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Serviços
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Há dois tipos de pessoas: as que dizem A Morte em Veneza, de Luchino Visconti, e as que dizem A Morte em Veneza do Visconti. Eu ponho-as a par para se ver melhor:
A Morte em Veneza, de Luchino Visconti A Morte em Veneza do Visconti
Já que aqui estamos, aproveito esta maravilha tuftiana para informar que A Morte em Veneza do Visconti é capaz de ser a minha memória cinematográfica mais marcante. Vi o filme pela primeira vez nos primeiros anos da adolescência, ou ainda na puberdade, sei lá. Há muito tempo, pronto. Fiquei tão espantado com o filme que ainda hoje consigo ressentir aquele meu espanto. Fecho os olhos, penso com muita força na ocasião e espanto-me outra vez. Também deve ter sido ali que nasceu a minha capacidade para amar ou odiar um filme apenas pela cor da sua luz.
Nunca fui a Veneza, nunca li o livro e já morri várias vezes, mas nunca na praia. Não me admirava que isto explicasse muita coisa.
Há tempos li algures que uns quaisquer serviços pidescos tinham incluído A Morte em Veneza, de Luchino Visconti, numa lista de filmes supostamente associados a uma cultura (ou assim) de pedofilia (que é aquilo que os jornalistas, por comodismo, nos desensinaram a chamar a tudo o que seja atracção sexual por pessoas sem idade para votar). Como quem inclui Fahrenheit 451 do Truffaut numa lista de filmes que estimulam a prática do fogo posto ou o Everything You Always Wanted To Know About Sex (But Were Afraid to Ask) do Allen (este já não resulta tão bem) numa lista de filmes que incitam ao sexo com ovelhas e que, portanto, deveriam ser proibidos em vários distritos do Interior Norte. |
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SCUT
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Já está à vossa disposição, na secção de fotos, o apanhado com todas as fotos que foram passando pela primeira página deste simpático sítio electrónico ao longo do último ano. Quem já viu pode rever, quem nunca viu tem agora a oportunidade de o fazer. Tudo sem custos para o utilizador. Para que todas e todos sejamos felizes para sempre.
(Depois disto, de ainda não estiverdes enfartados, podeis ir ver estas. Não são minhas, é certo, mas, apesar desse pequeno defeito, também valem a pena). |
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Casa & Descoloração
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Vi-a ao longe, atravessando o fundo da rua. Está tão velha. Foi como quando reparei, numa digressão por fotografias passadas, que o azul da parede nascente da sala já não era o mesmo, forte e homogéneo, de quando o tínhamos pintado a pulso. Depois foi o trabalho, o diabo que carregue o capitalismo, e os filhos de ocasião que ela ia arranjando para fazer as vezes das hormonas. Quando um dia, pouco depois daquilo da parede, lhe anunciei que, por «companheira» me fazer vê-la como um conhecimento de reunião tupperware, lhe iria passar a chamar «outra significativa», nesse dia, digo, a nuvem condensou-se. Desabámos sobre a sala, lavando-lhe o azul que ainda havia. Eu não suportava os seus putos platónicos, ela não podia com as minhas traduções à martelada. O diabo que carregue as estruturalistas arrependidas. Pelo menos aprendi que devemos sempre ter o cuidado de escolher alguém que use o mesmo anti-rides que nós. E agora está tão velha e eu ainda tão novo. |
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Erupção
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Deitei-me de costas, fiz-me ao colchão e senti a dor fina e localizada. Eu nunca me deito de costas, parecia que estava a adivinhar. Os sintomas apontavam claramente para uma borbulha nas costas. Sentei-me na cama e levei a mão esquerda ao sítio. Senti-a: era uma borbulha nas costas. Passei sobre ela a unha falhada do polegar, que regressou ao meu convívio molhada pelo pus. Amo as minhas borbulhas como se fossem as filhas ou o joelho de titânio que nunca tive, mas não consigo resistir a fazer-lhes isto. Eu sei, é terrível, escusais de mo dizer. Percebesse eu como fazem os criacionistas para lidar com estas coisas e talvez conseguisse não ser um buraco negro enjaulado no corpo de um macho desta espécie. |
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Optimismo antropológico*
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Não sou dos que acham que as pessoas que não concordam comigo, em termos pessoais-íntimos ou político-ideológicos (-ideológicos?), são infelizes, ressabiadas, imersas numa aversão corrosiva pelo muito que não compreendem, impelidas a autojustificar-se através da anulação da diferença, em negação de factos evidentes que colidem com medos cultivados no decurso de histórias pessoais traumatizantes, indignas do que a vida tem para lhes dar, que com alguma sorte talvez tenham a graça do arrependimento no último momento antes de partirem para a paz inútil da inexistência e/ou qualquer outro (outro?) delírio pseudpsicanalítico de café, ao fim da tarde, cervejinha à frente, no parque, brisa amena, patos a grasnar, as criancinhas lá longe para não importunarem com o barulho. Eu sou dos que acham que as pessoas que não concordam comigo, em termos pessoais-íntimos ou político-ideológicos (-ideológicos?), são simplesmente parvas.
