Coleccionadores há muitos. Há os coleccionadores verdadeiros, motivados pelo gosto de recuperar do tempo, de forma sistemática, algumas das suas partes seleccionadas; e há os que adoptam a denominação por nela conseguirem ocultar o apego à tralha que lhes serve de porto de abrigo para uma sorte de irresoluções. Da mesma forma, o que não falta são liberais que, ao arrepio da história, da etimologia e de um pouco de esforço reflexivo, pretendem dar um corpo ideológico, na forma de um adjectivo simpático, àquilo que de outra forma seria ostentado como insuportável avareza. Idem aspas para os marxistas cujo motor se encontra na inveja, uma afirmação anedótica do reviralho que, no entanto, encontra no quotidiano quem, para desgosto dos puros, a devolva à luz da seriedade. O mesmo vale para os swingers: também os há na forma de quem não vê a sexualidade e as relações amorosas como duas realidades indissociáveis; e na forma de quem precisa de um paliativo para o casamento falhado que, por alguma razão, não deve ser descontinuado nem assumidamente traído. E haverá quem tenha fé e queira viver para ela, suponho, há gente para tudo. Mas quando a essa opção profissional estão adjuntas cama, roupa lavada e justificação para a inconformidade com o mainstream sexual — deves sentir desejo e deves senti-lo por adultos do outro sexo —, não se percebe muito bem do que é que estavam à espera. Não é de agora que os grandes planos e os altos desígnios se alimentam de sentimentos pequenos e necessidades especiais. A menos que todo este escândalo e o fingimento de incredulidade sejam apenas as manifestações de um outro desejo antigo, que finalmente se vê livre de constrangimentos: o de passar os dias a falar do sexo dos anjos.


