda durante este século. Compensam-se através das palavras, subsitituem-se pelas palavras, só conseguem aceitar o mundo dito pela suas bocas, escrito pelas suas penas, e por isso não param: dizem, dizem, dizem, dizem, para que a geologia que pretendem enterrar não emirja por um segundo que seja. Incapazes de lidar com a weltschmerz nossa de cada dia (tinha de ser um alemão a conseguir condensar em substantivo a falência da espécie), vomitam-na sob a forma de esperança e soluções, para de imediato se tornarem escravos da sua própria regurgitação. Eu não sou preconceituoso, e o problema é delas, mas às vezes falta-me a paciência.

2010.03.07

I
Na manhã seguinte foi depositado nas mãos das contínuas do colégio com um beijinho perfunctório. Tinha caído aos trambolhões por algum sítio abaixo, um sítio qualquer, e daí as equimoses, os hematomas. As continuas olharam, viraram, verificaram que funcionava como habitualmente e receberam-no como à restante correspondência. Estava tudo bem, exceptuando os hematomas, as equimoses, e não havia o que fazer para além de assegurar que passava o tempo certo na sala de aula e no pátio de recreio, caso estivesse bom tempo.

Estava bom tempo e foi expedido para o pátio. Durante o recreio, reproduziu a explicação que tinha sido instruído a repetir para existência das equimoses, dos hematomas: tinha caído aos trambolhões, sabe-se lá por onde abaixo, são coisas que se esquecem ao fim de pouco tempo. Exaltou o relato com alguma fantasia para lhe dar a aventura necessária a despertar os ouvintes da manufactura de aviões de papel com efeito de bumerangue e das caricas que percorriam a terra em volta do limoeiro. Uns hematomas, umas equimoses, condecorações de uma noite extraordinária e invisível ao olho humano.

E depois a professora, que abriu a correspondência, com o olhar a controlar os movimentos da turba que lhe entrava pelo espaço, mas a regressar a intervalos certos às equimoses, aos hematomas que, segundo lhe haviam dito as contínuas com reticências, se deviam a uma queda por algum sítio abaixo, uma sítio longínquo, entre ter saído ontem e ter entrado hoje. É assim com as crianças, corridas, brincadeiras, descuidos, hematomas, equimoses. Deixou-o cá a correr, ninguém perguntou mais nada. Caiu mas levantou-se, brinca, fala, comunica, parece o mesmo de sempre, até já se riu e retribuiu o beijinho na altura certa, sem hesitações. São só umas equimoses, uns hematomas, contraídos fora do horário de abertura ao público. Não é preciso activar o seguro nem dar ou pedir explicações suplementares.

 
II
As palavras gritadas, amarradas à estrutura simples de insultos lançados contra as paredes, que os reflectem, projectam-se para fora do quarto, no outro lado do apartamento. Ricocheteiam pelo corredor, perdem-se nas divisões sem saída e desaguam na sala de jantar, onde encontram a salvação na janela aberta para a tarde. As palavras são perceptíveis, o sentido geral das frases curtas, berradas por inteiro, é sempre o mesmo, são sempre as mesmas. São afiadas, contundentes, perfurantes, mas não são mais que ruído de fundo, como o de uma oficina. Uma mentira gritada trezentas e sessenta e seis vezes torna-se música popular ao som da qual se dança indiferente ao sentido da letra.

É dos nervos. Tem os nervos desfeitos. Deita-se na cama, descalça, por cima da colcha florida em tons domésticos e espera que o público ocupe os lugares disponíveis nos dois cadeirões com desenhos rebuscados, gravados na imitação de couro. Com tudo no seu lugar certo, recomeça a litania estridente e claustrofóbica que interrompera três horas mais tarde do sábado anterior e de novo os sons sem sentido de palavras com sentido enchem o apartamento em busca de uma abertura por onde possam fugir. A janela da sala de jantar está sempre aberta porque está sempre um calor abafado, muitas vezes mais cá dentro que lá fora, e é por aí que os gritos que substituíram a vida fogem da vida.

