Ocre

E.B., s.t. (Quarto com vista n.704), 2008

O Agosto já não é tão ocre. A cidade tem a(s) alma(s) devolvida(s) pela mundialização. As temperaturas baixaram para deixar passar o aquecimento global. As velhas só teimam na vetusta arquitectura que lhes resguarda a obstinação. Os assassinos tenteiam o protector solar para que a pigmentação lhes não traia o disfarce. O suor arrefecido nos lençóis é medido pela bitola da Direcção-Geral dos Recursos Florestais. O barulho que se faz, santo deus, o barulho que se faz. Os gatos de casa dão comida às utopias abandonadas na rua pelos veraneantes. O odor metálico alojou-se nas esquinas e tornou obsoletas as brigadas anticrime. O Abrupto, que as pessoas más tanto citam sem fabricar o devido enlace, fez-se o fotoblog[ue] mais cruel dos infoincluídos. Os adjectivos não se derretem por entre as fissuras dos ecrãs. Nem os sinónimos do amor ou a sua memória são já os mesmos.
Tecido
As traças foram-me ao fato de Rato Míquei que tinha guardado no guarda-fatos. Com tanta coisa para comer, tinham de escolher aquilo. Isso é que me lixa. Nunca o usei, é certo, mas sempre por bons motivos. Neste último Carnaval, porque estava um bocado achacado e resolvi ficar em casa. No do ano passado, porque não cabia dentro dele. No do ano anterior, porque me ficava ridiculamente largo. Nos outros, já não me lembro, não retenho informação com mais de três anos. Na verdade são três anos, cinco meses e vinte e quatro dias, mas, para o efeito, vai dar ao mesmo, porque o Carnaval de há três anos foi a oito de Fevereiro e, portanto, está para sempre perdido. Lembro-me do essencial: que foi por uma boa razão. É quanto me basta. Agora, para o ano que vem, já não posso ter a esperança de ser desta que reúno as condições necessárias para fazer a tão ansiada parelha com o Pateta. Ele não diz nada, mas eu sei que, a cada Carnaval que passa, ele veste o fato e espera que eu possa fazer-lhe companhia na palhaçada. Comprar outro? Isso não é assim. Um fato de Rato Míquei não é apenas um bocado de tecido que se enfia no guarda-fatos à espera das traças. Um fato de Rato Míquei é aquele ou não é nenhum.
Em terra de ceguinhos
A rua estava cheia de buracos, alguns deles crateras. Como era uma rua onde passavam muitos ceguinhos por causa de uma associação que existe nas proximidades, tiveram de a arranjar, porque os ceguinhos, ou alguém em seu nome, resolveu apresentar uma reclamação à câmara. O que nos valeu foram os ceguinhos, ou alguém em seu nome. O procedimento fez escola: agora, de cada vez que alguém reclama por causa das crateras na sua rua, a câmara manda uns estudantes à bolonhesa contar os ceguinhos que por lá passam todos os dias.

Esse número integra depois, juntamente com outros, uma fórmula de cujo resultado se retira a prioridade dada à requalificação daquela via pública face àquela habitadas por pessoas que não precisam de ser ceguinhas para terem a rua arranjada. As coisas não são assim tão simples, precisamente porque há outros factores em jogo (o número de criancinhas, o número de velhinhos, etc.), mas uma coisa é certa: os ceguinhos têm uma ponderação desproporcionada. Quem chega primeiro, coisa e tal. Quem vai por arrasto, é assim a vida.

Isto, claro, já fez surgir situações de aproveitamento pouco escrupuloso da fórmula. Há quem agora se dedique a deslocar ceguinhos de um lado para o outro da cidade, em carrinhas fretadas para o efeito, para que eles possam passar repetidamente nos vários sítios onde os estudantes estão a fazer as contagens. Olha, ao menos sempre passeiam, coitadinhos. As estatísticas da câmara são assustadoras. O número de velhinhos e de criancinhas também está a aumentar. Já ninguém sabe o que lhes há-de fazer. Não há quem nos valha.
Paralaxe
Disse-lhe que queria uma coisa simples e nua. Mostrei-lhe isto, para ver se percebia. Expliquei-lhe o meu gosto pela esterilidade, a aridez, o vazio. Que me sinto em casa na assepsia, no gelo. Que deveria haver apenas um fino rasgão, uma chamada aos surpreendidos, como uma cicatriz antiga que se transformou numa nova ruga. Toda a gente tem pelo menos uma fraqueza e esta é a minha. Podia ser pior, como lhe expliquei com exemplos (talvez demasiado) gráficos. Mas não creio que tenha chegado lá. Se ainda cá estivesse, tremeria com a antecipação dos resultados.
CATEGORIA: TEMPUS FUGIT, ETC.
Está tudo bem
Está tudo bem. Não precisa preocupar-se. Vá descansado. Não pense mais nisso. Quem dera muitos. Olhando para isto, dir-se-ia que foi encontrada a perfeição. Tudo em ordem, tudo limpinho. Uma estrutura em excelentes condições, como se fosse nova. Imaculada, intocada, pura. Nenhuma das suspeitas foi confirmada. A bem dizer, nem sequer eram desconfianças, eram cautelas. Precauções. Cuidados. Possibilidades. Isto são coisas que nunca se sabe. Porque a verdade é que nunca se sabe. E de hoje para amanhã. Por isso é que, amanhã, ainda lhe telefonamos a confirmar. Se não for amanhã é depois. E se não for depois é depois de depois. E por aí adiante. Mas não se preocupe. A sério. Está tudo bem.
Facilidades da língua portuguesa
Há estas modas ortográficas e gramaticais que alastram pela blogosphera, pela mídia, pelos cafés. Ele é a quase imposição jornalística do «entre quarenta a cinquenta» (ainda não ouvi ninguém dizer «entre um a outro», mas não há-de tardar); ele é o raio da grama, que nem os felídeos malcheirosos conseguiram recolocar decisivamente no masculino de onde nunca devia ter saído; ele é a atracção que uma boa parte da «classe» docente (de todos os graus de ensino, superior incluído, mesmo nas línguas e literaturas modernas — se calhar é de já serem pós-modernas — em prestigiadas universidades públicas) tem por produzir aqueles grandes momentos da língua que são os acentozinhos em tabú, perú, menú, Marilú e, até, nos insuspeitos e — por acaso ainda não vi em parte nenhuma, mas lá havemos de chegar. Irrita um bocadinho, mas um gajo vai-se habituando, especialmente se esse gajo tiver feitio que chegue para corrigir as pessoas, quaisquer pessoas, sem grandes cerimónias, como é o caso deste gajo que vos escreve.

