Arquivos de 2010/05

2010.05.29

Enquanto não vem a revolta dos piigs ou qualquer outro evento capaz de excitar mais que sindicalistas e voluntários da ajuda humanitária, podíamo-nos preocupar com o que realmente importa. Afagar os mais frágeis afectados pela derrocada, certo, mas também aproveitar o tempo desempregado para fazer alguns avanços na resposta a uma das questões que têm atravessado as estórias: o que é pior, ser sempre o que gosta mais ou ser sempre o que gosta menos? Como lidar com as incomensurabilidades que esta questão tomba no caminho do progresso? Como lidar com a falta de eficácia que as acções de patologização de ambas as condições têm demonstrado, para mais num contexto em que o próprio enunciado do problema, dada a sua extrema capacidade performativa, não deve ser proferido publicamente em vão, como é o presente caso? Há vidas em jogo, afinal, carreiras contributivas que se podem ver irremediavelmente comprometidas.

2010.05.26

2010.05.23

É o vício da curiosidade, do sentido, de não descansar enquanto cada passo que conduziu até aqui não estiver entendido com o pormenor suficiente para que tudo possa ser repetido de forma a obter novamente o mesmo resultado. Especialmente porque o objectivo é o de jamais obter o mesmo resultado. Para isto, já basta o que basta. Desfiar tudo com um bloco de notas numa mão e na outra a memória, se for ciência, desfiar tudo com um bloco de notas numa mão e na outra um afecto desusado, se não for. Escrever tudo, registar cuidadosamente a variação de cada variável, não deixar que o silêncio corra sobre o mais ínfimo pormenor. Esse espírito vivo e indagador, o gosto pela descoberta e pela aplicação das aprendizagens a novas situações são as razões por que te escolhem para andar. Mas o caminho acaba sempre no ponto em que as boas palavras se encontram com a matéria da vigília: só quando ouvires o que não queres saberás que fizeste uma pergunta a mais, esse estranho conceito que vive da fuga à definição. E essa pergunta, se tiveres sorte, é logo a primeira: sempre te poupa os olhos, as contas mensais e as solas dos sapatos.

2010.05.19

Estava eu muito bem, de cabeça para baixo e a ser abanado até me cair a última moeda única em nome da tranquilidade dos mercados, quando recebi a notícia de que a companhia aérea tinha aprovado o pedido de reembolso das passagens relativas à viagem abortada pelo vulcão do Glaciar da Montanha da Ilha. Não fosse a estranha posição em que me encontrava e teria explodido de felicidade, lançando vísceras para as altas camadas da atmosfera, o que seria bom por um lado — uma morte santa e em verdadeiro estado de graça — e mau por outro — não poderia desfrutar do reembolso supra, ainda que só durante o tempo de mo virem sacudir a bem das dívidas da nação. Sim, confesso que me passou pela cabeça, talvez por na ocasião estar demasiado irrigada, sugerir que me outorgassem um curto período para gozo da notícia com a dignidade apenas permitida pelos pés no chão, uma espécie de licença para vencimento, até porque entretanto já tinha estafado os fundos ainda não devolvidos numa viagem alternativa por terras em que o transporte ferroviário ainda não foi surripiado para a sucata. Mas não. Sou uma pessoa responsável, cumpridora e corajosa que jamais interromperia o serviço à sua infamante pátria por algo tão fútil como a oportunidade rara de sentir no coiro a verdadeira felicidade. Até consigo imaginar os boatos que circulariam, quando daqui por uns tempos me decidisse, após elaboradas matemáticas, candidatar-me ao conselho fiscal da Sociedade Protectora dos Corações Liofilizados de Alvaiázere e Vale do Nabão. Não ter andado a babar-me com aquele senhor que cá veio arrepender-se pelas criancinhas com um canto da boca enquanto com o outro continuava a lengalenga que as levou à manjedoura e não ter andado a buzinar pelo clube dilecto da tristíssima trindade já são nódoas que cheguem naquilo que no futuro será o meu passado. Mas pelo menos para essas faltas tenho justificação, como atestam a falta de metal nos bolsos e a vontadinha com que os cartões estão de serem comidos pela primeira máquina que lhes aparecer à frente. Aliás, agora que reparo, já ninguém me está a segurar pelos pés, talvez porque já não valha a pena, mas eu cá continuo de cabeça para baixo. Vai-se a ver e habituei-me a isto, já não quero outra coisa e assim sempre se poupa trabalho quando cá voltarem para me apalpar o reembolso. Só é pena a dorzinha de cabeça, que já nem com brufenes lá vai, por que de resto até nem se está mal, o que calha bem porque é capaz de ser esta a única maneira de ter umas vistas diferentes nos tempos mais próximos.

2010.05.15

2010.05.11

O presidente já tem Esperança em Portugal®. E você, que não lhe pagam para a ter?

