Viajar pode ser um refrigério para a exigência quotidiana de cumprir as expectativas dos outros, mas é um teste à capacidade de lidar com a falta de competência dos outros para corresponder às nossas expectativas, dizia o meu avô, que nunca viajava. Uma infância lixada, uma pancada mal recebida na cabeça, uma queda mal dada na consciência de que não será na cama que se vai arrumar a vida ou de que não serão as mãos da literatura a levar-lhe o féretro para o panteão: a sujeição a demasiadas contrariedades e a privação sistemática do acesso à consumação do desejo podem deixar uma pessoa avariada. Não se deve confiar nas pessoas avariadas e, entre estas, as que têm medo de viajar, continuava. Isto é mais certo ainda para as pessoas que recusam este seu medo, que só vão arrastadas e por entre gemidos, justificando a sua pulsão para permanência com contrariedades incontroláveis que lhes caem no caminho, contrariedades semelhantes às que lhes vieram ter ao berço, impedindo-as de se deslocar. O violentado será violento e jamais perdoará ao pacífico a sua liberdade de o não ser.
Mas ele, o meu avô avariado, não encontrava nada de mal nele próprio. Não bebia por causa do fígado, não se opiava por causa da companhia e não ia todos os anos a Badajoz com a minha avó, que se ficava presa a ele, incapaz de o empurrar, porque a ideia de caramelos o deixava prostrado. Ele queria, e todos os anos planeava no ar a sua ida, mas a vida é uma rameira e depois morremos todos. Quis a doença de história incógnita, e não o medo, que se tivesse ficado por ali, sem exercitar o deslumbramento com os feitos ou o nojo com o feitio dos indígenas de lá, mas sem queixumes. Compensava a imobilidade recebendo muito bem em sua casa, com chouriço, broa de milho e regularidade estudada, exigindo em troca que lhe ajeitassem o dreno quando se ria demais e que fizessem o favor de se tornar invisíveis quando tinha as tosses lhe que subiam do cóccix até à alma. Já conheci o meu avô velho, calado e acompanhado de uma avó demasiado silente para que lhe pudesse extrair um passado que justificasse, num sentido ou noutro, os seus caprichos — para saber se ele tinha razão ou se tudo aquilo era apenas pavor de não conseguir evitar as elegias da volta.


