I
Na manhã seguinte foi depositado nas mãos das contínuas do colégio com um beijinho perfunctório. Tinha caído aos trambolhões por algum sítio abaixo, um sítio qualquer, e daí as equimoses, os hematomas. As continuas olharam, viraram, verificaram que funcionava como habitualmente e receberam-no como à restante correspondência. Estava tudo bem, exceptuando os hematomas, as equimoses, e não havia o que fazer para além de assegurar que passava o tempo certo na sala de aula e no pátio de recreio, caso estivesse bom tempo.
Estava bom tempo e foi expedido para o pátio. Durante o recreio, reproduziu a explicação que tinha sido instruído a repetir para existência das equimoses, dos hematomas: tinha caído aos trambolhões, sabe-se lá por onde abaixo, são coisas que se esquecem ao fim de pouco tempo. Exaltou o relato com alguma fantasia para lhe dar a aventura necessária a despertar os ouvintes da manufactura de aviões de papel com efeito de bumerangue e das caricas que percorriam a terra em volta do limoeiro. Uns hematomas, umas equimoses, condecorações de uma noite extraordinária e invisível ao olho humano.
E depois a professora, que abriu a correspondência, com o olhar a controlar os movimentos da turba que lhe entrava pelo espaço, mas a regressar a intervalos certos às equimoses, aos hematomas que, segundo lhe haviam dito as contínuas com reticências, se deviam a uma queda por algum sítio abaixo, uma sítio longínquo, entre ter saído ontem e ter entrado hoje. É assim com as crianças, corridas, brincadeiras, descuidos, hematomas, equimoses. Deixou-o cá a correr, ninguém perguntou mais nada. Caiu mas levantou-se, brinca, fala, comunica, parece o mesmo de sempre, até já se riu e retribuiu o beijinho na altura certa, sem hesitações. São só umas equimoses, uns hematomas, contraídos fora do horário de abertura ao público. Não é preciso activar o seguro nem dar ou pedir explicações suplementares.
II
As palavras gritadas, amarradas à estrutura simples de insultos lançados contra as paredes, que os reflectem, projectam-se para fora do quarto, no outro lado do apartamento. Ricocheteiam pelo corredor, perdem-se nas divisões sem saída e desaguam na sala de jantar, onde encontram a salvação na janela aberta para a tarde. As palavras são perceptíveis, o sentido geral das frases curtas, berradas por inteiro, é sempre o mesmo, são sempre as mesmas. São afiadas, contundentes, perfurantes, mas não são mais que ruído de fundo, como o de uma oficina. Uma mentira gritada trezentas e sessenta e seis vezes torna-se música popular ao som da qual se dança indiferente ao sentido da letra.
É dos nervos. Tem os nervos desfeitos. Deita-se na cama, descalça, por cima da colcha florida em tons domésticos e espera que o público ocupe os lugares disponíveis nos dois cadeirões com desenhos rebuscados, gravados na imitação de couro. Com tudo no seu lugar certo, recomeça a litania estridente e claustrofóbica que interrompera três horas mais tarde do sábado anterior e de novo os sons sem sentido de palavras com sentido enchem o apartamento em busca de uma abertura por onde possam fugir. A janela da sala de jantar está sempre aberta porque está sempre um calor abafado, muitas vezes mais cá dentro que lá fora, e é por aí que os gritos que substituíram a vida fogem da vida.
III
É deixá-lo enquanto têm pena dele, enquanto não o engolem nos vícios, enquanto ainda pode aprender sem experimentar. E as lágrimas nascem-lhe grossas em frente às velhas, todas simples, todas mulheres, distribuídas pelos dois bancos corridos de pau, encostados às duas paredes úteis da cave. A voz não lhe sai. Deixe-o ir, deixe-o ir. Quer reconhecer nas palavras da outra, também ela uma velha, também ela uma ex-mulher, uma razão incapaz de articular. E é por isso que chora um choro convulsivo. As velhas oficiais sem pestanejar, o desespero de cada uma delas por momentos mitigado pelas lágrimas grossas de uma estranha que lhe caem na saia, no chão, lhe alagam as linhas da morte e de todo o mais que tem nas mãos. É deixá-lo, deixá-lo ir. Se não for agora, mais tarde será pior, pode ir e já não querer ou conseguir voltar. Uma das velhas contrai os maxilares, a carteira preta torcida nas duas mãos e os olhos postos no chão de cimento onde as lágrimas da recém-velha que não foram capturadas pelo vestuário acabarão sem glória. Fora a lâmpada fluorescente, instável e branca, a única luz capaz de entrar na cave é a que sempre veio pelas escadas, desde o início dos tempos, acompanhada do cheiro a nabiça e da restante documentação adequada ao efeito.
E se ele não voltar e se ele não conseguir, mas a pergunta, sabe-o, não acrescenta às respostas que já lhe foram oferecidas por lábios apertados, e as lágrimas, cada vez mais grossas, cada vez mais surdas, cada vez mais pelo rosto, cada vez mais no chão. E por isso não lhe sai, não pergunta, não responde, não avança. Há palavras que só entram, mas não saem, nunca se transformam em ideias e ficam coladas às paredes do crânio, como quistos.
IV
Recorrer à ciência possível para assegurar que não era a última não teve como efeito garantir que ficava em primeiro. E quando há uma cabeça que num instante diz não és a primeira, há uma cabeça em que para toda a vida ressoa sou a penúltima. Ressoa e propaga-se, aperta a mão dada até doer ao dador, aperta o passo para chegar mais depressa à rua que desce, em que se vira à direita porque não há como ir em frente. A rua que desce, para a direita, estreita, onde o sol se esconde por trás dos edifícios. Se andasse mais, se arrastasse o dador como a uma mala de viagem no cais da estação, se não olhasse para as montras pobres, para os olhares dos outros pobres, para o que os pombos deixavam na calçada, a rua que desce chegaria mais depressa, chegaria logo, e o seu vento, de um quadrante inédito, levaria o pódio e todos os lugares não conquistados para longe do pensamento. Antes a medicidade por um dia que a realeza de outra encarnação.
E a rua chegou e o som do coração acabou ali, à vista do céu garço que um Inverno estranho de quente permitiu. Prefigurava o mais quente dos Verões estranhos de quentes, já de si mais quentes que os outros, mas naquele momento, pela rua abaixo, só mais montras pobres e outros pobres e pombos que se deixavam na calçada, carros nos dois sentidos tentando passar pelo espaço de um e o som das suas buzinas, sons com sentido de palavras sem sentido, que percorriam as paredes dos prédios em busca de um orifício por onde pudessem entrar. O som do coração perdeu-se ali, abafado pelas máquinas e por elas levado para ruas que nunca seriam visitadas. Nenhum vento que levasse as medalhas, as condecorações e o hino nacional dedicado a outra. Apenas o ressoar de três palavras agudas que, segundo a segundo, passo a passo, milímetro a milímetro, abalariam as fundações do desejo. Foi ali e não nos livros da ciência impossível, capaz de certificar mas não de criar, que começou a fazer-se a distância que havia de ser toda a que o mundo tem para dar na forma de hematomas e equimoses, ainda invisíveis. Foi ali, na curva da rua que descia para todos e subia para alguns, que começou a aprendizagem da ciência a que só chegará quando não tiver ao que aplicá-la: tudo o que se perde transforma-se em pena.