 
III
É deixá-lo enquanto têm pena dele, enquanto não o engolem nos vícios, enquanto ainda pode aprender sem experimentar. E as lágrimas nascem-lhe grossas em frente às velhas, todas simples, todas mulheres, distribuídas pelos dois bancos corridos de pau, encostados às duas paredes úteis da cave. A voz não lhe sai. Deixe-o ir, deixe-o ir. Quer reconhecer nas palavras da outra, também ela uma velha, também ela uma ex-mulher, uma razão incapaz de articular. E é por isso que chora um choro convulsivo. As velhas oficiais sem pestanejar, o desespero de cada uma delas por momentos mitigado pelas lágrimas grossas de uma estranha que lhe caem na saia, no chão, lhe alagam as linhas da morte e de todo o mais que tem nas mãos. É deixá-lo, deixá-lo ir. Se não for agora, mais tarde será pior, pode ir e já não querer ou conseguir voltar. Uma das velhas contrai os maxilares, a carteira preta torcida nas duas mãos e os olhos postos no chão de cimento onde as lágrimas da recém-velha que não foram capturadas pelo vestuário acabarão sem glória. Fora a lâmpada fluorescente, instável e branca, a única luz capaz de entrar na cave é a que sempre veio pelas escadas, desde o início dos tempos, acompanhada do cheiro a nabiça e da restante documentação adequada ao efeito.

E se ele não voltar e se ele não conseguir, mas a pergunta, sabe-o, não acrescenta às respostas que já lhe foram oferecidas por lábios apertados, e as lágrimas, cada vez mais grossas, cada vez mais surdas, cada vez mais pelo rosto, cada vez mais no chão. E por isso não lhe sai, não pergunta, não responde, não avança. Há palavras que só entram, mas não saem, nunca se transformam em ideias e ficam coladas às paredes do crânio, como quistos.

 
IV
Recorrer à ciência possível para assegurar que não era a última não teve como efeito garantir que ficava em primeiro. E quando há uma cabeça que num instante diz não és a primeira, há uma cabeça em que para toda a vida ressoa sou a penúltima. Ressoa e propaga-se, aperta a mão dada até doer ao dador, aperta o passo para chegar mais depressa à rua que desce, em que se vira à direita porque não há como ir em frente. A rua que desce, para a direita, estreita, onde o sol se esconde por trás dos edifícios. Se andasse mais, se arrastasse o dador como a uma mala de viagem no cais da estação, se não olhasse para as montras pobres, para os olhares dos outros pobres, para o que os pombos deixavam na calçada, a rua que desce chegaria mais depressa, chegaria logo, e o seu vento, de um quadrante inédito, levaria o pódio e todos os lugares não conquistados para longe do pensamento. Antes a medicidade por um dia que a realeza de outra encarnação.

E a rua chegou e o som do coração acabou ali, à vista do céu garço que um Inverno estranho de quente permitiu. Prefigurava o mais quente dos Verões estranhos de quentes, já de si mais quentes que os outros, mas naquele momento, pela rua abaixo, só mais montras pobres e outros pobres e pombos que se deixavam na calçada, carros nos dois sentidos tentando passar pelo espaço de um e o som das suas buzinas, sons com sentido de palavras sem sentido, que percorriam as paredes dos prédios em busca de um orifício por onde pudessem entrar. O som do coração perdeu-se ali, abafado pelas máquinas e por elas levado para ruas que nunca seriam visitadas. Nenhum vento que levasse as medalhas, as condecorações e o hino nacional dedicado a outra. Apenas o ressoar de três palavras agudas que, segundo a segundo, passo a passo, milímetro a milímetro, abalariam as fundações do desejo. Foi ali e não nos livros da ciência impossível, capaz de certificar mas não de criar, que começou a fazer-se a distância que havia de ser toda a que o mundo tem para dar na forma de hematomas e equimoses, ainda invisíveis. Foi ali, na curva da rua que descia para todos e subia para alguns, que começou a aprendizagem da ciência a que só chegará quando não tiver ao que aplicá-la: tudo o que se perde transforma-se em pena.

2010.03.03

2010.03.01