Agora começou a espalhar-se uma nova moda. Pessoas que até há dias, semanas ou escassos meses escreviam bem, começaram a ser dominadas por uma pulsão incontrolável para acentuar mal as conjugações pronominais dos verbos. Abortos como «é difícil percebe-lo», «estava a pensar da-lo aos pobrezinhos» e «Atribui-la àquelas pessoas foi um erro» começaram, nos últimos tempos, a aparecer na blogosphera «bem escrita» (quanto à outra não vale a pena estarmo-nos a ralar) com a mesma frequência com que os estudantes de doutoramento em ciências sociais e humanas escrevem «concerteza», essa palavra de indiscutível utilidade, mas de classificação um tanto problemática. Ou com que dizem que, como não tiveram tempo para o ler, se limitaram «a desfolhar o livro», acção cujo propósito não consigo alcançar. Nuns casos, a moda alimenta-se da falta de mestria na penosa arte de colocar acentos nas palavras (são uns chatos, os acentos), noutros alimenta-se da falta de mestria na arte de ter uma vaga ideia do que se está a escrever e, consequentemente, a pensar, o que, embora na maior parte dos casos não tenha a mínima importância, não deixa de ser digno de nota. Noutros ainda, alimenta-se da excessiva dependência do corrector ortográfico, que, estupidamente, não sublinha a vermelho nem ama-la nem amá-la.

Por isso, talvez não seja pior trazer a este espaço, que também é vosso excepto na hora de pagar as contas, Celso Cunha e Lindley Cintra (olá Celso, olá Lindley), através da sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, reimpressa em 2005 pelas Edições João Sá da Costa, de Lisboa. Na p. 56, estes autores dizem-nos que:
«Os monossílabos podem ser átonos ou tónicos.

Átonos são os que pronunciados tão fracamente, que, na frase, precisam apoiar-se no acento tónico de um vocábulo vizinho, formando, por assim dizer, uma sílaba deste. Por exemplo:

Diga-me / o preço / do livro.

São monossílabos atónos:
(...)
b) os pronomes pessoais oblíquos me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes e as suas combinações: mo, to, lho, etc.
(...)»
Não contentes, Celso e Lindley ainda voltam à carga ao falar das regras de acentuação, na página 69 da mesma obra (que não é cara e está disponível em qualquer livraria decente):
«1ª Assinalam-se com o acento agudo os vocábulos oxítonos que terminam em a aberto, e e o semi-abertos, e com acento circunflexo os que acabam em e e o semi-fechados, seguidos, ou não, de s: cajá, hás, jacaré, pés, seridó, sós; dendê, lês, trisavô; etc.

Observação:
Nesta regra se incluem as formas verbais em que, depois de a, e, o se assimilaram o r, o s e o z ao l do pronome lo, la, los, las, caindo depois o primeiro l: dá-lo, contá-la, fá-lo-á, fê-lo, movê-las-ia, pô-los, qué-los, sabê-lo-emos, trá-lo-ás, etc.»
E, novamente, na página 71:
«4ª Põe-se acento agudo no i e no u tónicos que não formam ditongo com a vogal anterior: aí, balaústre, cafeína, caís, contraí-la, distribuí-lo, egoísta, faísca, heroína, juízo, páis, peúga, saía, saúde, timboúva, viúvo, etc.»
Mas para quem estas coisas são terrivelmente complicadas, A. Tavares Louro (Louro, há quanto tempo!) dá-nos, em Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, um exemplo bem mastigadinho do problema:
«N[a] perspectiva da terminologia tradicional, a palavra guarda-chuva é composta por justaposição. Em relação à acentuação destas palavras, cada um dos elementos mantém o seu acento próprio. O elemento guarda é grave e tem três sílabas, mas, para efeito de translineação, não devemos separar o conjunto "guar". O elemento chuva tem duas sílabas e é grave. Para efeito de translineação, devemos preferir a separação já feita pelo hífen.

