Temo ter causado danos irreversíveis. Mas temo mesmo, não é maneira de dizer. De que já não haja nada a fazer para impedir que o pior aconteça. Temo muito, imenso. Tanto que optei, em consciência e com o meu próprio consentimento escrito, por me embriagar em casa, sozinho.
A persistência da minha médica de familia mononuclear em deixar de ceder a chantagens e forçar-me à abstinência, os atrasos nos correios, uma operação stop da brigada de trânsito e o que ainda falta para a primavera, levaram-me a redescobrir os prazeres do álcool. Meti Ladytron, Fischerspooner, Goldfrapp, Patrick Wolf, Cansei de Ser Sexy e Junior Boys — não me lixem, «In the Morning» é o melhor hit single de usar e deitar fora da última meia hora — no meu poderoso e funcional Sóni FUFMEKWV-903-HY3-LPGDSFNQ em shuffle&repeat e embriaguei-me em casa, sozinho.
A mistura original também incluía Placebo e Beirut, mas cedo percebi que estas adições poderiam produzir passagens aleatórias atentatórias do futuro do universo. Tropeçar de «Deep Blue» para «Prenzlaurberg» ou de «Koko» para «Post Blue» seria o suficiente para perturbar o equilíbrio vulnerável de que a manutenção desta esterqueira depende como a estabilidade dos mercados financeiros internacionais do dinheiro dos contribuintes americanos. Poderia sempre, e não foi que não me tivesse ocorrido, confiar na sorte, mas achei, creio que acertadamente, que essa aposta corria riscos muito sérios de estilhaçar os limites da boa vontade etimológica. E então desisti, desisti e embriaguei-me em casa, sozinho. |