Portugal pode ter sido apanhado meio bêbedo numa esquina manhosa pelos mercados, que lhe fizeram um enxerto de porrada, mas não há por que esmorecer nem deixar as más companhias. As pequenas empresas médias, a hospitalidade das comunidades locais e a vontade de estrebuchar que nos corre nas veias desde os tempos d’Os Descobrimentos não deixarão que o país se afunde, extensa praia atlântica de Sanlúcar de Guadiana até ao Centro de Saúde de Tui. O que é preciso é lutar, não nos conformarmos com a conformação. Que os cidadãos usem as auto-estradas de fim-de-semana para ir comprar chouriças aos aldeões. Que os cérebros mais brilhantes não se desprendam dos corpos que os sustentaram a iogurte com probióticos e descontos nas propinas tendencialmente gratuitas para se porem a caminho de London Paris Ciudad Rodrigo New York. O que é preciso é que todos nós tenhamos Esperança em Portugal®. Reserve já a sua numa Loja do Cidadão perto si e habilite-se ao sorteio de um magnífico queijinho tipo Nisa (tipo-DOP). Preços especiais para famílias numerosas e beneficiários do Rendimento de Inserção Social.

2010.05.09

Então foi assim. Descontrolada desde o seu trágico início, Theia desintegra-se contra a Terra, maior e determinada em cumprir objectivos perfeitamente definidos, com quem partilha uma órbita semelhante. Do embate resulta que a última perde pedaços que, depois de acrescidos, formam a lua Lua. Theia ocupará a partir de então o lugar de pai meramente propiciador que se extinguiu no acto da propiciação. Um pai legal, ausente por morte. Papa was a rolling stone, literalmente. Paz à sua alma.

Entretanto, as forças gravíticas encarregaram-se de restituir à Terra, em tempo útil, o equilíbrio redondo de que esta necessitava para o cumprimento dos tais objectivos perfeitamente definidos. E a sua lua Lua tornou-se uma boa lua, também ela redonda, brilhante, proactiva, sensual, capaz de interferir de forma decisiva no destino de quem a rodeia, a sua mãe incluída, em relação à qual tem um tamanho anormalmente grande. Fez-se uma Lua tão boa que nem foi preciso chamar-lhe nada. Nisso, chega a ser melhor que יהוה, que só por desporto usa um nome próprio para se distinguir das divindades exóticas dos estranhos, essas sim carentes de designações engraçadas.

Há estórias mais tristes. Ficando pelos casos de comparação fácil, Vénus não tem lua alguma e Marte tem duas que não prestam para nada, nem redondas são, e de quem ninguém espera mais que um simulacro pobrezinho do destino que aguardava o papá da nossa. Acima de tudo, ainda antes de as agências de notação de risco terem descoberto a forma de prever o futuro, muito antes até de a Igreja Católica ter inventado o modelo de internacionalização da sua actividade que mais tarde viria a ser conhecido como franchising, já havia hipóteses que cumpriam perfeitamente a função de assegurar o nosso conforto através da falta de originalidade. Sendo assim, qual a justificação para tanta tristeza? Toca a animar, que o fim está próximo.

2010.05.08

A sombra da árvore vai-se espalhando pelo solo queimado à medida que o Sol se aproxima do horizonte. Uma bela imagem, sem dúvida, mas: e que estou eu a ganhar com isso? Penso na temperança. A temperança tem-me crescido como vitiligo e é igualmente visível, apesar do meu tom de pele. Mas depois penso que o que a concórdia entre os povos deve à anorgasmia não é comensurável com o que eu devo à experiência que se acumula no caminho para a maturidade e, se tudo correr bem, a subsequente podridão, logo relativizo tudo até tudo valer a mesma coisa. Ou seja, nada.

Isto a propósito de ontem ter sido sobressaltado por uma experiência que, em desrespeito pela etimologia, posso descrever como mística. Acordei, como faço quase todos os dias, e depois de um período sancionado por várias instituições internacionais em que procedi à adaptação ao mundo dos vivos e similares, pretendi levantar-me. Pretender talvez seja pretensão — foi um automatismo, porventura espoletado pelo saber que dentro em pouco teria de me dirigir ao meu terminal do sistema de água e saneamento da cidade que habito para tratar das vilezas do corpo. Pensei o levantamento, os músculos reagiram, mas foi como se uma mão invisível sobre o peito impedisse o meu tronco de se erguer. Embora pouco dado a devaneios pré-meridianos, o surgimento desta remissão da minha incapacidade temporária absoluta para a verticalidade a um momento literário (é assim que gosto de o ver) fez-me acreditar que se tratava do espírito de Smith, vindo de onde tem estado para me pedir contas por andar a dizer dele o que Malthus não disse de Condorcet (que ainda por cima era um querido).

É que depois não se consegue evitar dividir tudo em fases, por mais que já se tenha passado a fase de dividir tudo em fases. Houve a fase em que semelhante acontecimento me teria marejado os olhos. Houve a fase em que me teria provocado uma torrente de imprecações contra desconhecidos. Houve a fase em que me teria feito exigir uma reparação ao sistema. Houve uma fase em que me teria mergulhado num longo estupor. (Não pretendo fazer jus à cronologia, uma patetice com que me ocupei numa fase ida). E ontem descobri-me na fase em que regressei sem protestos ao estado anterior por algumas horas mais. Quando voltei a acordar, consegui sair da cama para o tapete com uma facilidade que quase me fez acreditar que a cena anterior se tratara de um sonho. Mas não, não foi um sonho. Foi outra fase, só que muito pequerrucha.

2010.05.05

2010.05.02