A palavra retirá-lo é uma forma da conjugação pronominal do verbo retirar, também composta por dois elementos: a forma verbal trissilábica e aguda retirá- e o pronome pessoal enclítico. Note-se que este último é átono e, por isso, está sujeito ao acento fónico da palavra a que está ligado.
»
Está? Sim? Ficou? Vá, então.
Movimento
Não há escapadinha de três dias que não me imprima no espelho um reflexo sebastiânico (apesar de Sebastião, para mim, ser sempre mais o outro, o das setas, que não morria por mais que o matassem, que ainda ia ter de se apresentar composto, nessa mesma noite, ao júri da festa da espuma da axiologia. Por favor, não me perguntem, não me molestem, deixem-me ficar assim com isto. Não se deve brincar com o sofrimento dos outros, a não ser pelas costas, e há perguntas que não se fazem a uma senhora, a não ser que ela goste. Respeitem-me, em suma.) Por isso — receio — é que decidi ficar.
Opção inválida
Bom dia! Seja bem-vindo ao serviço de apoio ao cliente Marilu. A sua satisfação é o nosso objectivo.

Se já é cliente Marilu, prima 1. Se ainda não cliente Marilu, prima 2. Se não é nem quer ser cliente Marilu prima 3.

[1]

Se é cliente empresarial, prima 1. Se é cliente particular, prima 2.

[2]

Se deseja obter mais informações acerca dos nossos produtos e serviços, prima 1. Se pretende aderir ao nosso programa i-Marilu, prima 2. Se pretende tornar-se accionista do nosso grupo, prima 3. Se pretende fazer o upgrade do seu tarifário para outro que na prática é rigorosamente igual excepto no preço, prima 4. Se pretende obter apoio na configuração de algum equipamento, prima 5. Se pretende obter assistência na resolução de algum dos nossos infindáveis e amiúde irresolúveis problemas, prima 6. Se não faz ideia, prima 7.

[6]

Se o seu sistema operativo é Janelas XP, prima 1. Se o seu sistema operativo é Janelas com Vista, prima 2. Se o seu sistema operativo é um Janelas mais antigo, prima 3. Se o seu sistema operativo é Linuque-se, prima 4. Se o seu sistema operativo é Macoesse, prima 5. Se não faz ideia, prima 6.

[1]

Se o seu equipamento é um ACME 3480X USB 2.0, prima 1. Se o seu equipamento é um ACME 3490.3.2.5 Super Ultra Hiper Plus Mega Stick com oferta de 512 megabaites para armazenamento seguro da sua informação pessoal por apenas mais 5 euros (IVA incluído), prima 2. Se o seu equipamento é um ACME 2800 PCI, prima 3. Se o seu equipamento é um ACME 5900 USB 2.0 edição especial Flor&Bela, prima 4. Se o seu equipamento é um ACME X-Treme 700000 com oferta de um fim-de-semana para duas pessoas na Costa da Caparica, prima 5. Se o seu equipamento é um ACME X-CEPTIONAL 4000006 3,5G USB 2.0 MegaConnect, prima 6. Se não faz ideia, prima 7.

[7]

Se o seu equipamento foi comprado antes do dia três do dois de dois mil e cinco às dezassete e trinta e três, prima 1. Se o seu equipamento foi comprado entre o dia três do dois de dois mil e cinco às dezassete e trinta e quatro e o dia onze do sete de dois mil e cinco às catorze e dez, prima 2. Se o seu equipamento foi comprado entre o dia onze do sete de dois mil e cinco às catorze e onze e o dia três do um de dois mil e seis às onze e vinte sete, prima 3. Se o seu equipamento foi comprado entre o dia três do um de dois mil e seis às onze e vinte e oito e o dia um do nove de dois mil e seis às vinte e uma e trinta quatro, prima 4. Se o seu equipamento foi comprado após o dia um do nove de dois mil e seis às vinte e uma e trinta e cinco, prima 5. Se não faz ideia, prima 6.

[6]

Aguarde um momento, por favor. Se pretender, pode premir 1 para ouvir o último hit de Verão de que nos apropriámos aos berros enquanto processamos a sua informação.

Segundo o nosso sistema, as probabilidades de o seu equipamento ser um ACME 5900 USB 2.0 edição especial Flor&Bela comprado no dia vinte e seis do cinco de dois mil e seis às vinte e uma e quarenta na nossa loja do EscarafuncheiraShopping com o cartão de débito número [.... .... .... ....] são quatro vírgula setecentos e quarenta e dois em cinco. Prima 1 para continuar ou 2 para regressar ao início.

