O autocarro demorou mais tempo a atrasar-se que de costume e vinha cheio, sem lugares onde sentar, num mundo em que já não há cavalheiros. O rapaz com uma pronunciada atrofia do membro superior esquerdo, que costuma pedir na esquina das refeições para fora, espremia-se por entre as sardinhas, tentando ganhar quanto chegasse para, pelo menos, não dar por perdido o dinheiro do bilhete, que segurava entre os dedos da mão pequena. Se era só uma deslocação esporádica, que tentava rentabilizar com recurso às competências de que dispõe, que se deixe estar. Se pretende mudar a actividade para aquelas paragens ambulantes, talvez devesse investir num passe mensal.

Há tempos, ter-lho-ia dito. Hoje, nem os cinquenta centavos habituais lhe dei, ausência a que ele me respondeu com um resmungo indecifrável, abafado pela atmosfera de óleo vegetal. Os meus preferidos são os que trabalham por transferência bancária, que não notam. O operador que continua a cobrar-me as chamadas que me presume a fazer, a patroa que insiste em pagar-me mais um mês em que me imaginou a trabalhar. Ou os que tratam de tudo sem a minha vontade, recarregando o fascínio pela forma como as coisas se governam sozinhas, mesmo à revelia dos factos. Como Z., que me paga a cerveja e o jantar como se eu tivesse lá estado, com ele, a partilhar estados de alma, sem gritar aos meus ouvidos o desejo de me ver regressado.

2010.07.18