Arquivos de 2010/06

Como se o mal nos fosse alheio e o bem apenas a nós pertencesse. É um clamor ingénuo, segundo uns, ou cínico, segundo outros, o que exige a proscrição da desumanidade. Que seja retirada dos dicionários e que, nos escritos prévios à operação de higienização, seja substituída ou, pelo menos, explicada às crianças como hoje fazemos ao Homem com maiúscula: um desatino dos antigos que vai sobrevivendo, pelas ruas, paga pela caridade da reacção. É uma reivindicação minoritária, a do fim da desumanidade, soterrada pelos poderes fácticos sob os verdadeiros desafios do presente, que não existe. Mas atender-lhe, já, é uma questão de elementar justiça, equidade, humanidade.
Ela gosta muito de música, gosta de muita música, conhece muita música. Tem muitas conversas com muitas pessoas sobre música. Adora Dave Matthews Band e descobriu há pouco uma nova adoração: «Bonaiver». Ele, impávido por detrás dos óculos de sol retro, corrige-a subtilmente numa frase em que também louva, embora moderadamente, «Boniiiiverrrr». Moderadamente. Acrescenta a despropósito que uma das pessoas com quem gosta mais de falar sobre música, porque ele farta-se de falar sobre música, é, apesar das discordâncias frequentes, um tipo que ele conhece que é intelectual. Daqueles que têm blogues sobre literatura e escrevem poesia para revistas e essas cenas. Presumo que essas cenas seja pichar paredes com ditos e tiradas pós-charro, mas nunca o saberei com certeza. Uma das pessoas mais fantásticas que ele conhece. Pelo que os óculos gigantes deixam ver, já tem idade para saber que se deve desconfiar das pessoas mais fantásticas que se conhece. É capaz de ser burro. Ela não se deixa ficar e retoma o discurso no ponto em que ele a interrompera para dizer que também gosta muito de um outro projecto musical cujo nome não consegui apanhar. Ainda pensei em intrometer-me na conversa e pedir-lhe para repetir, mas não quis interferir no percurso dos meus objectos. Ele há uns dias tocou alguma coisa – também não percebi o quê – com djembês e essas cenas. Presumo que essas cenas fossem mais djembês, mas nunca o saberei com certeza. Ela estica-se, tenta mostrar uma segurança que a sua pose tensa trai a cada instante. Mas sempre mostra iniciativa. A iniciativa que matou o rato. Sim, essa mesma. Ele relaxa, afunda-se na cadeira de plástico patrocinada pela cerveja dos misóginos. Fuma e fala com uma displicência excessiva, que só não o torna risível porque ela está mortinha. Resta saber se a atitude dele resulta de sorte ou estratagema. Como é burro deve ser de sorte. Mas o que interessa são os resultados e com mais umas cantigas ela está no papo. No caminho glorioso para os registos e notariado, não há estultícia que uma pronúncia de francês exagerada não compense.

Embora se trate de uma questão do foro privado, excêntrica aos termos que delimitam o nosso relacionamento, a sua forte influência neste obriga-me, por educação, respeito e lisura, a fazer o esclarecimento: encontro-me presentemente desprovido de alma. Julgo não haver motivo para alarme. Não se tratou de acidente ou maleita; é, antes, um estado em que me encontro de forma voluntária e sobre o qual, tanto quanto me é possível ajuizar, tenho o controlo bastante para operar um eventual regresso à normalidade, para a qual tenciono tender dentro em breve.
Para ir directo ao assunto, aluguei a alma ao diabo. Não sei bem onde fica, no presente caso como em muitos outros, a fronteira entre a figura de estilo e a materialidade, por assim dizer, da fogueira eterna. Por várias razões, entre as quais não é menor a de não ter sido o negócio tratado «pessoalmente» com o mafarrico. Ao que parece, são estes os usos da casa: fui contactado por um dos seus lacaios, uma lacaia, no caso vertente, sem grande formação, com quem acertei tudo de boca. Bem sei que isto, assim dito, tresanda à mais completa irresponsabilidade, mas as alternativas não eram nem muitas nem melhores.