[1]

Se o seu equipamento é azul prima 1. Se o seu equipamento é vermelho, prima 2. Se o seu equipamento é roxo, prima 3. Se o seu equipamento é branco, prima 4. Se não faz ideia, prima 5.

[1]

Se o seu equipamento é azul bebé, prima 1. Se o seu equipamento é azul ultramarino, prima 2. Se o seu equipamento é assim mais tipo a fugir para o verde ou quê, prima 3. Se não faz ideia, prima 4.

[2]

Se gosta da cor do seu equipamento, prima 1. Se não gosta da cor do seu equipamento, prima 2. Se nunca reparou muito nessas coisas, prima 3.

[3]

Se já alguma vez recorreu ao nosso serviço de apoio ao cliente, prima 1. Se é a primeira vez que recorre ao nosso servico de apoio ao cliente, prima 2. Se não faz ideia, prima 3.

[1]

Por favor, digite o seu número de contribuinte seguido de cardinal, o seu número de conta seguido de cardinal, o seu número de cliente seguido de cardinal, o seu número de telefone seguido de cardinal e aquele número impresso a amarelo claro que vem na parte de trás da caixa onde veio o seu equipamento e que é constituído por vinte dígitos impressos num tamanho de letra minúsculo seguido de dois asteriscos, um cardinal e sete asteriscos.

[.........#...........#...........#.........#....................**#*******]

O número impresso a amarelo claro que vem na parte de trás da caixa onde veio o seu equipamento e que é constituído por quarenta dígitos num tamanho de letra minúsculo que introduziu não é válido. Por favor, tente outra vez.

[.........#...........#...........#.........#....................**#*******]

Se pretende assistência técnica para dificuldades de ligação, prima 1. Se pretende assistência técnica para dificuldades de conexão, prima 2. Se essa merda simplesmente deixou de funcionar, prima 3.

[3]

Se a luzinha é azul, prima 1. Se a luzinha é verde, prima 2. Se não há luzinha, prima 3.

[1]

Se gosta mais de praia, prima 1. Se gosta mais de campo, prima 2. Se gosta mais da cidade, prima 3. Se é igual ao litro, prima 4.

[4]

Se pretende que uma gravação lhe diga em ritmo acelerado e impossível de anotar quais os comandos extremamente complexos que pode executar numa tentativa muito provavelmente inútil de resolver o problema sem ter de passar mais meia hora a premir teclas no seu telemóvel, prima 1. Se pretende falar com um ou uma dos ou das nossos ou nossas simpáticos ou simpáticas assistentes ou assistentas, prima 2.

[2]

Se prefere falar com um dos nossos apetitosos mancebos cheios espírito de iniciativa e completamente ignorantes acerca de todas as questões relevantes para a resolução do seu problema, prima 1. Se prefere falar com uma das nossas jeitosas moçoilas espertas que nem um alho que nunca usaram um computador para mais que enviar emoticões através do Mensageiro das Janelas, prima 2. Se pretende que o nosso supercomputador seleccione pseudoaleatoriamente um ou uma dos ou das nossos ou nossas simpáticos ou simpáticas assistentes ou assistentas, prima 3.

[3]

O nosso supercomputador seleccionou uma das nossas jeitosas moçoilas espertas que nem um alho que nunca usaram um computador para mais que enviar emoticões através do Mensageiro das Janelas. Lamentavelmente, nenhuma das nossas jeitosas moçoilas espertas que nem um alho que nunca usaram um computador para mais que enviar emoticões através do Mensageiro das Janelas está disponível de momento. Se pretende ser atendido ou atendida por um dos nossos apetitosos mancebos cheios espírito de iniciativa e completamente ignorantes acerca de todas as questões relevantes para a resolução do seu problema, prima 1. Se pretende esperar até que uma das nossas jeitosas moçoilas espertas que nem um alho que nunca usaram um computador para mais que enviar emoticões através do Mensageiro das Janelas acabe as suas coisinhas, prima 2.

[1]

Se pretende ser atendido por um assistente de voz grave e sensual, prima 1. Se pretende ser atendido por um assistente de voz rouca e sensual, prima 2. Se pretende ser atendido por um puto estúpido de voz nasalada e irritante que recebe uma quantia irrisória de dinheiro para fazer aqui umas horas por semana enquanto tenta fazer um curso de informática que dá equivalência ao nono ano, prima 3. Se tanto lhe dá como lhe deu, prima 4.

[4]

Se gosta mais da mamã, prima 1. Se gosta mais do papá, prima 2. Se não quer dizer, prima 3.

[3]

Se já fez a descarga e instalação do nosso software inteiramente gratuito que pretende resolver alguns problemas da porcaria de software original que ia com o nosso equipamento mas que na realidade não tem qualquer efeito visível sobre o funcionamento do mesmo, prima 1. Se ainda não fez a descarga e instalação do nosso software inteiramente gratuito que pretende resolver alguns problemas da porcaria de software original que ia com o nosso equipamento mas que na realidade não tem qualquer efeito visível sobre o funcionamento do mesmo, prima 2. Se não faz ideia, prima 3.

