Vasculhei tudo sem pudor, ética ou boas maneiras. A força maior tem muita força. Comecei pela cómoda, cujas gavetas esvaziei para o chão. A roupa interior, a roupa litoral, os brinquedos: tudo: nada. No roupeiro, um cenário semelhante. Casacos, camisas, calças, saquinhos de alfazema. A arca com a pelagem de inverno. Os armários da cozinha. A despensa. Os arrumos espelhados da casa-de-banho. Atrás das estantes. Debaixo dos sofás. Fui-lhe ao lixo, no caixote de casa e no contentor da rua, com a ajuda de luvas compradas para o efeito numa loja em linha especializada em artigos para respiga. Percorri as paredes com os nós dos dedos, na esperança de ouvir de volta as provas do meu emparedamento. Nada.

Noites mais tarde, tarde demais para lá voltar e confirmar, acordei encharcado na descoberta de que, afinal, estava lá. Não em grande, conforme me tinha procurado, mas desmanchado até à invisibilidade e assim espalhado pelos seus pertences. Entrelaçado nas fibras do vestuário, na tremura da letra dos post-its que cola à porta do frigorífico, cujo interior também havia revistado sem sucesso, no capacho onde, com o tempo, me foi raspando das solas dos sapatos. E na avidez com que passou a declarar o seu amor por quem o não sente. Peças minhas há que já não serão recuperáveis a título de corpo de delito, quanto mais para o sonho cor-de-rosa da minha reconstituição. A única justiça possível, e talvez a única justiça desejável, será a minha presença perpétua, silenciosa. E sabê-lo repousa-me, finalmente, no além.

2010.07.26