O Momento da VerdadeTM, apresentado por Teresa Guilherme, que passa às terças à noite (e repete aos domingos) na Sique, é responsável por Momentos de Televisão verdadeiramente sublimes. (Ou serão patéticos? Adiante, não vá alguém lembrar-se de me acusar de iluminismo na forma tentada).
Convém esclarecer que, apesar de tudo, sou uma pessoa que deplora a humilhação, ainda para mais se esta for pública. (Mas não será toda a humilhação, de certa forma, pública? Adiante, não vá alguém lembrar-se de me acusar de ser de esquerda).
Mas aquele programa, aquele magnífico programa, tem a capacidade de soterrar os meus vagos pruridos de pequenòburguês suburbano sob a orgia de voyeurismo&schadenfreude que me toma as ideias. (Ver, a este propósito, e desde já aproveitando para fugir com o proverbial rabo à ainda mais proverbial seringa, o que se disse do iluminismo na forma tentada há dois parágrafos).
Eu sinto-me bem com isto? Curiosamente, sim. E, por muito que me doa confessá-lo, este manto de paz que sufoca a vergonha emprestada vem agarrado às bainhas da conformidade: o que me preocupa ali são as famílias. (Famílias aqui entendidas num sentido tão amplo e desconforme que as faça cair na armadilha cósmica da sua própria massa).
Que o programa, enquanto objecto delimitado estritamente pela matéria de factóide, seja uma valente trampa, é irrelevante. Que fazer depender qualquer coisa — e não estamos a falar de uma coisa qualquer — dos resultados de um obscuro teste de polígrafo nos situe no campo da mais imaculada boçalidade, é um bocejo. Que as perguntas sobre as quais se constrói o programa sejam filhas da devassa da vidinha privada dos exibicionistas ingénuos que lá vão tentar arranjar o que comer, é de somenos. Que este peixe de olho baço e guelra seca ainda sirva para uns empadões mal cozinhados pela Dra. Ferro Rodrigues, é apenas uma larada.
O que está ali, entre concorrentes e suas entourages, que lhes permitiu chegar tão perto, e o filme extravagante da distância que poderão ainda percorrer com o lastro do que ali ocorre, isso sim, vale a pena. O Momento da VerdadeTM, independentemente das alegrias técnicas a que nos possa sujeitar, é a melhor aposta na (desconstrução da) ficção nacional que já passou pelos olhos de quem tem o sinal aberto. É triste que nem toda a gente perceba isto. |