[1]

Se ainda está connosco, prima 1. Se está a dormir, prima 2. Se está capaz de nos ir às fuças, prima 3. Se começou a babar-se pelos cantos da boca, desligue e marque o 112.

[3]

A sua chamada está a ser transferida para um dos nossos assistentes. O tempo de espera estimado neste momento é de sete horas e dois segundos. Se pretende esperar, prima 1. Se prefere mandar uma mensagem ao nosso serviço de apoio ao cliente através de um formulário existente no nosso sítio electrónico inavegável que apenas permite que se enviem mensagens com um máximo de cinco caracteres e mesmo isso só no caso desse formulário estar a funcionar, prima 2, desligue e aceda ao nosso sítio electrónico. Se não consegue aceder ao nosso sítio electrónico porque o seu equipamento não está a funcionar e é precisamente por isso que está a telefonar-nos, prima 3.

[3]

A opção que escolheu é inválida. Se já é cliente Marilu, prima 1. Se ainda não cliente Marilu, prima 2. Se não é nem quer ser cliente Marilu prima 3.
Bicha
Nada tenho contra os pescadores desportivos. É certo que se trata de pessoas que matam por desporto, que aproveitam as abertas no tempo para assassinar peixes indefesos de forma cruel: usando a sua fome para os atrair ao cadafalso. Mas, paradoxalmente, a pesca desportiva é pretexto para a prática da meditação em sítios belos e pacíficos. O rochedo recôndito, o rio debruado a salgueiros-chorões, o areal infinito, o esporão que se perde nas ondas, etc. Mal por mal, entregue aos cuidados dos pescadores desportivos, o mundo seria um local muito melhor para se viver, com menos guerra e injustiça, do que nas mãos incógnitas das vendedoras de bicha branca.
Absolutamente relativo
Quando vim morar para este lugar, logo reparei no enorme e pachorrento Terra Nova preto que uns vizinhos mantêm numa pequena garagem, suficiente para não mais que motociclos ou carros anormalmente curtos. Removeram o portão, fizeram um «avançado» de lençóis velhos e rede de plástico, prenderam à parede uma trela, e à outra ponta da trela o Terra Nova de latido cavo, incomodativo, que me perturba as noites e as letras. No início, imagine-se a minha capacidade para a fantasia, ainda quis imaginar que se tratava de pessoas que habitaram uma casa com condições para ter um cão daquele porte até ao momento em que, por um infortúnio não programado, se viram obrigadas à mudança para um pequeno apartamento, onde não tiveram outra solução para o animal. Não durou muito a minha ilusão, que terá sido logo trocada por outras mais fáceis de alimentar. Acima de tudo, há que ser prático.

Todos os dias alguém da família vai dar um passeio com o cão. A maior parte das vezes é o velho bêbedo, que aproveita para também passear o Xau-xau que a família mantém no interior do apartamento, provavelmente para aquecer os pés no Inverno. Bêbedo mas brand conscious, portanto. Outras vezes é o filho bêbedo do velho bêbedo que leva apenas o Terra Nova até à tasca das redondezas onde passa as noites a perpetuar o seu estado favorito. A esposa e mãe dos bêbedos, com todo o ar de quem carrega às costas o peso do vício preferido do resto da sua família nuclear, apenas passeia o Xau-xau, provavelmente porque o controlo do Terra Nova, bastante maior que ela, excede as suas aptidões físicas de pequena e mirrada sexagenária.

Aparte esse passeio diário, a vida do Terra Nova passa-se na pseudogaragem, atrás dos taipais, dormindo enquanto as pombas lhe vão à água e à comida empapada pelo calor, ladrando sempre que se apercebe da presença de um gato — e há por ali muito gato — ou de alguém estranho que passa. Digamos que há, portanto, um incómodo duplo: o de saber ali o animal numa vida que nem a um dirigente desportivo me atreveria a desejar e o incómodo de ser a vítima acústica da desumanidade a que o sujeitam. Dir-se-á que estou a pagar pela espécie, numa versão sincrónica da tão louvada responsabilidade diacrónica que só costumamos reconhecer entre humanos. Objecto, antropocêntrico, generalizante, sequioso de uma culpa que me aplaque os maus fígados, que a alegria que o pobre animal demonstra sempre que vê os seus algozes contribui para a relativa falta de respeito que os cães tendem a inspirar-me. Mas arrefeço a minha ira honestamente: não admira que as pessoas ainda mo inspirem menos.
Ataraxia
O outro, que aconselha um sítio electrónico onde poderei regalar-me com inúmeras senhoras, todas com mais de dezoito anos, a fazer coisas abomináveis aos olhos do senhor com animais.

A outra, que me dá conhecimento de um texto, falsamente assinado por uma figura pública, em que são reveladas as verdadeiras ligações entre alguns membros da entourage do primeiro-ministro da República Portuguesa e o maior grupo mundial de distribuição de ambientadores de casa-de-banho com cheiro a ganza.

O outro, que entende que eu estou interessado na brochura que ele lançou e para cuja promoção conta apenas com a publicidade não solicitada que ele próprio envia para as moradas de correio electrónico que andou a recolher pela blogosphera.

