Deveria sentir-me contente com as minhas capacidades quando consigo condensar uma pessoa numa só palavra (um substantivo, no caso)? E a ponto de quê? De marcar um jantar com quem reconhecesse a minha mestria? De pagar uns copos mesmo a quem a não reconhecesse? De ter um acto de condescendência para com a entidade (a condensação pode ter-lhe negado a humanidade) condensada? O Verão terá mesmo seis meses daqui a cinquenta anos? Esta gente saberá do que está a falar? E, tendo em atenção a esperança média de vida e o estilo de vida de entidades (esse estilo pode ter-me exponenciado a humanidade) como eu, será provável que eu ainda cá ande para lhes apontar o dedo? Será negro o futuro do livro? Será salvo pelos ecrãs desdobráveis com circuitos transparentes? E, se a condensação se revelar injusta, terão de me devolver os pratos, os copos e a soberba?
A luz do meu frigorífico não se apaga quando lhe fecho a porta. Está sempre apagada. Fundiu-se há meses e nunca cuidei de a substituir. |