Refluxo
O fim de tarde da última tarde é sempre igual: a angústia da estada junta-se à angústia da estrada, criando um agradável ardor no peito que nos impede de respirar correctamente. Deve ser isto aquilo a que chamam felicidade. Com sorte, consegue-se um ataque de pânico, mesmo que só com sintomas limitados. A água estava Fria. Era necessária uma dose saudável de masoquismo para se conseguir entrar, outra bem maior para se poder sair.
Este-Oeste
Abri as janelas (duas vezes par sobre par) ao início da noite para encher a casa com os ares imponentes que o Outono do Centro-Norte nos está a trazer este ano. Não sei se já repararam. Deve ser isto aquilo a que chamam felicidade. Durante vinte e dois minutos, os recortes chineses esvoaçaram, mal se segurando à parede. O saco das compras fez o Este-Oeste que lhe cabia percorrer. O copo de cinco que trouxe da tasca do senhor António um pouco depois de 1986 tombou, derramando o fundo de favaios com vestígios pouco efervescentes de acetilcisteína sobre o Bot[t]o aberto. Há meia centena de quilos quilos era capaz de me ter ralado ao ponto do espirro. E mesmo aí, duvido. Agora, lá se foi o Bot[t]o aberto. As fotocópias úteis para uma inactividade anterior depositaram-se contra a parede. Anotações extraviadas entraram-me pelo candeeiro de pé dentro.
جبل موسى (reprise)
Deveria sentir-me contente com as minhas capacidades quando consigo condensar uma pessoa numa só palavra (um substantivo, no caso)? E a ponto de quê? De marcar um jantar com quem reconhecesse a minha mestria? De pagar uns copos mesmo a quem a não reconhecesse? De ter um acto de condescendência para com a entidade (a condensação pode ter-lhe negado a humanidade) condensada? O Verão terá mesmo seis meses daqui a cinquenta anos? Esta gente saberá do que está a falar? E, tendo em atenção a esperança média de vida e o estilo de vida de entidades (esse estilo pode ter-me exponenciado a humanidade) como eu, será provável que eu ainda cá ande para lhes apontar o dedo? Será negro o futuro do livro? Será salvo pelos ecrãs desdobráveis com circuitos transparentes? E, se a condensação se revelar injusta, terão de me devolver os pratos, os copos e a soberba?

A luz do meu frigorífico não se apaga quando lhe fecho a porta. Está sempre apagada. Fundiu-se há meses e nunca cuidei de a substituir.
Sentimentos
Mas suicidam-se muito, os nossos modelos (inalcançáveis, etc.), provavelmente por se fartarem da vida longe do desafio visível da miséria que são forçados a levar. E agora também se massacram na escola de uma forma incomparavelmente mais definitiva que a nossa, certamente por passarem tempo a mais no poço da perversidade electrónica desde tenra idade. Às famílias e comunidades enlutadas, os nossos sinceros e condoídos sentimentos lusitanos, a nossa mais sincera solidariedade europeia e o nosso melhor obrigado. Sois o nosso refrigério.
O mesmo dia
Será do desencanto? Da prosa? Do canto? Os olhos tristes, de morena abandonada, atraem e repelem no mesmo longo entrefechar; o passo aéreo, com que percorre a calçada sem rumo vivido, fá-la vítima única de um bando fiel de perseguidores temerosos que esgotam o acto no acto. Um meio para um meio, um fim sem fim. Toda a gente lhe conhece a inclinação, antes de mais a própria polícia e outras entidades oficiosas que possam ser chamadas à liça. Foram alertadas pela prevalência dos costumes e não há um processo decorrente que salve esta pendência de um excesso no quadro das ditas: é mesmo assim, e quando deixar de o ser, será. Embriagou-se, ontem à noite, e fez o que dela não se antevia. Por sorte, cautela ou estranhamento, ninguém o soube ou noticiará. Do contacto familiar, quase amador, com o depósito das cinzas, nem a sua memória grava provas que a desacreditem, mais tarde, perante o júri malicioso que lhe vai facultando a passagem do caso. Amanhã será, logo, o mesmo dia.
Auto-retrato
no fim do último Verão

O Verão terminou hoje às 16:44.
Aposta na ficção nacional
O Momento da VerdadeTM, apresentado por Teresa Guilherme, que passa às terças à noite (e repete aos domingos) na Sique, é responsável por Momentos de Televisão verdadeiramente sublimes. (Ou serão patéticos? Adiante, não vá alguém lembrar-se de me acusar de iluminismo na forma tentada).

Convém esclarecer que, apesar de tudo, sou uma pessoa que deplora a humilhação, ainda para mais se esta for pública. (Mas não será toda a humilhação, de certa forma, pública? Adiante, não vá alguém lembrar-se de me acusar de ser de esquerda).

Mas aquele programa, aquele magnífico programa, tem a capacidade de soterrar os meus vagos pruridos de pequenòburguês suburbano sob a orgia de voyeurismo&schadenfreude que me toma as ideias. (Ver, a este propósito, e desde já aproveitando para fugir com o proverbial rabo à ainda mais proverbial seringa, o que se disse do iluminismo na forma tentada há dois parágrafos).