__________ * (optimismo antropológico?) |
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Obrigado
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Obrigado. Muito obrigado. Completamente obrigado. Demasiado obrigado. Tão obrigado que se acabou o espaço para agradecer. |
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Aposentos
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Estava eu a tentar informar-me acerca dos futuros asiáticos, que são os futuros de todos nós, para quem ainda não tenha percebido, quando, inadvertidamente, fiquei a saber que
há uma canção dos Bee Gees que é boa para a ressuscitação cardio-respiratória
e que
o sono é mais importante para o ser humano que o comer e o beber.
Ninguém disse nada acerca do fumar, do inalar, do absorver transdermicamente, do injectar ou de outras formas de input de que neste momento não me consiga lembrar. Graças a deus. Sempre é menos uma coisa com que me importunam. Mas se já consigo sobreviver sem o sono, não vejo razão para me preocupar com o comer. Também ninguém falou de acumulação de elementos, mas é uma questão de lógica. O sono não é propriamente uma forma de input, mas se pegarmos nesta tralha toda e a passarmos, toda junta e com cuidadinho, para o plano dos factores endógenos e exógenos essenciais à vida do tal ser humano, a tal lógica aguenta-se fininha que nem um carapau como se nem sequer lhe tivéssemos mexido. Coisas com que um ser humano se preocupa quando tem de passar a noite a proteger os aposentos contra os vermes mutantes assassinos do espaço, coisas que podem dar sempre jeito. A mim, resolvem-me uma quantidade apreciável de problemas, nomeadamente de carácter orçamental, para não falar do resto. Há coisas que o emagrecimento do Estado social deixou a descoberto e que também não será este OGE a resolver. Isto agora é cada um por si. Quanto aos futuros asiáticos, fiquei na mesma. |
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Kreditbanken
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Já tomei todas as providências. Contactei, casualmente, os nós da rede. A senhora da papelaria. A senhora da mercearia. A senhora do centro de saúde. A senhora que volta e meia vem cá a casa tomar chá e fazer festas ao cão. Elas encarregar-se-ão das restantes senhoras. E dos senhores, que para o caso, como para qualquer caso, pouco importam. Já lhes expliquei que as marcas foram autoinfligidas. Cheguei tarde demais, já não havia grande coisa a fazer. Que agora, ainda por cima, lhe deu para dizer que fui eu. O meu sofrimento, vejam só. A ver se amanhã não me esqueço de acrescentar que, não fora a minha intervenção, e o resultado final teria sido ainda mais horrível. Casualmente. Até tenho de entregar as apostas da Santa Casa, antes que me esqueça. E tenho de ir comprar margarina, que me esqueci. E tenho de pedir outra via do boletim de vacinas que, vá-se lá saber como, perdi, antes que me esqueça. Foi logo a seguir a ter saído da consulta. Deve-me ter caído. Claro que ninguém o tentou devolver. Estas bestas, esta gente. A do cão não há precisão, há-de telefonar com as estórias dela amanhã ou depois e digo-lhe, lá pelo meio. Nem quero imaginar o que teria sido senão fosse eu. Se não tivesse chegado a tempo de impedir o pior. Agora só tenho é medo que volte a acontecer. É que não posso estar sempre... Sempre. Também tenho a minha vida, a minha mínima, residual e ansiosa vida. Não se pode pedir mais. |
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Summertime 23
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Os rapazes do campo deslocam nos olhos o fascínio da descoberta em falta nos rapazes da cidade. Para os rapazes do campo tudo é sempre verde, não importa a sua idade: o conhecimento vai-se formando neles, não como uma estante que o tempo cumpre com livros ou vasilhame, mas como um órgão vital que amadurece no útero dos bosques. Os rapazes do campo crescem do sensível como animais fabulosos. Os da cidade apenas do dizível como profetas transpostos. Perante o mar desconhecido, os rapazes do campo desejam sem temor ser Odisseus porque crêem haver quem por eles se permita partir. Os rapazes da cidade, à vista do infinito, mais não pretendem que a segurança descritiva dos périplos. Ali, hóspede na noite dos eucaliptos, incapaz de concatenar educadamente a sua apologia com a minha certeza de que os seres belos aprendem mais cedo, fugi ao silêncio perguntando E as raparigas? As raparigas não sei, respondeu.
