Conseguir esquecer o que se não sabe quando nasce o querer de dar um passo em frente na direcção do Bem é admirável. Tivéssemos sempre o andar cercado pelas certezas e viveríamos ainda num mundo esquálido, incivil, austero e sem promotores de grão-de-bico enlatado nos corredores dos supermercados. Olhar os utensílios com o corpo tenso, como milhares de artifices tantas vezes por esse mundo na frieza das madrugadas e avançar sem medo do escárnio, na esperança de tocar os corações inertes de quem lá fora reproduz mecanicamente as solidariedades que lhe calharam em sorte: é assim que se faz a mudança. Ou fará um dia, porque até hoje ainda pouco se viu para além dos promotores, dos supermercados, do grão-de-bico pré-cozido, dos salamaleques e de umas superfícies polidas. Para além dos adornos, pois. Até que chegue o dia em que a coragem solitária dos ignorantes voluntariosos faça vingar a pureza dos princípios ocos de terra e alheios às contingências da matéria, à mulher de César continuará a bastar que pareça séria, convindo-lhe até não o ser. E quantos milénios mais poderemos nós desperdiçar, sabendo, porque não nos deixam ignorá-las, das criancinhas indefesas à espera do nosso pulso?

Conseguir esquecer o que há muito se sabe quando nasce a vontade de dar um passo em frente na direcção do que quer que seja, o Bem incluído, é execrável e não há criancnhas que o justifiquem, por mais que as costumem ter como certas para essa função.

2010.03.24