Para prover um esboço de como tudo se processou, depois de eu ter recusado liminarmente as hipóteses de venda ou leasing inicialmente propostas, detivemo-nos, eu e a lacaia, sobre se o que estava prestes a acontecer configurava uma situação de aluguer ou de arrendamento. Sendo eu ignaro em matérias do imaterial, recorri a uma das analogias que parecem povoar a minha vida como fungos em souto de Outono para tentar perceber a natureza, do ponto de vista da mobilidade, do que se discutia. Fosse o meu corpo um terminal de comunicações móveis e a minha alma seria o sinal de rede do operador ou a bateria do aparelho? Não me soube esclarecer. Ainda me ocorreu entrar pelos gregos dentro, mas a óbvia falta de competências da minha interlocutora e a necessidade de ver o negócio fechado com urgência fizeram-me sugerir que optássemos por «aluguer», por ser de uso mais corrente. E tratava-se, afinal, de um contrato verbal, em grande medida assente na confiança que cada uma das partes deposita na boa-fé da outra, mas que nem por isso, segundo o meu advogado, deixa de ser perfeitamente válido.
Fica este episódio como ilustração de como a precarização, desqualificação e indiferenciação da força de trabalho contamina já esferas que, até há bem pouco, julgaríamos imunes a tais desprimores. Ou talvez tenham esses males vindo dessas esferas até nós, como poderei eu sabê-lo? O que sei e o que interessa é que, em virtude deste ajuste, obtive legítimas vantagens que, como sempre na vida, acarretam algumas limitações que, idem aspas, se transportam para todos os planos em que outros dependem de nós. Perante esta fatalidade, mais não posso senão prometer o meu acometimento em garantir a minimização dos incómodos a terceiros e a estes pedir que, até que a minha alma se reencontre com a minha carne, me aturem o modo mecânico de tratar do expediente.
O comboio é reconfortante porque está preso a um percurso do qual não pode escapar. Porque a assepcia do ferro rasgando cirurgicamente a paisagem representa as conquistas do progresso industrial e o bem-estar que ele nos permitiu atingir. Mais importante, porque não perturba a leitura, dando à viagem mais possibilidades de recheio. No autocarro, por exemplo, a senhora parecida com um vidrão que cacareja ao telemóvel o orgulho pela sua filha que entrou para medicina dentária, mas que no próximo ano se transferirá para medicina a sério, pode levar qualquer cidadão no seu necessariamente imperfeito juízo à prática de crimes hediondos. No comboio, a senhora-vidrão é duplamente passageira. Intromete-se entre duas orações, interfere num diálogo, retira brilho a um bom início de capítulo, obriga à releitura de um parágrafo. Mas não mais. Em casos limite, existe até a possibilidade de mudar de carruagem, anulando por completo aquele mal-estar. Aquilo que noutros meios pode ser tão insuportável como a visão de uma aplicação falhada de botox, o comboio transforma num vago incómodo comparável à alteração do trânsito intestinal que vem como brinde nas embalagens de inibidores selectivos da reabsorção da serotonina. É disto que falamos quando exigimos uma visão integrada dos desafios do futuro. Políticas de mobilidade, plano nacional de saúde mental e campanhas de ablação forçada das cordas vocais: em pensando mais nos fins que nos meios, encontram-se formas de fazer tudo com o mesmo dinheiro.