A outra, que nem sei se conheço, que partilha comigo e toda a sua lista de contactos um sítio electrónico carregado de clipartes e guifes animados dedicados acordar as nossas consciências individualistas para o problema do aquecimento global.

O outro, que diz que ou eu lhe pago até ao fim da semana ou ele fará algo de verdadeiramente inovador a partir da minha cara.

A outra, que me oferece a possibilidade de comprar um vasto rol de produtos farmacêuticos para a disfunção eréctil, calvície e unhas encravadas, tudo a preços que só visto.

O outro, que faz anos e, pela segunda vez consecutiva, se esqueceu de não me convidar.

A outra, que me vem anunciar as enormes vantagens que passarei a ter sobre a restante população mundial por ser o portador de um cartão de cliente da livraria a que nunca vou por ficar fora de mão e de cujas fantásticas ofertas nunca usufruí e, muito provavelmente, nunca usufruirei.

O outro, que descobriu que eu só atingirei o grande objectivo de ser a inveja da minha comunidade se subscrever imediatamente um curso interactivo de fotochope com direito a apoio ao cliente vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

A outra, que descobriu que o que eu realmente quero da vida é alcançar a paz com o meu eu interior através da prática de um conjunto de exercícios elaborados pelo professor de uma universidade brasileira de quem nunca ninguém ouviu falar.

O outro, que há tanto tempo que não falamos, que é feito de mim, abraço, alcunha.

A outra, que insiste que eu escreva o meu nome no final do email e reenvie para mais dez pessoas porque alguém lhe disse que, quando chegar aos mil nomes, uma conhecida multinacional de telecomunicações desembolsará rios de dinheiro para ajudar os pós-coloniais que passam fome.

O outro, que está à minha disposição no caso eu pretender publicar os magníficos textos que blogo, ou outros igualmente deslumbrantes que queira tornar públicos, na condição de ser eu próprio a pagar as despesas todas, pequeno problema que poderei paliar através do recurso a uma das simpáticas soluções de financiamento que ainda mais simpaticamente ele coloca à minha disposição.

A outra, que só me quer mostrar, a mim e a outras trezentas e setenta e três pessoas, uma descomunal mas muito divertida apresentação de diapositivos com fotografias de animais fofinhos destruídas pelo cada vez mais grave problema da pixelização.

O outro, que me convida a adquirir a nacionalidade canadiana sem espinhas.

A outra, que considera que eu posso estar interessado num workshop (num quê?) de autodefesa, porque como isto anda nunca se sabe.

O outro, que me alerta para o facto de o governo se estar a preparar para aprovar legislação que poderá ter como consequência a invasão dos nossos supermercados por feijoca do Paraguai.

A outra, que só fica contente quando eu souber que, se precisar de aumentar o meu pénis em pelo menos uma polegada, é com ela que devo falar.

O outro que me manda umas anedotas.

A outra, que me indaga acerca da possibilidade de eu querer ficar com o hamster chamado Dão da vizinha velhinha que se finou anteontem, deixando o pobre roedor só e desvalido num mundo de e para bípedes.

O outro, que me quer ver o mais rapidamente possível com um doutoramento californiano reconhecido na maioria dos estados da outra união.

