Arquivos de 2010/04
Não, não se queixem, não têm autoridade para tal: quem tem toda a gente à perna sou eu e mais ninguém. Os cristãos, renascidos ou nunca morridos, querem a minha cabeça. Não suportam que o deus que criou o pão com chouriço seja o mesmo que me criou a mim e ao Psychrolutes marcidus. Os romanos que sobraram querem-me no circo. Querem rir-se das entranhas de quem os autopsiou. Os deserdados do estalinismo, agora convertidos a uma constelação de novas razões maiores para o exercício da caridade estatística, querem-me calado. Não gostam de quem abdique da sua oferenda. Os liberais-na-hora-de-receber (a atribuição de uma etiqueta definitiva permanece em aberto) querem-me a pagar. Não estão para que o dinheiro que o Estado transferiu do meu bolso para o deles possa agora ser utilizado a comparticipar-me a medicação para a cabeça. Os poetas, auto e heterodenominados, querem-me longe da vista. Não se dão bem com a ideia de haver quem ache que entre eles também há ladrões. Os professores querem-me empalado nos portões das escolas, para dar o exemplo de que as crianças tanto necessitam. Não gostam de provas vivas dos crimes que cometeram. Os novos querem-me bué da longe. Não gostam do cheiro a morte. Os velhos querem-me do lado de lá. Não gostam do cheiro a morte. Os zômbis, que esperam o momento certo para lançar o ataque final, querem-me deles. Não gostam de ver talentos extraviados. Os cientistas querem-me no laboratório, mas dentro de balões de Erlenmeyer. Não vêem com bom olhos quem não se contente com meras evidências. Os ambientalistas querem-me reduzido, reciclado, mas não reutilizado. Não aceitam a fidelidade aos conceitos. Os arquitectos, esses querem-me em qualquer lado, desde que esse lado seja na Alemanha. Por razões que só a razão conhece. E nem pensem em tentar tirar-me isto.
Grande guerra. Para quem, como é o caso, nada é senão tempo, o dever de memória é equivalente ao de não urinar na via pública, salvo nas festividades anuais devidamente reservadas para o efeito, ou de fazer da bravura um refúgio para escapadinhas de fim-de-semana com ponte. Os nossos mortos são a nossa electricidade e não há um quilovátio-hora a desperdiçar, porque os outros também têm os deles e o segredo do sucesso está na competitividade a nível internacional.
Semicúpio. Fomos ao grande salgueiro para saber do nosso destino. Instruídos da ladainha, levantámo-nos antes da alba, vestimos as peles de cordeiro e caminhámos pela beira do canal, silentes. O frio deformava-nos os rostos, mas é apenas no tempo dos narcisos que o grande salgueiro se digna desvendar as profecias da mãe-terra. À chegada, começava o levante a clarear, vimos que já havia fila e então voltámos para trás.
Uma duas três avenidas Névski. A proprietária Uhova recebe-me com uma sopa sibilante e sem gramática que, percebo após alguns segundos de degustação, terá de passar por inglês. My girlfriend, girlfriend not for sleep, just for friends, live in Portugal. She married to man work in Shell. He in Norway not talk for one month. I say to her Maria don’t be stupid he not coming back. Nasceu algures no interior do império das franjas, viveu na Letónia e agora está aqui. English men, not women, English men only come here for drogue. E faz com a mão direita o gesto de quem fuma. Nessa mão tem três longas unhas pintadas de roxo. As do indicador e do médio estão cortadas rente. Na mão esquerda, só não tem unha comprida no anelar, que nem sequer tem a cabeça do dedo. Quero, mas não pergunto porquê.

