Ter razão e ser justo: duas ilusões com que uma boa educação nos estraga, como se houvesse falta de como o fazer por outros meios e como se aquelas duas vontades amiúde não colidissem, mastigando-se mutuamente. Rousseau em idades que dêem cadeia não ajuda. Antes Platão (ou Thomas More, ou), se tiver mesmo de ser alguma coisa. Melhor brincar, ser iniciado nas putas, escrever poemas de amor, fazer um InterRail. Eu sei que isto não se controla e que não é por crueldade que alguém age de acordo com esta conjugação de princípios — é por optimismo —, mas as intenções esgotam-se rápido enquanto combustível para desculpas. Há uma idade, não, um ponto, um momento preciso, que pode variar um pouco de idade de um para idade de outro, em que o lastro do humanismo despe as vestes da sensualidade juvenil para envergar as da loba esterilizada. Não é preciso ninguém para ser lembrado de que o caminho para qualquer utopia é pior que o repouso na pior distopia. Deixa de ser necessária a presença de quem relembre a revolta que alimenta a indolência. E há um ponto, um momento preciso, que pode variar muito de idade de um para idade de outro, em que já se não pode perder o que se ganhou. Unidos pelo presente, mas separados pelo passado, como em qualquer grande sucesso: feche-se o pano, faça-se silêncio, pontue-se de acordo com as circunstâncias.

2010.07.14