Embora se trate de uma questão do foro privado, excêntrica aos termos que delimitam o nosso relacionamento, a sua forte influência neste obriga-me, por educação, respeito e lisura, a fazer o esclarecimento: encontro-me presentemente desprovido de alma. Julgo não haver motivo para alarme. Não se tratou de acidente ou maleita; é, antes, um estado em que me encontro de forma voluntária e sobre o qual, tanto quanto me é possível ajuizar, tenho o controlo bastante para operar um eventual regresso à normalidade, para a qual tenciono tender dentro em breve.

Para ir directo ao assunto, aluguei a alma ao diabo. Não sei bem onde fica, no presente caso como em muitos outros, a fronteira entre a figura de estilo e a materialidade, por assim dizer, da fogueira eterna. Por várias razões, entre as quais não é menor a de não ter sido o negócio tratado «pessoalmente» com o mafarrico. Ao que parece, são estes os usos da casa: fui contactado por um dos seus lacaios, uma lacaia, no caso vertente, sem grande formação, com quem acertei tudo de boca. Bem sei que isto, assim dito, tresanda à mais completa irresponsabilidade, mas as alternativas não eram nem muitas nem melhores.

Para prover um esboço de como tudo se processou, depois de eu ter recusado liminarmente as hipóteses de venda ou leasing inicialmente propostas, detivemo-nos, eu e a lacaia, sobre se o que estava prestes a acontecer configurava uma situação de aluguer ou de arrendamento. Sendo eu ignaro em matérias do imaterial, recorri a uma das analogias que parecem povoar a minha vida como fungos em souto de Outono para tentar perceber a natureza, do ponto de vista da mobilidade, do que se discutia. Fosse o meu corpo um terminal de comunicações móveis e a minha alma seria o sinal de rede do operador ou a bateria do aparelho? Não me soube esclarecer. Ainda me ocorreu entrar pelos gregos dentro, mas a óbvia falta de competências da minha interlocutora e a necessidade de ver o negócio fechado com urgência fizeram-me sugerir que optássemos por «aluguer», por ser de uso mais corrente. E tratava-se, afinal, de um contrato verbal, em grande medida assente na confiança que cada uma das partes deposita na boa-fé da outra, mas que nem por isso, segundo o meu advogado, deixa de ser perfeitamente válido.

Fica este episódio como ilustração de como a precarização, desqualificação e indiferenciação da força de trabalho contamina já esferas que, até há bem pouco, julgaríamos imunes a tais desprimores. Ou talvez tenham esses males vindo dessas esferas até nós, como poderei eu sabê-lo? O que sei e o que interessa é que, em virtude deste ajuste, obtive legítimas vantagens que, como sempre na vida, acarretam algumas limitações que, idem aspas, se transportam para todos os planos em que outros dependem de nós. Perante esta fatalidade, mais não posso senão prometer o meu acometimento em garantir a minimização dos incómodos a terceiros e a estes pedir que, até que a minha alma se reencontre com a minha carne, me aturem o modo mecânico de tratar do expediente.

2010.06.16