É melhor que se comece o amplo debate acerca de quem deve aprender esta lição de humildade antes de a populaça descobrir que a indignação sem alvo também é possível. Se a releitura das chuvas e dos ventos o foi, tudo o será. Nesse momento, a parte da populaça antropocêntrica que anda sempre com o j’accuse na boca estará demasiado ocupada a espetar a falangeta, a propósito de algo que entretanto surgirá, na direcção da parte da populaça antropocêntrica que se especializou em banheiras de hidromassagem para que uma discussão serena e produtiva acerca de quem deveria aprender alguma coisa possa ser feita. Não que seja um debate fundamental, pode-se até dizer que é completamente inútil, na medida em que a) não proporciona as possibilidades de reescrita do futuro em que a populaça (toda) tanto gosta de acreditar e b) nunca irá haver uma maioria consolidada e estável a resignar-se ao papel de aprendiz colectivo. Nunca há, seja qual for o assunto. Mas fazia-nos bem, dava-nos outra paz, outra leveza, mais umas desculpas para nos metermos os copos enquanto o fim não vem.
Não é fácil ser-se cultivado fora do mundo, ao som dos grandes, e ir parar ao meio da escala no meio daquela terra. Uma pessoa habitua-se a dar valor a certas posses que, quando apresentadas numa casa de câmbios local, não o têm. Aquela moeda não é ali convertível nas ervas aromáticas da vida: amor, felicidade, saúde do e no terceiro sector, um sistema de cinema em casa. Não que se fique de mãos a abanar — o meio da escala no meio daquela terra tem, ao menos, a vantagem de ser subsidiada sem restrições nem discriminações com o sal da vida: muitos dentes brancos à mostra, lume dado e lojas do cidadão. Valha-nos a previdência da sociedade-providência, que dá este socorro a troco da prestação do nosso serviço à existência com um mínimo de bonomia; ou, para quem ainda pode, o complemento de um branco ao pequeno almoço e meio azul antes de deitar, que dão tudo em troca de quase nada. Quase nada? Sim, quase nada, insignificâncias, futilidades, brilhos para encher o olho. Haverá, afinal, algo mais romântico e saciante que a contemplação de mucosas alagadas por um nascer do sol de Verão na Primavera (~3100ºK)? Também me parece bem que não.

Avança pela sala, olhando as paredes vestidas apenas com as marcas da mobília e dos quadros, o tecto alto. Abre as portadas de uma das janelas. A luz e um pouco mais do ruído do final da hora de almoço entram na divisão. Deixa-se ficar à janela, que não abriu, a misturar-se com as partículas suspensas no ar da rua. Parece mais alto e esguio com as fronteiras do corpo comidas pela luz que o atinge em cheio. Fecho a porta de entrada por onde entra o ar fresco da escada atrás de mim e percorro o corredor a caminho das traseiras. Ouço os passos dele pelo sobrado a deixar a janela da sala e a seguir-me, como sempre a uma velocidade inferior à minha. A pulsação mais fraca que a minha, a carteira mais vazia que a minha.
As traseiras dão para um saguão e nelas o quarto maior, também vazio, já tem as portadas abertas. A luz que entra, manchada pelos fungos e trepadeiras, é de outra cidade e de outra estação. Aqui sou eu que me deixo ficar à janela, que abro, apoiado no parapeito, à espera que ele abandone a contemplação. Depois de algumas hesitações, que presumo motivadas pela observação de pormenores que foi encontrando no percurso, entra no quarto. Leva dois segundos a discernir-me contra a luz fria do saguão, desloca-se para um lado e senta-se no chão, as costas contra a parede norte, a perna esquerda esticada no chão, a direita dobrada de forma a permitir que o joelho lhe sirva de apoio ao cotovelo do mesmo lado. Exactamente no mesmo sítio em que ela se havia sentado, embora numa posição diferente, dois dias antes. A coincidência provoca-me um arrepio e força-me a olhar para fora, para o percurso dos aranhiços nas trepadeiras.
Alcança o maço de tabaco no bolso da camisa e estende-mo. Aceito, tiro um cigarro e prendo-o entre os lábios. Olho novamente para fora. Tira um cigarro para ele, reintroduz o maço no bolso e, no seguimento do gesto, tira um isqueiro, que também me estende.
«Eu tenho».
Acende o cigarro dele enquanto eu tiro do bolso do casaco um isqueiro com que acendo o meu.
«Vínhamos aqui fazer o quê?», pergunta.
Solto uma baforada para fora da janela, para cima dos aranhiços.
«Não sei, já não me lembro».