10 de Junho de 2010: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Há que ter cuidado: a ordem não é indiferente. Portugal über alles, Camões porque sim e depois a diáspora, que, se continua a reduzir o volume de remessas, ainda acaba trocada pela Amália, que também se fartou de andar por aí. Em Faro, as comemorações oficiais decorrem no descampado das Figuras, assim deixado pela crise no imobiliário, onde as figuras de Estado são apupadas pelas perturbações que introduziram no trânsito de quem se dirige ao centro comercial e ao hospital. Também aqui a ordem não é indiferente. Em Fátima, coração da pátria, a afluência de Portugal (as comunidades só afluem em Agosto e o Camões via mais com um olho que tu com os dois) ao santuário entupiu a auto-estrada. Nos dois sentidos. Não há apupos, apenas rosários sobre o fundo monótono da linha verde TSF. É da crise, senhor, é da crise. Eles não sabem o que fazer, muito menos quando lhes dão um feriado em dia de incontinência celestial.

Dou comigo, num local que seria demasiado fácil descrever como paradisíaco, estranhando a forma como os humanos, numerosos e organizados na luta filogenética contra a morte, necessitam de uma natureza imutável. Rios que não mudem o seu curso para que não interfiram com a rede de estradas e obras de arte tal como está, um clima que não mude para não baralhar os usos dos solos e permitir a previsão da provisão de energia, vírus que não sofram mutações que lhes matem as galinhas, massas que não se movimentem para cima do edificado. Essas coisas. Já era previsível que, ao sentar-me num dos édenes possíveis, me fosse dar para cogitar levianamente sobre estes assuntos. Quando já se passou por umas quantas e nem sempre se leu os livros certos, o resultado costuma ser este.
A imutabilidade. É uma questão de escala, como tudo, e como tudo assim deve ser encarada. Para uma putativa Inteligência Cósmica, a imutabilidade é tudo o que há. Para um realizador de documentários sobre a «natureza», a imutabilidade é um constructo e dos fraquinhos. Ninguém disse que isto iria ser fácil. Por exemplo: o permanente exercício daquilo a que podemos chamar de estocástica do engate como forma de atingir, um dia, proximidade q.b. com uma situação idealizada. Olhando essa prática apenas no âmbito do ciclo que está na nossa memória e nos nossos olhos, ou seja, esquecendo o eventual futuro que lhe podemos presumir, o que é aquilo? Pois. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à situação inversa, de negação estatística da felicidade, com a certeza de que chegaremos novamente ao mesmo pois.
Afinal, o que não muda é o que interessa: o propulsor deste jogo de indecisões. O querer o paraíso, e é disso que estamos a falar, não é propriamente pedir o céu. No fundo, nem sequer é nada de especial. Eu, por exemplo, dou por mim aqui, agora, a estranhar os humanos e, por inescapável identidade, a estranhar-me, ora na forma de carne e osso, ora na forma de metáfora. E como posso estranhar-me se no paraíso já eu estou? Pois.
Começar de novo não é complicado. Basta apanhar a audiência distraída com o telemóvel ou dormente pela vida que leva e reaparecer, passados uns meses, na tundra árctica, vestido com peles de foca. Ou rodopiar sobre o eixo de uma bengala metafísica e imergir no solilóquio. Ou apoiar o cano nos incisivos inferiores, disparar (duas vezes) e esperar que a metafísica da bengala supra trate da papelada. Não só não é complicado como, indiferente ao método escolhido, deixa um travo literário que cai bem ao armário de troféus do recomeçado e à memória saudosa ou revoltada que aquele deixou de presente aos permanecidos.
Mudar de direcção, isso sim, é que são elas. O fundos dos oceanos está coberto de destroços e ossadas de navios e tripulações cujos capitães não se conseguiram arranjar para ir à ponte e comunicar que tivessem lá santa paciência, que afinal não era nada daquilo, não era por ali. Que o caminho até ao ponto de viragem não fora em vão porque em vão é uma fantasia de egos solitários. Sobre os despojos, os corais e os demersais reflectem a luz a que o plástico que flutua à superfície dá passagem. É bonito de se ver, mas não tanto como as luzes de natal nas baixas dos nossos subúrbios. Como sempre, atirar os tarecos para o fundo da despensa nunca foi tão rendoso como alimentar a livros a fogueira.


