É fácil tipificar as pessoas pela percepção que têm da existência de momentos para falar e momentos para calar. Há pessoas que têm esta percepção e agem de acordo com ela. Há pessoas que tem esta percepção e não agem de acordo com ela — porque não conseguem segurar as palavras dentro da boca ou porque são malcriadas e não o querem fazer. Há pessoas que não têm esta percepção. Esta tipologia, ferida por todos os males das tipologias, não está associada ao sexo, à idade, ao nível de escolaridade, à classe social delas ou dos seus pais, à condição perante o trabalho, à situação na profissão, à área de residência, à tipologia da habitação, às características do núcleo familiar, a nenhuma combinação das anteriores. A estatística não deixa margem para dúvidas.
Não nos é possível concluir que as pessoas que não têm a percepção de que existem momentos para falar e momentos para calar já nascem assim e nada há a fazer, mas isso é um pormenor, pois há consenso quanto há imutabilidade da condição a partir da idade adulta — precisamente quando ela deixa de ser um feitio para passar à condição de problema. A pessoa que fala, fala, fala e diz muito, conta, opina, profere, afirma, se exprime, enfim, discursa numa torrente constante e mais ou menos ordenada acerca de tudo e de todos, vai ser sempre assim. Vai sempre verbalizar cada gesto que o actor faz no palco, a previsão do desfecho de cada cena no cinema, a acusação a cada outro que não está a cumprir as suas obrigações identitárias, cada momento de revolta contra as manifestações de degradação dos valores fundamentais sobre os quais se baseia o bem-estar e a paz social.
Tornaram-se ou deixaram-nas tornar-se drogadas nas palavras, uma dependência para a qual ainda não se investe na busca de tratamentos eficazes, um luxo para o qual o ocidente, ou quem o substituir, talvez desperte ainda durante este século. Compensam-se através das palavras, subsitituem-se pelas palavras, só conseguem aceitar o mundo dito pela suas bocas, escrito pelas suas penas, e por isso não param: dizem, dizem, dizem, dizem, para que a geologia que pretendem enterrar não emirja por um segundo que seja. Incapazes de lidar com a weltschmerz nossa de cada dia (tinha de ser um alemão a conseguir condensar em substantivo a falência da espécie), vomitam-na sob a forma de esperança e soluções, para de imediato se tornarem escravos da sua própria regurgitação. Eu não sou preconceituoso, e o problema é delas, mas às vezes falta-me a paciência.


