O comboio é reconfortante porque está preso a um percurso do qual não pode escapar. Porque a assepcia do ferro rasgando cirurgicamente a paisagem representa as conquistas do progresso industrial e o bem-estar que ele nos permitiu atingir. Mais importante, porque não perturba a leitura, dando à viagem mais possibilidades de recheio. No autocarro, por exemplo, a senhora parecida com um vidrão que cacareja ao telemóvel o orgulho pela sua filha que entrou para medicina dentária, mas que no próximo ano se transferirá para medicina a sério, pode levar qualquer cidadão no seu necessariamente imperfeito juízo à prática de crimes hediondos. No comboio, a senhora-vidrão é duplamente passageira. Intromete-se entre duas orações, interfere num diálogo, retira brilho a um bom início de capítulo, obriga à releitura de um parágrafo. Mas não mais. Em casos limite, existe até a possibilidade de mudar de carruagem, anulando por completo aquele mal-estar. Aquilo que noutros meios pode ser tão insuportável como a visão de uma aplicação falhada de botox, o comboio transforma num vago incómodo comparável à alteração do trânsito intestinal que vem como brinde nas embalagens de inibidores selectivos da reabsorção da serotonina. É disto que falamos quando exigimos uma visão integrada dos desafios do futuro. Políticas de mobilidade, plano nacional de saúde mental e campanhas de ablação forçada das cordas vocais: em pensando mais nos fins que nos meios, encontram-se formas de fazer tudo com o mesmo dinheiro.

2010.06.14