Arquivos de 2010/07

Vasculhei tudo sem pudor, ética ou boas maneiras. A força maior tem muita força. Comecei pela cómoda, cujas gavetas esvaziei para o chão. A roupa interior, a roupa litoral, os brinquedos: tudo: nada. No roupeiro, um cenário semelhante. Casacos, camisas, calças, saquinhos de alfazema. A arca com a pelagem de inverno. Os armários da cozinha. A despensa. Os arrumos espelhados da casa-de-banho. Atrás das estantes. Debaixo dos sofás. Fui-lhe ao lixo, no caixote de casa e no contentor da rua, com a ajuda de luvas compradas para o efeito numa loja em linha especializada em artigos para respiga. Percorri as paredes com os nós dos dedos, na esperança de ouvir de volta as provas do meu emparedamento. Nada.
Noites mais tarde, tarde demais para lá voltar e confirmar, acordei encharcado na descoberta de que, afinal, estava lá. Não em grande, conforme me tinha procurado, mas desmanchado até à invisibilidade e assim espalhado pelos seus pertences. Entrelaçado nas fibras do vestuário, na tremura da letra dos post-its que cola à porta do frigorífico, cujo interior também havia revistado sem sucesso, no capacho onde, com o tempo, me foi raspando das solas dos sapatos. E na avidez com que passou a declarar o seu amor por quem o não sente. Peças minhas há que já não serão recuperáveis a título de corpo de delito, quanto mais para o sonho cor-de-rosa da minha reconstituição. A única justiça possível, e talvez a única justiça desejável, será a minha presença perpétua, silenciosa. E sabê-lo repousa-me, finalmente, no além.

O autocarro demorou mais tempo a atrasar-se que de costume e vinha cheio, sem lugares onde sentar, num mundo em que já não há cavalheiros. O rapaz com uma pronunciada atrofia do membro superior esquerdo, que costuma pedir na esquina das refeições para fora, espremia-se por entre as sardinhas, tentando ganhar quanto chegasse para, pelo menos, não dar por perdido o dinheiro do bilhete, que segurava entre os dedos da mão pequena. Se era só uma deslocação esporádica, que tentava rentabilizar com recurso às competências de que dispõe, que se deixe estar. Se pretende mudar a actividade para aquelas paragens ambulantes, talvez devesse investir num passe mensal.
Há tempos, ter-lho-ia dito. Hoje, nem os cinquenta centavos habituais lhe dei, ausência a que ele me respondeu com um resmungo indecifrável, abafado pela atmosfera de óleo vegetal. Os meus preferidos são os que trabalham por transferência bancária, que não notam. O operador que continua a cobrar-me as chamadas que me presume a fazer, a patroa que insiste em pagar-me mais um mês em que me imaginou a trabalhar. Ou os que tratam de tudo sem a minha vontade, recarregando o fascínio pela forma como as coisas se governam sozinhas, mesmo à revelia dos factos. Como Z., que me paga a cerveja e o jantar como se eu tivesse lá estado, com ele, a partilhar estados de alma, sem gritar aos meus ouvidos o desejo de me ver regressado.
Ter razão e ser justo: duas ilusões com que uma boa educação nos estraga, como se houvesse falta de como o fazer por outros meios e como se aquelas duas vontades amiúde não colidissem, mastigando-se mutuamente. Rousseau em idades que dêem cadeia não ajuda. Antes Platão (ou Thomas More, ou), se tiver mesmo de ser alguma coisa. Melhor brincar, ser iniciado nas putas, escrever poemas de amor, fazer um InterRail. Eu sei que isto não se controla e que não é por crueldade que alguém age de acordo com esta conjugação de princípios — é por optimismo —, mas as intenções esgotam-se rápido enquanto combustível para desculpas. Há uma idade, não, um ponto, um momento preciso, que pode variar um pouco de idade de um para idade de outro, em que o lastro do humanismo despe as vestes da sensualidade juvenil para envergar as da loba esterilizada. Não é preciso ninguém para ser lembrado de que o caminho para qualquer utopia é pior que o repouso na pior distopia. Deixa de ser necessária a presença de quem relembre a revolta que alimenta a indolência. E há um ponto, um momento preciso, que pode variar muito de idade de um para idade de outro, em que já se não pode perder o que se ganhou. Unidos pelo presente, mas separados pelo passado, como em qualquer grande sucesso: feche-se o pano, faça-se silêncio, pontue-se de acordo com as circunstâncias.

Votar em Cavaco é uma irresponsabilidade. O Presidente da República tem de ser uma figura elevada e respeitada para além das concordâncias e discordâncias, características pouco compagináveis com o uso ostensivo da intriga, as birras e os discursos escritos com os pés. O Presidente da República deve ser o palito e não a coisa verde entalada entre os dentes da frente. Votar num candidato claramente incompetente apenas por uma questão de serviço ideológico (que, pelo que se tem visto, nem sequer executa a contento dos seus apoiantes) não é sério.
Votar em Alegre é uma irresponsabilidade. Um mal menor é um candidato menor. Tentar trocar a mediocridade de um pela menoridade de outro é bater no fundo, partir o fundo e continuar por aí abaixo. Votar num candidato unicamente propulsionado pela sua vanitas, que se diz e desdiz ao sabor da distância percebida entre as palavras que tem de proferir para conquistar o eleitorado e o que os seus actos, presentes e passados, revelam, numa última tentativa de se resgatar à categoria de nota de rodapé, não é sério.
Votar em Nobre é uma irresponsabilidade. A pose do político-fora-da-política, não bastando a associação ao que de pior tem nascido no estrume das democracias ocidentais, mina o capital de honestidade que uma pessoa, qualquer pessoa, independentemente do brilho humanitário do seu passado, tem para ir a jogo. Um Presidente da República é um político, não um nadador-salvador, e é como tal que se deve comportar. Além do mais, votar num candidato monárquico para Presidente da República, mais que ser patético, não é sério.
Votar em comediantes, voluntários ou involuntários, é uma irresponsabilidade. Os tempos não estão para brincadeiras. Uma eleição tem sempre, mesmo que não pareça, o resultado em aberto e deixá-la à mercê de quem nem sequer pretende ser sério (ou, pretendendo, não o deveria fazer) não é sério.
Votar em branco ou anular o voto é uma irresponsabilidade. Uma vez que, de acordo com a Lei Eleitoral do Presidente da República, apenas são contabilizados os votos validamente expressos (ou seja, a soma dos votos nos vários candidatos dará cem por cento), votar em branco ou anular o voto equivale à abstenção. E a abstenção é deixar tudo nas mãos dos outros. E deixar tudo nas mãos dos outros não é sério.
Está bem lixadinha, a mulher de César.


