Afastei-me e pedi desculpa com o sorriso mais amigável que consegui engendrar. Não digo que foi um sorriso sincero. Custou-me, saiu-me das tripas, mas foi um sorriso com boa aparência, ajudado pela minha dentição perfeita. Nada de café ou tabaco, uma fortuna na Corporação Dermoestética. Ele apoderou-se da beringela, primeiro com um movimento brusco, depois mais conciliador. Apesar da altivez, não tinha ar de quem se envolve em discussões na secção de frescos. O tom preclaro da fala, mesmo quando irada, a moda e o porte indiciavam outro tipo de atitude. Talvez não fosse sequer soberba, mas só um dia mal corrido, a acumulação de problemas familiares e profissionais ou uma pequena perturbação mental por lenificar. Para mais, aquela não era a última beringela, embora fosse, de todas as disponíveis, a mais formosa.

A minha bonomia desarmou-o ao ponto do embaraço, de fazer um movimento hesitante em que diminuiu brevemente o ângulo a que o pescoço estava do ombro esquerdo, como que a retractar-se da sua primeira e desnecessária agressividade, enquanto recolhia o vegetal no seu cesto de compras. Julgo que chegou a considerar a possibilidade de mo oferecer, mas o transtorno em que a vergonha o lançou tê-lo-á impedido de agir em qualquer sentido. E a dificuldade que demonstrou em olhar-me nos olhos sorridentes e pacíficos durante aqueles segundos de impasse permitiu-me, então, acertar-lhe a cabeçada no septo nasal com uma precisão que me teria sido impossível caso tivesse optado de início pela via da truculência. Aprende-se muito com o Maharaji.

2010.03.26