A outra, que tem agora a melhor escolha de artigos feitos à mão para o meu bebé.
O bom sentido
Resolveu levantar-se mais cedo para ir lá fora apanhar ar. O ar por estas bandas nem sempre se deixa apanhar com facilidade, e muito menos por desconhecidos. Foi o caso. Encontraram-na, azulada, por baixo do Populus alba do quintal, com as mãos em torno na garganta. Um sinal inequívoco de que penou até expirar, Jeová a tenha. Se não dei por nada. Não dei por nada. Àquelas horas, só dou pelo que me penetra, no bom sentido, e mesmo quanto a isso não há garantias. Mesmo que tivesse dado, pouco poderia ter feito. Perder quarenta e dois quilos em dois meses não é fácil, especialmente com duas tentativas de suicídio pelo meio. Uma com as lâminas de barbear. Nunca fui bom com aquilo. Outra através da ingestão dos antidepressivos necessários a evitar suicídios durante dois meses. O esófago ainda faz sentir a sua presença pelas noites atormentadas fora. E as cruzes, senhores, as cruzes, custa-me tanto a levantar.
Revelatio
A esperança é um osso. Um osso minúsculo, menor que um estribo, que nos prende ao que poderíamos segurar. Só assim é possível que um morto remexa mais que os vivos. Que um adeus valha mais que os vivas. Que És a minha droga acabe em Estava-se mesmo a ver que quando abrisses os olhos. Que não se consiga salvar quem termina (e menos ainda quem começa) com Para sempre, por mais que os restos sejam belos, o passado temperado e o futuro ansiosamente passado. Se a esperança fosse um músculo, longo como um sartório ou curto como um estapédio, conforme as tradições da latitude nos pretenderam ensinar, nada disto seria assim.
Epidemiologia
É que uma pessoa fala nas coisas e elas acontecem. Eu até já tenho medo de abrir a boca. É cada tiro, cada melro. Cada cavadela, cada minhoca. Acordo anguistiado com o que as minhas palavras de ontem estarão a planear fazer-me ao dia de hoje. Fecho os olhos e vejo enormes estuturas cheias de rebites apoiadas na minha cabeça jazente. O melhor é ir para os subterrâneos, isolar-me e definhar. A palavra para isto já nem é medo, é..... É outra. Outra, ouviu, outra. E já agora é meio quilo dessas aí mais verdinhas, dona Vina, se fizer o favor, que lhe pago amanhã.
Nova Ordem Mundial
Num búnquer subterrâneo, ultra-secreto, situado trezentos e cinquenta metros abaixo de Vatican City, o Dr. Octopus congemina o seu novo plano para dominar o mundo. O Dr. Octupus escolheu chamar-se assim porque tem três braços e cinco pernas. (Uma mutação provocada pela exposição a qualquer coisa quando andava na faculdade, não sei, não interessa.) E porque, por acaso, também era esse o nome do seu vilão preferido nos Marvel Comics que lia no tempo em que era a criança que nunca foi. No meio da desgraça, uma coincidência feliz.
Aubiana
O coração dele batia mais rápido quando a tomava pela cintura. Ela sentia-se voar quando o media pelas clavículas. Viviam um amor silvestre, numa quintinha dos arredores atravessada por um regato fresco e rumorejante, por entre lírios e ao som de passeriformes. Tinham uma actividade sexual entre trinta e quarenta por cento acima da média dos casais da sua idade na UE27. Faziam brincadeiras vespertinas com os dedos dos pés. X ficava triste quando Y tinha dói-dói. Tinham aderido a um tarifário com chamadas grátis entre os dois por apenas mais cinco euros por mês. Planeavam inundar a terra habitável com uma imensa prole.
Esperteza de musaranho
O musaranho-dos-canaviais (Sorex bardissimus) é um pequeno mamífero que habita várias regiões lagunares da Península Ibérica. O musaranho-dos-canaviais quase não dorme e vive solitário, exceptuando curtos períodos anuais de acasalamento, comendo incessantemente os pequenos insectos que constituem a base da sua alimentação. O musaranho-dos-canaviais apresenta sinais de adesão a uma concepção de liberdade que, embora acidentalmente tingida de Kant, desemboca num individualismo instransigente, cego e bastante improdutivo. Não é que o musaranho-dos-canaviais seja estúpido, não foi é feito para certas coisas. O musaranho-dos-canaviais é um bicho bastante do mato que só raramente interrompe o seu trabalho de sobrevivência (ou vice-versa) entre o restolho e sai a terreno descoberto para apanhar um pouco de sol. Mesmo nesses momentos, o musaranho-dos-canaviais adopta a postura recurvada de quem não se sente seguro e emite constantemente os guinchos ultrassónicos de que depende para situar. O musaranho-dos-canaviais gosta muito de se situar. Mas é nesses breves momentos que o musaranho-dos-canaviais se torna vítima da mosca-chinfrineira.

A mosca-chinfrineira (Phaenicia sonitus) é um díptero que se alimenta de artrópodes ainda mais pequenos que ele e que habita vastas regiões da Europa e Ásia, incluindo as regiões lagunares habitadas pelo musaranho-dos-canaviais. A mosca-chinfrineira é conhecida pelo irritante zumbido que produz durante a época de acasalamento e que, dizem algumas lendas, pode levar uma pessoa à loucura ao fim de apenas trinta segundos. A mosca-chinfrineira está sempre em época de acasalamento e as fêmeas apenas se silenciam quando estão vai que não vai para depositar os ovos. Os machos nunca se calam, mas felizmente existem em muito menor número que as fêmeas. A Mãe Natureza pode ser um bocado porca, mas nem por isso deixa de ser sábia. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Adiante. A mosca-chinfrineira deposita os ovos no musaranho-dos-canaviais, quando o encontra num dos seus breves momentos de estabilização psicológica ao sol. A mosca-chinfrineira pousa no musaranho-dos-canaviais, pica o musaranho-dos-canaviais e deposita os ovos na camada adiposa que o musaranho-dos-canaviais tem por baixo pele. Passados uns dias, os ovos da mosca-chinfrineira eclodem na banha do musaranho-dos-canaviais, da qual as larvas se alimentam na sua fase inicial de crescimento. Quando as larvas da mosca-chinfrineira atingem aproximadamente o quádruplo do seu tamanho inicial, uma infecção subcutânea alastra pelo pequeno corpo do musaranho-dos-canaviais, provocando-lhe uma dolorosa morte de chagas e pústulas. Mas, uma vez que o musaranho-dos-canaviais ainda não está ameaçado de extinção, nada disto importa. Da mosca-chinfrineira nem falar mais é bom.
A Grande Máquina Cósmica
Fui ao W.C. das ex-galerias abandonadas. Uma parte das lâmpadas estava esvaída, dando ao espaço uma vibração insalubre. As cabinas, com excepção de uma, usavam a ausência de portas para exibir a todos, temerários e temerosos por igual, o espectáculo das pequenas e médias misérias humanas. A excepção com porta estava, na ocasião, ocupada por alguém que, com vigoroso cometimento, se encarregava de a não fazer destoar do conjunto. O cheiro, abominável, era impossível de suportar por mais que uns segundos com o nariz a descoberto. O chão, uma extensa poça rasa nascida do descuido e da agonia da canalização. Escolhi o terceiro mictório a contar da entrada. Estava entupido, cheio até ao rebordo com um bom litro de urina escura. Não sei se ainda está assim e, caso esteja, por quanto tempo mais estará: desconheço o carácter da manutenção daquela sentina, mas aparenta ter um período de retorno geológico. Ou então é só um medo religioso de interferir na Grande Máquina Cósmica. Escolhi o espaço mesmo ao lado do «mamo bem» seguido de um velho nove três vagamente obliterado pelos vapores corrosivos. Um pouco abaixo do «sou gay até 30 anos» adido a um nove seis que tem atravessado os anos sem mácula. Usei tinta para acetatos de boa marca, daquelas que não saem nem por nada. Não que dê como provável a hipótese da sua remoção: a lógica dos usufrutuários é de acumulação, não de substituição. Mas fui bem ensinado a jogar pelo seguro. Voltarei lá para verificar o estado do teu número de telemóvel todas as semanas. Certo de que sabes que só me ocupa o teu bem-estar. Sempre à sexta-feira. Fazendo disto minha missão. Às 18:52. Em ponto. Faça sombra ou faça sol.
Early Morning Roundness / Dias com menos árvores