Eu sinto-me bem com isto? Curiosamente, sim. E, por muito que me doa confessá-lo, este manto de paz que sufoca a vergonha emprestada vem agarrado às bainhas da conformidade: o que me preocupa ali são as famílias. (Famílias aqui entendidas num sentido tão amplo e desconforme que as faça cair na armadilha cósmica da sua própria massa).

Que o programa, enquanto objecto delimitado estritamente pela matéria de factóide, seja uma valente trampa, é irrelevante. Que fazer depender qualquer coisa — e não estamos a falar de uma coisa qualquer — dos resultados de um obscuro teste de polígrafo nos situe no campo da mais imaculada boçalidade, é um bocejo. Que as perguntas sobre as quais se constrói o programa sejam filhas da devassa da vidinha privada dos exibicionistas ingénuos que lá vão tentar arranjar o que comer, é de somenos. Que este peixe de olho baço e guelra seca ainda sirva para uns empadões mal cozinhados pela Dra. Ferro Rodrigues, é apenas uma larada.

O que está ali, entre concorrentes e suas entourages, que lhes permitiu chegar tão perto, e o filme extravagante da distância que poderão ainda percorrer com o lastro do que ali ocorre, isso sim, vale a pena. O Momento da VerdadeTM, independentemente das alegrias técnicas a que nos possa sujeitar, é a melhor aposta na (desconstrução da) ficção nacional que já passou pelos olhos de quem tem o sinal aberto. É triste que nem toda a gente perceba isto.
A grande guerra dos óleos alimentares is about to begin
É um bom sítio para esperarmos, à beira da arriba fóssil, que o vento catabático nos trate da saúde. Pode ser preciso esperar até que a a calma se transforme em acção decisiva afirmativa proactiva, mas vale a pena. Do que gosto mais? Da calma. De como se transmite. Já não conseguiria viver sem ela. Do sentido de humor, que, por lapso, não referimos anteriormente. Do sorriso. Do sono, também.
جبل موسى

(o que não pode caber num nome)
Interposta digitália
Queres desistir? Desiste. Queres chorar? Chora. Queres ficar? Fica. Queres poupar? Poupa. Queres dormir? Dorme. Queres mimar-te? Masturba-te. Queres Comer? Come. Queres escrever? Escreve. Queres queixar-te? Masturba-te. Queres gravar? Grava. Queres correr? Corre. Queres desistir? Desiste. Queres mergulhar? Mergulha. Queres imitar? Imita. Queres querer? Quer. Queres ir? Vai. Queres ficar? Fica. Queres arremessar? Arremessa. Queres iluminar? Ilumina. Queres fumar? Fuma. Queres resvalar? Resvala. Queres desenhar? Desenha. Queres desenhar-te? Masturba-te. Queres mensajar? Mensaja. Queres desistir? Desiste. Queres fingir? Finge. Queres desistir? Desiste. Queres ficar? Fica. Queres andar? Anda. Queres avisar? Não precisas.
(V)ida e volta
Mudei tudo. O fundo e a protecção de ecrã do computador, o toque do telemóvel, o tema da minha página pessoal no aiGugol, a intensidade luminosa do rádio-despertador, o ecrã de boas vindas da máquina fotográfica, os bipes do gravador digital, a configuração dos menus do leitor de MP3, o contraste do visor do GPS, o modo de apresentação de data&hora da estação meteorológica, a minha atitude perante os outros e a (v)ida.
início
Arquivo
Outubro 2004 . Novembro 2004 . Dezembro 2004 . Janeiro 2005 . Fevereiro 2005 . Março 2005 . Abril 2005 . Maio 2005 . Junho 2005 . Julho 2005 . Agosto 2005 . Setembro 2005 . Outubro 2005 . Novembro 2005 . Dezembro 2005 . Janeiro 2006 . Fevereiro 2006 . Março 2006 . Abril 2006 . Maio 2006 . Junho 2006 . Julho 2006 . Agosto 2006 . Setembro 2006 . Outubro 2006 . Novembro 2006 . Dezembro 2006 . Janeiro 2007 . Fevereiro 2007 . Março 2007 . Abril 2007 . Maio 2007 . Junho 2007 . Julho 2007 . Agosto 2007 . Setembro 2007 . Outubro 2007 . Novembro 2007 . Dezembro 2007 . Janeiro 2008 . Fevereiro 2008 . Março 2008 . Abril 2008 . Maio 2008 . Junho 2008 . Julho 2008 . Agosto 2008 . Setembro 2008 . Outubro 2008 . Novembro 2008 .
Leituras
acto isolado . um amigo pop . ana de amsterdam . arrastão . avatares de um desejo azeite&azia . um blog sobre kleist . b-site . bandeira ao vento . a causa foi modificada
como por acaso . confraria do atum . o crime de laio . da literatura . estado civil
ex-ivan nunes . individualismo solidário . irmaolucia . lilás com gengibre
linha dos nodos . margens de erro . naked sniper . a natureza do mal
pastoral portuguesa
. o regabofe . renas e veados . solvstäg . sombras errantes
os tempos que correm . a terceira noite . valkirio . welcome to elsinore . yesterday man
   
This page is powered by Blogger. Isn't yours? Creative Commons License