Elliott Erwitt, s.t. (Colorado, U.S.A.), 1955 |
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جبل موسى (encore)
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E um cartão único do cidadão de cor diferente para si e para os seus, por assim dizer? Que me diz, hã? Que contenha os mesmos elementos, que desempenhe as mesmas funções e até que seja chamado pelo mesmo nome — afinal, é único e não convém transformá-lo em motivo de anedotas. Os nomes são coisa séria, como quem raramente o reconhece sabe perfeitamente. Um cartão único em que caiba tudo o que cabe no outro cartão único, só que em cor-de-rosa, por exemplo. Vai ver que assim até fica mais bonito. E escusa de contaminar os normais. |
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Febre hemorrágica de sábado à noite
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Reconheci-a nele com outras peles, outros pêlos, outras mucosas. Não é pessoa em que as mucosas (ou as peles, os pêlos) interessem sobremaneira. À própria, aos outros (a mim, a todos vós que estais no chão). O pouco que sobra (os nervos, os tendões) também não, por muito capaz que seja de despertar inclinações em quem as tem. Não me perturbou minimamente. A sério. É para isto que eu vou ao teatro. |
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Criador
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Lá continua, naquela inacção improdutiva que é o coração do seu charme. Mas continua a queixar-se? Sim, continua a queixar-se, apesar de, recentemente, os pretextos dos seus queixumes terem sido cruamente abolidos pela bondade sem coração do sistema. Foi um grande abalo para ele. Não há quem o ature, por estes dias. Então agora queixa-se quê, de ter ficado sem razões para se queixar? Quase: queixa-se em abstracto. Já é do domínio das leis do movimento, o seu lamento. Mas creio que não irá tardar até que se agarre a algo novo e profundamente corrosivo através do qual consiga expressar a sua raiva contra o mundo. Achas? Tenho a certeza. Não é pessoa para viver muito tempo sem um consolo. Além do mais, é um criador, o que só lhe torna a vida muito mais complicada. Eu, pela minha parte, disponho-me, apesar da aridez do meu lugar. De que não me queixo. É assim o amor. |
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Talvez para a próxima
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A pedido de várias famílias, o código para copiar e colar: <img src="http://img222.imageshack.us/img222/7344/20081004awo5.jpg" border="0" /> |
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Álcool
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Temo ter causado danos irreversíveis. Mas temo mesmo, não é maneira de dizer. De que já não haja nada a fazer para impedir que o pior aconteça. Temo muito, imenso. Tanto que optei, em consciência e com o meu próprio consentimento escrito, por me embriagar em casa, sozinho.
A persistência da minha médica de familia mononuclear em deixar de ceder a chantagens e forçar-me à abstinência, os atrasos nos correios, uma operação stop da brigada de trânsito e o que ainda falta para a primavera, levaram-me a redescobrir os prazeres do álcool. Meti Ladytron, Fischerspooner, Goldfrapp, Patrick Wolf, Cansei de Ser Sexy e Junior Boys — não me lixem, «In the Morning» é o melhor hit single de usar e deitar fora da última meia hora — no meu poderoso e funcional Sóni FUFMEKWV-903-HY3-LPGDSFNQ em shuffle&repeat e embriaguei-me em casa, sozinho.
A mistura original também incluía Placebo e Beirut, mas cedo percebi que estas adições poderiam produzir passagens aleatórias atentatórias do futuro do universo. Tropeçar de «Deep Blue» para «Prenzlaurberg» ou de «Koko» para «Post Blue» seria o suficiente para perturbar o equilíbrio vulnerável de que a manutenção desta esterqueira depende como a estabilidade dos mercados financeiros internacionais do dinheiro dos contribuintes americanos. Poderia sempre, e não foi que não me tivesse ocorrido, confiar na sorte, mas achei, creio que acertadamente, que essa aposta corria riscos muito sérios de estilhaçar os limites da boa vontade etimológica. E então desisti, desisti e embriaguei-me em casa, sozinho. |
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Desencontro (um hetero-retrato)
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