When there is no shape there is round. Round has no shape; no more than a raindrop or a human tear...

And though the organs that focus the world are round, we have never been happy with roundness; how it allows no man to rest. For in roundness there is no place to stop, since all places in roundness are the same.

Thus the itch to square something. To make a box. To find a proportion in a golden mean...


Russell Edson, «Round»
A frente, a estrada
Esta semana fui a Lisboa, por razões que não são da vossa conta. Ao lutar pelo regresso, dei comigo a comer um gelado em frente à Estação de Santa Apolónia, agora limpinha, com bom aspecto e metro, maugrado o estado deplorável em que está o quadro electrónico. Cornetto de manga e iorgurte, da Olá, passe a publicidade. Finda esta empresa, iniciei a de enrolar um cigarro. High Leaf, mortalhas Smoking nº 5 red, slim filter da Rolling, passem as publicidades.

Estava a escassos metros dos semáforos na Infante d. Henrique e, por reflexo, olhei de relance para os carros que acabavam, nesse instante, de parar no vermelho fresquinho. O primeiro de todos na faixa da esquerda, ou seja, na faixa mais distante do passeio em que eu estava a desempenhar as minhas funções, era um modelo alemão grande e preto (acabou-se a publicidade) que transportava o General Ramalho Eanes, ex-presidente da República, e o seu motorista, à frente, e a Dra. Manuela Eanes, ex-primeira-dama, atrás.

O relance serviu para identificar o General, mas uma vez que se tratava, cf. parágrafo anterior, de um mero reflexo, os meus olhos aproveitaram o tempo cada vez mais longo que o meu cérebro demora a processar qualquer tipo de inputs para regressar ao futuro cigarro. Mas, uma vez digerida a informação visual, logo o tal cérebro ordenou aos tais olhos que fossem mais uma vez ao General, para tradução e notas.

O general olhava para mim e, ao ver-me olhar novamente para ele, desviou rapidamente os olhos para outro lado, que neste caso foi a frente, a estrada. Como sou um bocado insolente, deixei os meus fixos no general, deixando as mãos sozinhas no que faltava resolver da sua tarefa. Nem dois segundos foram precisos para que o general cedesse à tentação de olhar novamente para mim, mas ao ver que eu continuava em modo starstruck, virou-se para a frente com um ar mais resoluto.

Houve então uma escolha a fazer. Ficar a olhar para o general na esperança de que ele voltasse a olhar para mim ou procurar outro alvo? Como sou um bocado instável, deixei os meus olhos resvalar pelo carro fora até chegarem ao local ocupado pela ex-primeira-dama. Afundada no banco de trás, A Dra. Manuela Eanes também olhava para mim fixamente. Deixei os meus olhos nos dela durante pouco tempo: o semáforo acabava de virar para o verde e o carro arrancou. A expressão da ex-primeira-dama perturbou-se quase imperceptivelmente, o seu olhar triste desfocou, mudou para um alvo indefinido e voltou, por uma fracção de segundo, a pousar na minha figura. Nesse momento, o carro saiu do meu campo de visão.

Esta última ocorrência não é comparável à descrita uns parágrafos acima (não pretendo quantificar com exactidão), relativa ao cônjuge da pessoa envolvida. A minha intervenção é pura num caso e infecciosa noutro, há uma breve história entre elas que tudo inquina, o contexto mudou. Confesso que senti uma certa frustração por não estar ao lado de alguém a quem pudesse perguntar Tu viste aquela cena? e me respondesse que sim.
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