Já passaram mais de Y anos. Já é possível aproveitar isso, apropriar isso, usurpar isso, transformar isso — transformar-se nisso. Y anos depois, os vermes prosseguem o seu labor pelo bem da terra e uma nova meia-vida começa a nascer a partir do falecimento, literal e figurado (a diferença nem sempre é óbvia), do autor. Ainda não se sabe se será meio árvore, meio fungo, meio animal, meio mono ou meio fluido. Sabe-se que acorda todas as manhãs com a boca meio cheia de coisas para dizer, coisas que vai libertando pelo dia dentro de acordo com pontos predefinidos numa agenda que lhe foi imposta. Já foi informada pela hierarquia de que está ser meio inconveniente, facto irrelevante para quem meio morre todas as noites a pensar que amanhã, lá mais para o almoço, será um novo meio-dia. Tudo o que sou devo-to, tudo o que sei devo-to, meio balbucia antes de adormecer abraçada às meias. Ainda tenho na língua o teu sabor analéptico e mais adstringente que a média, meio sonha. Uma boa leitora, mesmo que apenas pela metade, tem de ser ao menos meio masoquista, até porque para as outras já há quem escreva. É a meia homenagem, meio impossível, que pode dedicar-lhe: ser leitora, mesmo que pela metade, traz limitações que a posteridade torna demasiado incontornáveis.

2010.03.23